Quando celebramos o poder transformador das novas ideias e soluções, da inovação e da criatividade, como acontece a propósito do Dia Mundial da Criatividade e Inovação, é impossível não olhar para este tema, sobretudo quando se trata da área da saúde, sem fazer uma reflexão sobre a questão do acesso. Num setor onde a inovação pode, literalmente, salvar vidas, continuam a subsistir obstáculos que esmagam o potencial criativo e impedem que a inovação chegue a quem dela mais precisa.
Isso significa que, quando estamos a falar da inovação na área da saúde, especialmente ao nível do avanço em forma de novos tratamentos e do desenvolvimento de medicamentos inovadores, não devemos considerar apenas o progresso técnico ou científico que esses avanços configuram, mas também é imperativo contemplar a tradução deste progresso em benefícios reais para os doentes. E é aqui que enfrentamos desafios que têm tanto de importante como de urgentes. Falo de processos burocráticos extensivos e da rigidez de normas e de estruturas públicas, que muitas vezes atrasam ou dificultam o acesso a tratamentos que já existem, com consequências que podem ser devastadoras para os doentes.
Existem dois tipos de inovação: a inovação incremental, que nos tem trazido, ao longo do tempo, incrementos inegáveis a nível da sobrevivência global e da qualidade de vida dos doentes; e depois temos a inovação disruptiva, que é aquela de que hoje em dia se fala cada vez mais, associada às chamadas terapêuticas dirigidas, que tem o potencial de mudar completamente a forma de abordagem de uma doença.
Quer uma, quer a outra, são importantes para aumentar a sobrevida dos doentes e a sua qualidade de vida. E todas são fruto de investigação e de um investimento enorme de tempo e recursos, que se vai refletir em resultados também estes enormes. É verdade que os sistemas de saúde enfrentam custos consideráveis ao adotar estas inovações. No entanto, quando reconhecemos que muitos dos beneficiados são pessoas em plena idade produtiva – cidadãos que podem manter a sua vida ativa, podem continuar a ser produtivos, podem continuar a tratar da família e a ter a sua vida plena, vida que eles têm o direito de ter, contribuindo para a sociedade com o seu trabalho e para a família com a sua presença-, então deixamos de falar de custos, e passamos a olhar para estas contas como um investimento com retorno garantido.
Ainda assim, continuamos a ter olhares redutores para um processo que nada tem de simples. E continuamos também a ter exemplos de terapêuticas, fruto de um trabalho de criatividade e inovação que envolve anos e muitas pessoas diferentes, com um valor para a saúde e impacto potencial difícil de quantificar, sobretudo quando se trata de prolongar vidas ou melhorar a sua qualidade, presas em camadas de aprovações regulatórias ou sistemas de financiamento inflexíveis.
E embora as regras sejam, mais do que necessárias, essenciais, assim como as normas que garantem a segurança, a eficácia desta inovação e o seu valor, o excesso de burocracia, quando não equilibrado, torna-se um bloqueio ao progresso e uma barreira para a equidade em saúde.
É que, por detrás dos conceitos abstratos, além das estatísticas e dos números, há doentes, há pessoas e há também evidência de resultados clínicos. Não podemos esquecê-lo ou ignorar que a saúde é um direito, e não um privilégio. Desta forma, a aposta na inovação implica também um trabalho em prol da democratização do acesso a medicamentos e tratamentos.
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