O realizador Adam Curtis passou décadas a filmar a mesma tragédia silenciosa: o momento em que os políticos desistiram de gerir a realidade e passaram a gerir apenas a nossa perceção dela. Quando o mundo real se torna demasiado complexo, violento ou injusto, os governos constroem uma narrativa paralela, uma ilusão consensual onde todos fingimos que as coisas são inevitáveis. Olhamos para o ecrã do telemóvel e vemos as ruas de Belfast a arder em fumo e xenofobia, e depois descemos o feed para ver Portugal a aprovar leis que desmantelam o Estado social, e a sensação é de um ataque em todas as frentes. Uma hipernormalização da violência.
O País transformou-se num parque de diversões para fundos de investimento. Os salários nacionais foram condenados à miséria enquanto as rendas subiram ao preço de Berlim ou Paris. Quando Montenegro sobe ao púlpito para justificar a austeridade disfarçada de reformas laborais, a sua cassete repete um mantra cirúrgico: “Temos de mudar de mentalidade.” É uma frase aparentemente inócua, parece que saiu de um jargão futebolístico, mas na realidade carrega um ADN ideológico perverso. Um plágio, para ser mais certeiro.
Há quase meio século, Margaret Thatcher dizia exatamente o mesmo: “A economia é o método; o objetivo é mudar o coração e a alma.” O truque da direita nunca foi apenas cortar nos apoios sociais, foi convencer as pessoas de que a culpa da sua pobreza é do seu próprio carácter. Estes senhores têm nojo do pobre. Acreditam mesmo que o pobre merece ser pobre. Montenegro mimetiza a Dama de Ferro com precisão cirúrgica. Quando o primeiro-ministro diz que o País precisa de “mudar de atitude”, ele está a sugerir que se tu não consegues pagar a renda ou se foste despedido como um número descartável, a culpa não é do mercado desregulado. A culpa é tua, que tens uma “mentalidade” fraca.
A Prestação Social Única (PSU) é o culminar desta reengenharia da alma. Sob a capa virtuosa de “combater a fraude”, ressuscita-se a Workfare britânica dos anos 80. Se há trabalho que precisa de ser feito nas autarquias, porque é que o Estado não contrata e paga um salário digno? Não o faz porque o objetivo da PSU não é económico, é apenas moral. A ministra do Trabalho, Palma Ramalho, que assina esta caça ao desempregado, exibe um património de cinco milhões de euros. Um capital herdado que, parado a render juros, lhe garante mais de seis mil euros mensais sem que tenha de mexer uma palha. Que ironia suprema, uma vida inteira garantida pelo rentismo vem exigir “mudanças de mentalidade” a quem limpa o chão, e tem de fazer três horas de viagem em comboios apinhados de gente.
O RSI é um apoio mínimo, colocado sob escrutínio permanente, como se o problema estivesse sempre no lado de quem recebe. Do outro lado, os regimes fiscais desenhados para atrair capital e rendimento estrangeiro, e os benefícios aplicados a grandes empresas, operam num registo discreto, onde a perda de receita raramente é enquadrada como custo, mas como incentivo. Um lado é tratado como suspeita a ser fiscalizada. O outro como estratégia económica a ser protegida nunca questionado.
Há uma coisa curiosa nesta linguagem da “mudança de mentalidade”: nunca acontece em lado nenhum onde seja confortável vivê-la. Não há ministros a apanharem o primeiro barco da manhã para Lisboa, nem a viverem em casas onde o aquecimento é uma opção matemática entre comer e pagar a luz, nem a serem deslocados da cidade onde sempre viveram para dar lugar a mais um empreendimento turístico de luxo. A “mentalidade” é sempre um território dos outros.
Thatcher subiu nas intenções de voto assim que referiu a necessidade de diminuir os números da imigração. A inspiração é notória. Há uma cobardia profunda em culpar a imigração pela destruição dos serviços públicos ou pela falta de casas. É o triunfo perfeito do guião neoliberal, pôr o precário a odiar o precário. Enquanto nos entretemos a discutir as franjas, a elite rentista continua a lucrar, porque se a habitação fosse um direito garantido, o negócio deles implodia. Montenegro não é uma alternativa suave, é o punho de ferro. No final, a hipernormalização vence-nos pelo cansaço. O mesmo ecossistema de ódio que queima carros nas ruas de Belfast é o que, por cá, nos vai queimando os direitos, à pressa e em silêncio.
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