A primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, centra-se num tema de grande atualidade e preocupação, não deixando de o relacionar com a condenação do número preocupante de guerras que assolam o mundo, lamentando o enfraquecimento das organizações multilaterais e o crescimento exponencial dos lucros da indústria de armamento que são a força motriz dos conflitos sangrentos que povoam o mundo. De facto, o uso da violência e das armas reflete uma grave pobreza nas relações humanas, com consequências desastrosas em especial para as populações civis. Torna-se, pois, fundamental um envolvimento político mais ativo dos cidadãos capaz de abrandar o ritmo da conflitualidade quando se verifica a sua aceleração grave e inexorável. O Papa optou por fazer um apelo veemente e atual, em que a Inteligência Artificial surge como um instrumento disponível com o qual importa saber lidar para garantir o respeito fundamental da dignidade humana e da autonomia individual.
Na linha da encíclica Rerum Novarum, o Papa salienta as injustiças como resultado das escolhas erradas dos indivíduos, mas também de estruturas, mecanismos e sistemas económicos e culturais que produzem desigualdades. Assim temos de pensar as novas tecnologias. Contudo, “não é possível dar uma definição unívoca e completa da IA. O que podemos afirmar é que se evite o equívoco de equiparar esta ‘inteligência’ à humana”. No entanto, este poder permanece exclusivamente ligado ao tratamento de dados, não possuem uma consciência moral: não julgam o bem e o mal, não captam o sentido último das situações, não assumem sobre si o peso das consequências. Podem imitar linguagens, comportamentos, avaliações, podem simular empatia ou entendimento, mas não compreendem o que produzem. O humanismo cristão não rejeita a ciência e a técnica: acolhe-as com gratidão e realismo, inserindo-as, “com os pés bem assentes na terra”, numa vocação mais elevada. Eis por que razão importa, segundo o Papa: “Educar as novas gerações para acreditarem que a evolução das tecnologias não segue um percurso inevitável, mas que pode ser orientada pela responsabilidade pessoal e coletiva, constitui um dos serviços mais preciosos ao bem comum.” A voz do Papa nesta circunstância revela-se providencial. Sabemos que não terá efeitos imediatos, mas constitui um forte apelo à próxima geração, que não poderá render-se à tentação fácil de se deixar dominar pelo imediatismo e pela recusa da prevenção e do planeamento.
Num momento de grandes incertezas, em que o clima de guerra em curso revela um ambiente geral de decadência semelhante aos piores períodos do Império Romano, ao invés dos tempos de Adriano ou de Marco Aurélio, uma vez que há sinais de cegueira ditados pela ilusão e o erro, e de incompreensão sobre onde se encontram os perigos, os riscos, os aliados e os reais fatores perturbadores.
Razão teve o Presidente da República em dizer que “vivemos um tempo de trincheiras” em que “as ansiedades que sentimos na economia, na geopolítica, na segurança das cidades, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões muito concretas da vida das pessoas reais, criam esse impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros”. Daí a necessidade de compreendermos que “faltam-nos cada vez mais as palavras do meio”. Falta-nos a velha ideia de “centro vital”, teorizada nos anos 60 do século XX por Arthur Schlesinger e que não se confundia nem com um meio-caminho nem com o centrismo. Significava, sim, uma rigorosa ponderação dos valores éticos e dos interesses, uma nova fronteira baseada na defesa intransigente da confiança e da coesão social. Entende-se, por isso, que António José Seguro tenha lembrado, com especial ênfase, que não podemos cair no fatalismo nem ficar à espera de milagres. “O que precisamos é de decisões que dependem inteiramente de nós. Portugal precisa de si próprio na sua melhor versão. E isso está ao alcance de cada um de nós.”
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