Às vezes, a meio da noite, um grito. Há alturas em que penso que sou eu quem grita, embora não grite nunca: sempre calei os gritos todos em mim. A minha mãe tem oitenta e nove anos: está lá dentro, na cama. Não sai da cama. Dou-lhe o almoço e o jantar, mudo-lhe a fralda, consigo que engula os comprimidos. Quase não fala: uma palavra de vez em quando, um gemido, os olhos sempre muito abertos que não me fixam nunca. Gostava que me fixasse e dissesse o meu nome. As pernas dela muito magras agora, os braços muito magros mas a cara redonda. Ficou assim depois de eu me reformar, há quatro anos. Antes de me reformar tínhamos uma empregada duas tardes por semana. Depois de me reformar sou eu que faço as limpezas. E, tirando o canalizador, derivado a um problema no sifão do lavatório, não entra ninguém cá em casa.
O apartamento não tem vista: quer dizer, do outro lado das janelas os prédios em frente, a mercearia, o café. No verão o dono do café põe duas ou três mesas no passeio. Sento-me ali um bocadinho ao regressar do supermercado, peço uma água, fico a ver os pombos. Há um vizinho que lhes dá pão, a esfarelar migalhas da varanda. Reformado como eu, sozinho como eu, quase sempre de pijama. Volta e meia sorri-me e eu sorrio-lhe. Depois sentimo-nos ambos envergonhados. Os meus pais não levavam a bem que eu sorrisse aos homens e não posso deixar de dar-lhes razão, é um sinal de atrevimento. Alugaram este quinto andar ao casarem-se. O senhorio faleceu há séculos, é o filho quem passa o recibo da renda. Conheço desde pequena quase todas as pessoas do prédio, excepto os hóspedes do músico do segundo esquerdo, sempre a mudarem. O músico tocava clarinete antes dos pulmões perderem o fôlego. Segundo os meus pais era um artista a soprar na banda da Polícia e a farda, ainda me lembro dela, tornava-o mais alto. Deve guardá-la no armário na esperança de a tornar a pôr no caso dos pulmões recuperarem. Dá-me a impressão que uma das hóspedes dele recebe cavalheiros à noite. Não afirmo porque não estou segura. Mas, no caso de a minha impressão ser correcta, não me parece uma coisa acertada. A hóspede pinta o cabelo de loiro, pinta as unhas dos pés. Mais de uma ocasião ocupou a mesa ao lado da minha na esplanadazita do café, de cigarro aceso e revista. Se a minha mãe fosse como era dantes chamava-lhe um mau exemplo. Se o meu pai cá estivesse não lhe chamava nada, arremelgava-se e a minha mãe, logo
– Só dás maus exemplos à tua filha
pronta a benzer-se. Sendo a minha mãe como era nem percebo como nasci.
Dá muito trabalho tomar conta de uma pessoa nestas condições. As papas, as fraldas, mudar-lhe a posição na cama a fim de evitar feridas nas costas, esperar horas no Posto pelo médico que me passa as receitas a perguntar
– Como vai ela?
e eu
– Uns dias melhor outros dias pior
para fazer conversa. Na realidade a minha mãe nem dias piores nem dias melhores, sempre na mesma. Há quatro anos deu-lhe o ataque em maio e ficou assim até hoje, inalterável. Não sei se gosto dela: sei que tenho de tomar conta das coisas. Se calhar gosto, não penso nisso. Não tenho ocasião para pensar e, se penso, é no vizinho de pijama. A mulher dele não morreu, fartou-se e foi-se embora. Tanto quanto suponho não me fartava. O vizinho usava risca ao meio: agora não usa risca nenhuma, é careca. Os senhores carecas parecem-me distintos, bonitos, sobretudo quando a pele da cabeça brilha. Não se me dava passar a mão numa cabeça que brilha, lisinha, suave. Imagino-me na sala dele, a beijar-lhe a pele do cocuruto, mas imagino baixinho, não vá a minha mãe dar por isso: quem me garante que não se levanta da cama, indignada
– Herdaste os maus exemplos do teu pai.
Se calhar herdei. E o meu pai careca igualmente, com um par de mechas grisalhas por cima das orelhas, sempre com o jornal. De longe em longe suspirava
– A vida é um frete
e regressava às notícias. Ignoro se a vida é um frete, não empreendo acerca disso embora à noite, ao lado da minha mãe, se me afigure que sim. Mas talvez cheguem horas melhores. Talvez consiga gritar enquanto caio da janela e o vizinho de pijama não há-de dar por isso.