Durante décadas, consolidou-se a convicção de que a maturidade democrática se encontrava intimamente ligada ao sucesso económico, quase como se o crescimento da riqueza pudesse traduzir, por si só, um correspondente crescimento da própria comunidade enquanto tal. Por isto, julgou-se até que sociedades mais prósperas, daquelas que para todas as outras são um sonho, seriam inevitavelmente sociedades mais livres, mais abertas, mais confiantes e mais capazes de integrar a diferença, numa espécie de evolução histórica em que a abundância material acabaria por dispensar a necessidade de perguntar quem somos e por que razão permanecemos juntos.
No entanto, a Suíça de 2026 veio mostrar que há perguntas que voltam sempre e lançou uma dúvida sobre esta convicção de que falamos. A Suíça, mesmo apresentando elevados níveis de rendimento per capita, reduzidas taxas de desemprego e sendo uma democracia consolidada com um dos mais elevados índices de qualidade de vida à escala global, viu os seus cidadãos serem, todos, chamados a pronunciar-se, em referendo, quanto à possibilidade de limitar, constitucionalmente, a população do país a dez milhões de habitantes.
Para que esta convocatória popular avançasse, os motivos alegados foram a crescente pressão sobre o mercado da habitação, a sobrecarga de serviços públicos, os desafios colocados à mobilidade, a preocupação com questões ambientais e, em termos mais gerais, a alegada convicção de que nenhum território possui uma capacidade ilimitada para absorver crescimento demográfico.
Ora, tudo isto são, naturalmente, argumentos compreensíveis e preocupantes, contudo, entregar os limites da discussão ao centro destes temas é rejeitar a oportunidade de nos ocuparmos da questão verdadeiramente revelada pelo referendo suíço e que o debate público não ousou trazer à rua.
A questão que este referendo revela é que, justamente, mesmo as democracias que realizaram, de forma notável, as promessas materiais da modernidade liberal podem, ainda assim, continuar a interrogar-se sobre os limites da sua própria comunidade quando se achava que o progresso económico tornaria essas fronteiras cada vez menos relevantes. Ou seja, o movimento de expansão e desenvolvimento de uma comunidade, afinal, não tem nada a ver com existir muito ou pouco dinheiro.
Sendo assim, isto que aconteceu na Suíça oferece-nos uma discreta sub-pergunta, de resposta urgente: se não é a economia que sustenta, por si só, o progresso da experiência democrática, o que permite, afinal, que uma comunidade continue a alargar o seu horizonte sem deixar de reconhecer-se enquanto comunidade que é?
Para responder a esta pergunta, há várias hipóteses, mas crê-se que Charles Taylor, filósofo canadiano ,possa ser relevante numa eventual tentativa de resposta já que, para este autor, uma comunidade não se mantém unida apenas porque partilha um território, um ordenamento jurídico ou um determinado nível de prosperidade. Para Taylor, o que faz o desenvolvimento da comunidade, e bem assim da democracia, é o facto de os seus membros continuarem a reconhecer-se, mutuamente, enquanto participantes de um mesmo horizonte de significado, isto é, de uma mesma história, de um mesmo conjunto de referências e de uma mesma vida em comum.
Veja-se como, deste modo, depois de revelar a insuficiência do crescimento económico enquanto eventual fator de progresso democrático, o referendo suíço parece deixar entrever, também, um segundo sintoma: a dificuldade crescente em compreender a comunidade como um horizonte capaz de integrar novos participantes sem perder a consciência de si própria. Aliás, a simples necessidade de discutir, constitucionalmente, os limites da sua composição revela que o reconhecimento recíproco, de que fala Charles Taylor, deixou de poder ser pressuposto como fundamento espontâneo da referida vida em comum.
Se assim for realmente, então, o verdadeiro problema levantado pelo referendo realizado a 14 de junho de 2026, na Suíça, mesmo que chumbado num resultado 55% contra 45%, já não diz respeito apenas à imigração, à habitação, à sustentabilidade ou, sequer, aos limites geográficos de um território. O que o referendo parece verdadeiramente sugerir é que até uma das democracias mais prósperas do mundo pode voltar a confrontar-se com uma pergunta que durante muito tempo se julgou ultrapassada: o que continua, afinal, a fazer de um conjunto de indivíduos uma comunidade capaz de dizer “nós”?
E entenda-se que, se esta for a derradeira questão, o debate a fazer deixa de ser tão só sobre quantas pessoas uma comunidade consegue acolher para, antes de mais, ser sobre aquilo que permite a uma comunidade, precisamente, integrar transformação sem perder o horizonte de significado através do qual os seus membros continuam a reconhecer-se, reciprocamente, como participantes de uma vida comum na linha de um futuro democrático que parece fugir, mas, se quisermos, ainda vai a tempo de ser apanhado.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.