Quando a Apple decidiu fabricar o iPhone na China, os executivos da multinacional depararam-se com um problema: a produção em massa do novo smartphone exigia a contratação de 8700 engenheiros industriais, um processo que nos EUA demoraria nove meses. Neste caso, demorou apenas 15 dias.
O episódio, relatado em 2012 pelo jornal The New York Times, entrou para a História como uma manifestação da pujança industrial da China e da sua abundante mão de obra qualificada. Se fosse hoje, a contratação daquele exército de técnicos seria ainda mais rápida. Não contando com as dezenas de milhares que estudam fora do país, a China forma anualmente 1,3 milhões de engenheiros – dez vezes mais do que os EUA. No conjunto das quatro disciplinas STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), o número ronda os quatro milhões.
Entre as dezenas de livros sobre a China publicados no ano passado, Breakneck, China’s Quest to Engineer the Future, de Dan Wang, foi um dos mais comentados. A tese central do ensaio é simples: “A China é um Estado de engenharia (engineering state) que não pode parar de construir”, enquanto a América é “uma sociedade jurídica (lawyerly society) que bloqueia tudo o que pode”. Natural da província de Yunnan, Dan Wang emigrou com os pais para o Canadá no final dos anos 1990. Estudou Filosofia e Economia nos EUA, e viveu depois seis anos em Xangai, entre 2017 e 2023. Viajou pela China adentro, desde Guizhou, uma das províncias mais pobres, até Shenzhen, a zona económica especial adjacente a Hong Kong onde a Apple começou a produzir os iPhones e algumas das grandes empresas tecnológicas chinesas têm a sua sede.
No domínio das infraestruturas e obras públicas – pontes, caminhos de ferro, autoestradas, aeroportos ou redes de metropolitano –, as diferenças entre o “Estado de engenharia” e a “sociedade jurídica” apontadas por Dan Wang são esmagadoras. A alta velocidade ferroviária é um exemplo. A construção da linha da Califórnia, que ligará inicialmente São Francisco a Los Angeles, numa distância de 640 quilómetros, foi anunciada em 2008, no mesmo ano em que a China inaugurou a sua primeira linha de alta velocidade, um troço de 166 quilómetros entre Pequim e Tianjin. Dezoito anos depois, a rede chinesa já excedeu os 50 000 quilómetros de extensão, ligando quase todas as 160 cidades com mais de meio milhão de habitantes. Entretanto, na Califórnia foram construídos apenas 129 quilómetros e, segundo algumas previsões, a linha só estará operacional na década de 2030.
Nos últimos 20 anos, a China tornou-se a maior potência industrial do planeta e também o maior gerador de eletricidade, um fator considerado decisivo para o desenvolvimento da Inteligência Artificial. A Universidade Tsinghua, em Pequim, e a Universidade de Zhejiang, na costa leste do país, estão hoje classificadas entre as melhores do mundo nas áreas de Informática, Química e Ciências dos Materiais. “A economia real é a base de tudo (…) Nunca devemos desindustrializar”, costuma dizer o Presidente chinês, Xi Jinping.
Wang Xiaodong, um dos mais conhecidos teóricos do chamado “novo nacionalismo”, nascido em 1956, deve estar satisfeito. Já em 2011, quando começou a defender o Partido Industrial, Wang proclamava que “a industrialização tem o potencial de transformar não apenas a aparência da China, mas a face de todo o planeta”. “Muitos dos nossos cientistas e técnicos viajarão pelo mundo para trabalhar, levando consigo civilização, uma existência digna e alívio da pobreza.”
Sem mencionar o Partido Comunista, cujo “papel dirigente” seria consagrado na Constituição em 2018, Wang Xiaodong considerava que “as principais facões ideológicas” do seu país (“a esquerda e a direita, ou seja, os liberais”) pertencem ambas ao Partido Sentimental: “O que têm em comum é que subestimam os feitos da industrialização da China e tendem a olhar para os EUA como um deus.” Na sua visão, a industrialização é mesmo “o valor universal da China”. “Quem diz que nos faltam valores universais?”, pergunta o autor. “A democracia não é o único valor universal”, responde. “A ciência é um valor universal. A industrialização é um valor universal. Ao contrário dos ocidentais, queremos garantir que a industrialização beneficie todos.”
À luz do marxismo-leninismo, que oficialmente continua a ser um “princípio cardeal” do Partido Comunista Chinês, os adeptos do Partido Industrial não serão um modelo de ortodoxia. Também não são propriamente dissidentes, como o Movimento dos Novos Cidadãos, por exemplo, cujo fundador, o jurista Xu Zhiyong, está a cumprir uma pena de 14 anos de prisão por “atividades subversivas”. Mas pelo que Dan Wang observou, “no reino fortemente censurado da internet chinesa, onde nenhum grupo pode ser muito organizado”, este conjunto de intelectuais “conseguiu fazer-se ouvir”.