1. Na 2ª volta das eleições presidenciais brasileiras, no próximo domingo, 25, o que está em jogo não é só nem sobretudo uma escolha entre centro e esquerda, por um lado, e direita/extrema-direita, por outro, mas uma opção entre a garantia de respeito pela democracia e pela Constituição da República, assegurado por Lula da Silva, e a (quase?) certeza de desrespeito por ambas de Flávio Bolsonaro. Lula, qualquer que seja o juízo sobre a sua ação política, tem muitas décadas de inquestionável luta pela liberdade e pelos valores consagrados na Constituição Cidadã de 1988, e 12 anos como Presidente em que eles nunca foram beliscados. Flávio tem como programada prioridade amnistiar os condenados por uma tentativa de golpe de Estado contra a democracia – “capitaneada” pelo seu pai, mentor, designador, Jair Bolsonaro -, e modificar a Constituição. Para salientar esta flagrante opção, intitulei a minha última crónica “Entre a certa democracia e o regresso de Bolsonaro”. À luz dos resultados das de 4 de outubro acrescento algumas notas.
2. Esses resultados – das eleições presidenciais, para deputados, senadores e governadores – foram altamente favoráveis à direita/extrema direita. No que respeita às presidenciais, não tendo sido os mais “desastrosos”, foram suficientes para se ter de concluir por um favoritismo de Bolsonaro na 2ª volta. Favoritismo que já existia mesmo a confirmarem-se as sondagens para a 1ª, que davam Lula a vencê-las por uma curta margem. Porque os cerca de 12% dos votos que no 1º turno previsivelmente iriam para outros quatro candidatos, segundo as sondagens transferir-se-iam em uns 70/75% para Bolsonaro. Acrescendo que quem não ficou à frente nunca ganhou a eleição, parece que só quase um milagre poderá reeleger Lula.
Em relação a este histórico há que considerar, no entanto, que nunca a diferença entre o mais e o menos votado foi tão pequena: de 1,8%, cerca de 2,240 milhões de votos num universo de quase 159 milhões de eleitores, dos quais se abstiveram 33 milhões. Assim, o principal objetivo de Lula é conquistar parte deles e a maioria dos 7% de indecisos (além, claro, dos 2,3 milhões que votaram em branco). Por outro lado, os quatro candidatos que segundo as sondagens teriam cerca de 12% dos votos, tiveram apenas 7,5%. Por isso é natural que dos outros 4,5% grande parte tivesse decidido votar em Bolsonaro logo no 1º turno.
Estas duas situações permitem a Lula diminuir ou anular a vantagem com que Flávio se apresenta na 2ª volta. Tanto mais que, reagindo à catástrofe eleitoral, muitos “cidadãos adormecidos” acordaram para a os óbvios perigos para a democracia e para o país, inclusive para a sua soberania, que representaria a eleição do Bolsonaro 01. Em matéria de soberania, o Brasil sujeitar-se-ia aos ditames e interesses do “império”, dos USA de Trump. Onde, aliás, está “refugiado” o Bolsonaro 02, Eduardo, fugido à Justiça do seu país e contra ele agindo, por exemplo ao pugnar pela aplicação de mais tarifas aos produtos brasileiros.
3. Para anular ou mesmo vir a inverter a vantagem do seu adversário, muito está a contribuir uma nova dinâmica na campanha de Lula, mormente na utilização das redes sociais e na intervenção da juventude. Quanto a esta, escrevia um comentador que, “animal político, o Presidente percebeu a mudança dos ventos e tem estimulado os jovens a trocar a apatia pela atuação partidária. É um passo em uma longa caminhada”.
Quanto ao combate nas redes sociais, que a extrema-direita e o populismo dominam, é muito difícil travá-lo, até porque as armas, na prática, são muito desiguais: essa forças recorreram ao discurso de ódio, a todo o tipo de truques, mentiras, falsidades, a que não pode recorrer quem se lhes opõe em nome dos valores ou da simples decência. Seja como for, segundo um estudo da Quaest, Lula passou para a frente no Índice de Popularidade Digital: subiu de 70,7 para 82,6 pontos, enquanto Flávio caiu de 80 para 76,4.
