Aos vintes somos demasiado jovens e inexperientes. Aos quarentas expira-nos a validade profissional, social e pessoal – enquanto os homens são profissionalmente consumíveis até depois dos cinquentas, e desses para cima são socialmente “maduros”. Para a sociedade e as organizações, nós, mulheres, temos prazo de validade e chegados os 40, encaminham-nos para a prateleira dos consumíveis com cautela a preço promocional, e rapidamente se nos expiramos. Meus senhores de tenra-meia-e-toda-a-dade: em pleno séc. XXI, o que já está para lá do prazo de consumo é idadismo em geral, e o idadismo de género em particular. Como todos os estigmas sociais, este fascínio discriminatório com a eterna juventude, o último dos preconceitos de grande aceitação social, tem um impacto profundo na saúde mental das mulheres.
O idadismo e o género. O preconceito com a idade ganhou nome em 1969, quando o psiquiatra norte-americano Richard Butler chamou idadismo à “estereotipação sistémica e discriminação contra pessoas que são velhas”. Afirmou também que os seus colegas eram praticantes, considerando que os adultos mais velhos estão para lá da possibilidade de tratamento, oferecendo pior cuidado terapêutico, normalizando a depressão como parte normal do envelhecimento – toda uma sistémica desigualdade de “health status”, como reconheceu a Organização Mundial de Saúde em 2021, no seu “Global Report on Ageism”, que mostra às claras as características gerentofóbicas da sociedade: 1 em cada 2 adultos entre os 16 e 99 anos têm atitudes preconceituosas de idadismo, sendo o número maior na Europa.
Se isto já é mau quando pensamos no estigma etário, pior fica quando lhe damos género, interseccionando-se a discriminação – a que podem e acrescem outras, como o racial. Segundo a OMS, somos considerados idosos a partir dos 65 anos (nos países desenvolvidos; nos demais, depois dos 60). Mas em relação às mulheres, o mundo comporta-se como se lá chegássemos a partir dos 40, porque à idade se juntam séculos de relações sociais de género iníquas e a vinculação do valor e status das mulheres ao seu “capital estético”: a aparência, sendo a beleza standard e a juventude os “ativos” que dão acesso às oportunidades e ao sucesso. No trabalho, o problema é patente: 77,8% das mulheres sofrem discriminação por idadismo de género, 60% das quais depois dos 21 anos de carreira, de acordo com a “Women of Influence+” (num inquérito de 2024).
A ironia de tudo isto é que a esperança de vida continua a subir, a população portuguesa é das mais envelhecidas da UE, a longevidade é a grande “healthtrend” e a indústria já não pensa em “lifespan” mas em “healthspan”, e o “silver market” é o mais apetecível – ainda assim, aos 40+ desce em nós a capa da invisibilidade. Mais irónico ainda: em 2024, a nossa esperança média de vida global eram 76 anos, avançando pelos oitentas nos países desenvolvidos. Portanto, aos 40 vamos a meio da vida. Aos 50, com ou sem menopausa, temos mais de 30 anos pela frente. A biologia mudou, a sociologia mantém-se estática – e a nossa saúde mental deteriora-se.
Idadismo de género e saúde mental. Antes de introduzirmos o idadismo na equação, já a saúde mental das mulheres compara mal com a dos homens. Menos igualdade, menos saúde mental, disse a OMS em 2001, reconhecendo que os papéis sociais de género são a determinante que antecede a bioquímica: a nossa prevalência de depressão e ansiedade é 2x maior, o risco de burnout 34%, e a incidência de distúrbios alimentares galopante. Junta-se um larga pitada de idadismo, e aumenta o isolamento social, a solidão (uma “serial-killer” silenciosa), o risco de violência e abuso. A OMS, ao analisar 422 estudos sobre o tema, concluiu que o idadismo é um importante fator de risco para o desenvolvimento de doenças mentais. E se elas se desenvolvem: nos idos de 2015, associavam-se mais de 3 milhões de casos de depressão feminina ao idadismo – imagine-se em 2025, com redes sociais à mistura. A resposta das mulheres à gerentofobia alheia e ao seu autoestigma etário é de grande ansiedade. E tem uma tradução cosmético-estética de grande impacto na sua saúde mental, na batota à perceção da idade: o idadismo aumenta a incidência do transtorno dismórfico corporal, anorexia, abuso de substâncias e o declínio cognitivo.
Eu acabei de fazer 47 anos, e recuso rótulos de validade. As mulheres que nunca sentiram discriminação estavam desatentas, e portanto já experimentei essa ignóbil sensação muitas vezes. Não aspiro aos perpétuos 34 anos, identificados por arautos do preconceito como a idade ideal das mulheres, estou muito bem com a minha. Mas se somos metade da população mundial, ao menos pela quantidade temos de mudar a forma como se pensa, sente e age perante a idade – que a longevidade não discrimina, o Homem sim.
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