Durante muito tempo, aquilo que desejávamos era moldado pelo mundo que conseguíamos ver. A casa dos nossos sonhos era comparada às casas da nossa rua. O carro que ambicionávamos parecia-se com o dos nossos pais, dos nossos tios ou dos nossos vizinhos. Os nossos desejos eram construídos a partir da experiência quotidiana e das pessoas que nos rodeavam. Não porque os seres humanos fossem menos ambiciosos, mas porque o horizonte da comparação tinha um alcance limitado.
A lógica mudou. A hiperconectividade e a ascensão das redes sociais fizeram desaparecer as fronteiras da comparação. Hoje, deixamos de medir a nossa vida pelo que existe na nossa comunidade para a medir por um universo praticamente infinito de referências. O carro desejado já não é o do vizinho, mas o Ferrari exibido por um influenciador no Dubai. A casa desejada já não é a da rua ao lado, mas a mansão que aparece entre um vídeo de receitas e um meme no Instagram. O extraordinário deixou de ser exceção e tornou-se apenas quotidiano.
Foi a própria natureza do desejo que mudou. Não porque desejamos mais do que as gerações anteriores, mas porque aprendemos a desejar aquilo que, para a esmagadora maioria das pessoas, nunca poderá ser alcançado. Os nossos sonhos deixaram de nascer da realidade em que vivemos para serem moldados por algoritmos cujo negócio consiste precisamente em convencer-nos de que nos falta sempre mais alguma coisa.
As consequências desta mudança vão muito para além da frustração individual, que seria sempre inevitável ao desejarmos ter o inalcançável. Quando os nossos desejos deixam de encontrar um ponto de chegada, o consumo deixa de ser um meio para satisfazer necessidades e transforma-se num fim em si mesmo. Já não compramos apenas aquilo de que precisamos. Compramos aquilo que nos aproxima da vida que nos é constantemente apresentada como desejável. O problema é que esse horizonte se desloca sem cessar. Há sempre um destino mais exclusivo, uma casa maior, um carro mais caro, uma versão mais bem-sucedida de alguém que gostaríamos de ser. O desejo, alimentado por esta lógica, deixa de conhecer limites.
Sabendo que vivemos num planeta finito, como poderíamos saciar os desejos quase infinitos de milhares de milhões de pessoas? Não podemos. A ex-Ministra do Meio Ambiente do Brasil (e minha compatriota, com muito orgulho), Marina Silva, resumiu este problema de forma particularmente feliz: “Numa cosmovisão em que a base de orientação é fazer e ter, há que se criar um buraco negro para colocar tanta coisa que se faz. E nós criamos este buraco negro. Ele chama-se consumo”
Limitar os sonhos não significa ceder à falta de ambição ou ao pessimismo. Significa questionar se os nossos desejos são realmente nossos ou se foram programados para nós. Significa, antes de qualquer coisa, subverter a lógica do consumo e escolher sonhar em ser, em vez de apenas sonhar em ter.
Se, por um lado, é materialmente impossível que todos tenhamos o melhor carro ou a maior casa, por outro, nada nos impede de sonhar com um mundo onde todos possamos ser os melhores professores, artistas, jornalistas ou cientistas. Afinal, se os recursos do planeta são finitos, a nossa capacidade de criar, cuidar e evoluir permanece ilimitada.
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