4. Entretanto o Governo de Lula conseguiu fazer aprovar ou lançou algumas medidas que também poderão dar um contributo, mesmo que pequeno, para melhorar a sua “posição”. Essas medidas vão da isenção do imposto de renda, para quem recebe até cerca de 190 euros por mês, até aos apoios para diminuir o preço dos combustíveis, ao fim das chamadas “bets”, para combater o vício do jogo, ou ao perdão de certas dívidas dos “microempreendedores”. E, mais importante, passar a haver dois dias de descanso obrigatório para os trabalhadores, em vez de um como até agora – o que só há dias foi aprovado no Senado (inclusive, agora, por Flávio…), mas já há muito fora proposto por Lula.
Muitos considera(va)m importante para a decisão dos indecisos e para irem ou não votar abstencionistas, os dois únicos debates televisivos entre Lula e Bolsonaro. O primeiro foi domingo na Band, o segundo será amanhã, 6ª feira, 23, na Globo. O da Band foi em geral um triste espetáculo, pelo conteúdo e pela agressividade, e sobre o seu reflexo nas opções eleitorais quando escrevo (tarde de 2ª feira, 19) ainda não há elementos. Julgo, porém, que não terá tido muita influência nessas opções. Embora, após um início fraco Lula ter sido o “melhor”.
O que o Brasil mudou! De “país do futuro” poderá passar a ser “país do (pior) passado” – quando, nos dois primeiros mandatos de Lula, chegou a ser o “país do presente”. Pela sua situação interna e pela sua posição internacional, a sua influência e o seu prestígio no mundo
Melhor quer nas questões concretas (Flávio só repetiu mentiras, promessas e lugares-comuns), quer no objetivo primordial de ambos: atacar e rebaixar o adversário, dado que hoje no Brasil se vota sobretudo contra, sendo o índice de rejeição – igual o dos dois – tão ou mais importante do que o da aprovação. Ora Lula tem muito mais de verdadeiro em que pegar em Flávio do que o contrário – e pegou-lhe sobretudo através de perguntas, que não largou e a que ele nunca respondeu. Um trunfo suscetível de lhe trazer efetivos ganhos foi a sua proposta, não aceite, de ambos porem à disposição da Justiça contas bancárias, telemoveis, etc., para apurar a seriedade de cada um…
5. A menos de uma semana das eleições a generalidade das sondagens aponta agora para um empate técnico, a maioria delas ainda com uma pequena vantagem para Flávio. Mas mesmo nestas essa vantagem diminui de quatro para dois ou só um ponto em poucos dias. Assim, é nítido que Lula está em ascensão e Bolsonaro a descer (não direi em queda). E caso se mantenha a dinâmica da campanha do Presidente e esta tendência, o há duas semanas quase impossível passará a ser bem provável.
Se Flávio Bolsonaro ganhar será uma desgraça para o Brasil e, repito, a democracia estará em perigo, dada a composição da Câmara dos Deputados e do Senado, que inclusive poderá alterar a composição do Supremo Tribunal Federal, que foi um “travão” para as tentativas de violar a Constituição e os desmandos do pai. Se Lula da Silva vencer a democracia estará salvaguardada, mas o Presidente terá a sua ação ainda mais limitada, cerceada, descaracterizada do que até agora.
O que o Brasil mudou! De “país do futuro” poderá passar a ser “país do (pior) passado” – quando, nos dois primeiros mandatos de Lula, chegou a ser o “país do presente”. Pela sua situação interna, com dezenas de milhões de brasileiros a saírem da pobreza extrema, e pela sua posição internacional, a sua projeção e influência, o seu prestígio no mundo. E nessas eleições, que como muitas outras cobri jornalisticamente, os adversários de Lula foram irrepreensíveis democratas, opositores da ditadura, homens de princípios e de progresso.
O primeiro, José Serra, ministro de FHC e que em Portugal seria da esquerda do PS, o segundo Geraldo Alkmin, que também foi ministro de FHC e governador de São Paulo, recandidato a vice-presidente de Lula – o que dá bem ideia da amplitude ideológica da “chapa” de ambos. Enquanto Flávio só conseguiu arranjar para candidato a vice outro político do PL, o partido a que o pai e ele se acolheram, agora a maior força política brasileira. Presidido por Valdemar Costa Neto, um político que já foi tudo, condenado por corrupção no tempo do “mensalão”, investigado no processo da trama golpista e agora num caso relacionado com o desvio de milhões das emendas parlamentares. Que dizer mais?