Passado o ciclo infernal de eleições, parece que o mundo da política voltou ao business as usual. Os mesmos joguinhos de palavras, as mesmas contas de mercearia, o mesmo taticismo dos timings… No mundo real, uma espécie de universo paralelo que parece flutuar à deriva, a vida de milhões de cidadãos mantém-se exatamente naquele patamar que a ilusão do parêntesis eleitoral apagou do foco mediático: situação dramática, esperança a rasar o zero. Quando o vazio se apodera das almas, o mais certo é elas sugarem tudo o que as possa preencher.
Não se estranhe, portanto, que o novo tema dos Deolinda, estreado nos espetáculos do Porto e, este fim de semana, em Lisboa, tenha eletrizado as plateias. “Sou da geração sem remuneração/e não me incomoda esta condição./ Que parva que eu sou/Porque isto está mal e vai continuar,/já é uma sorte eu poder estagiar./Que parva que eu sou!/E fico a pensar,/que mundo tão parvo/onde para ser escravo é preciso estudar(…)” São apenas os primeiros versos de um poema imperdível, cujo sentido não pode reduzir-se ao simples exercício de retratar uma geração (mesmo quando se trata da mais qualificada geração portuguesa de sempre), mas que vai muito para além das evidências. A ironia cáustica dos Deolinda não só sublinha, exemplarmente, o tipo de sociedade que estamos a construir – com o seu cortejo de injustiças, de negação do mérito e, até, de sublimação do sonho -, como questiona, de forma implacável, o fatalismo atávico que nos caracteriza. “Sou da geração ‘vou queixar-me para quê’/Há alguém bem pior do que eu na TV.” É uma letra simples, mas poderosa, que o som, de raiz na música popular portuguesa, contribui para reforçar.
Estamos bem longe do acid jazz dançável com que Pedro Abrunhosa incendiou os seus concertos, na primeira metade dos anos 90, e, no entanto, há no ar o mesmo sopro. Lembram-se do popular Talvez f…? Começava assim: “Há bombas em Belfast e em Beirute/ É preciso afinar o azimute (…)” Vivíamos em plena segunda maioria absoluta de Cavaco Silva e uma crise económica e social profunda transbordara das fronteiras dos bairros sociais para os apartamentos recém-comprados da baixa classe média, exilada na periferia das grandes cidades. Junte-se a estes ingredientes uma violenta carga policial sobre manifestantes e eis o caldo de cultura capaz de transformar uma música em bandeira e a bandeira em movimento.
Hoje, já não é só da pequena burguesia urbana que nos falam os Deolinda. Esta crise foi subindo os degraus da escala social e a perceção é de que só uma minoria lhe escapa. Entretanto, foi crescendo o sentimento de que quem não está pode vir a estar. E, assim, vai engrossando o caudal de gente com amanhã incerto, tantos sem nada a perder, argamassa da revolta. Veja-se a Tunísia e o Egito – no mundo global, a génese dos problemas também é global.
Sopram os ventos da mudança e, às vezes, um pequeno rastilho chega para iluminar todo um caminho. Em democracia, como o provam as últimas presidenciais, é possível lançar alertas. Só a cegueira não percebe a insatisfação e o desencanto. A arte dos Deolinda traduz o som (ainda) abafado em muitos corações. E por isso tem tanta força.