Li o Diário de Anne Frank quando era adolescente. Tenho-me lembrado muitas vezes do livro durante estes últimos tempos. Passado tanto tempo, não é de estranhar que tenha uma memória difusa da história. Lembro-me do que toda a gente se lembra. A Anne Frank era uma adolescente que estava escondida numa casa, com a família, para se protegerem dos nazis que os queriam enviar para um campo de exterminação por serem judeus. Era muito importante que ninguém soubesse que ali estavam, só assim estariam seguros. Só estando fora do mundo, como se mortos para o mundo, poderiam sobreviver. De que mais me lembro do livro? A Anne apaixona-se por um rapaz e isso também está no seu diário. Aliás, até acho que ocupa uma grande parte do diário, ou talvez apenas da minha memória do diário. Não me lembro de detalhes nenhuns como, por exemplo, de onde é que aparece o rapaz?
Do que me lembro é do ritmo do livro. Os dias da Anne Frank passavam devagar. Tudo levava muito tempo a acontecer. Eram uns dias muito pouco interessantes e onde ela não tinha quase nada para fazer
Do que me lembro é do ritmo do livro. Os dias da Anne passavam devagar. Tudo levava muito tempo a acontecer. Eram uns dias muito pouco interessantes e onde ela não tinha quase nada para fazer. A não ser escrever, estar com a família e talvez ler algum livro que por ali houvesse. Não podiam sair. Não podiam ir às compras. Não havia muita comida e não podiam ser muito esquisitos com o que havia. Não podiam sentir o sol, a chuva, ou o frio na cara. Não podiam sentir a liberdade. Não podiam ser quem já tinham sido. E já eram todos outras pessoas. Ficavam contentes por acordarem todos os dias e por poderem viver uma sucessão de dias iguais. Era sinal de que estavam todos vivos. Era sinal de que tinham sobrevivido mais um dia. Ficavam felizes com as coisas simples da vida, por mais que isto seja um cliché (que detesto).
A vida da Anne era tão parecida com a que estamos a viver. Só que a Anne esteve anos naquela casa. Nós contamos estar algumas semanas. A velocidade do mundo de hoje é incomparavelmente mais rápida. Tudo muda de uma hora para a outra nesta pandemia. Mudam os números todos que nos obcecam, mudam as medidas que procuram proteger-nos e mudam as políticas que nos vão ajudar a sobreviver. E é isto em todo o mundo. E é isto a toda a hora. E nunca nada no mundo tinha afetado ao mesmo tempo tantos países, tantas pessoas, biliões de pessoas, de forma tão disruptiva.
Mas isto significa que a recuperação também há-de ser igualmente rápida. Lembro-me da cadeira de História Económica e Social e tudo o que aconteceu no mundo durante e depois da II Guerra Mundial. O Plano Marshall. Bretton Woods. As Nações Unidas. Todas as organizações internacionais que foram criadas. E que agora estavam agonizantes.
Só consigo pensar no presente como um ficheiro com a II Guerra Mundial zipada a ser extraída numa rede 10G (o seu telemóvel, na melhor das hipóteses, funciona numa rede 4G). O que sinto neste momento é que vamos passar por todas as fases da II Guerra Mundial em 12 meses. E o mundo teve momentos muito agradáveis nos últimos 75 anos. Você nasceu. Ou apaixonou-se. Ou teve uma filha. Ou casou-se. Ou fez a diferença na vida de uma pessoa. Ou fez uma coisa que julgava impossível. Superou-se! E nós também vamos superar isto. Juntos! E de mãos dadas sem medo!