Dorme em hotéis baratos, em tendas lançadas em qualquer chão ou mesmo ar livre; percorre vários quilómetros por dia e inventa vidas alternativas sempre que conhece alguém pelo caminho. Na companhia do seu amigo Marco, David vive o sonho americano pela estrada fora, seguindo os ensinamentos literários de Jack Kerouac e muitos outros escritores. Também David Machado teve experiência semelhante do outro lado do Atlântico, em 2001. Dessa viagem nasceu o romance A Educação dos Gafanhotos, que permitiu ao escritor perceber o verdadeiro alcance transformador desse momento decisivo para a sua vida e o mundo em geral, ou não tivesse o périplo sido interrompido pelo ataques às torres gémeas de Nova Iorque de 11 de setembro. Duas décadas depois, e já com traquejo de quatro romances publicados e um percurso profícuo na literatura infantojuvenil, David Machado, 41 anos, retoma o fio da meada e da memória para percorrer também os caminhos da literatura e da (sua) vocação literária. Entrevista em modo de quarentena decretada pelo combate à Covid-19, escritor e jornalista cada um em sua casa.
Jornal de Letras: Com um narrador na primeira pessoa chamado David, este é um daqueles romances em que com a verdade se engana o leitor?
David Machado: Um pouco, sim. Fiz efetivamente a viagem do romance e vivi a maior parte dos acontecimentos pelos quais as personagens passam, incluindo o 11 de Setembro de 2001. Mas, claro, inventei muito em cima dos factos. Aliás, a essência narrativa que conduz o romance, incluindo a linha interior das personagens, é ficcionada. Sinto tanto que engano o leitor, quanto me enganei a mim.
Os dois amigos também estão sempre na fronteira entre a vida que vivem e as vidas que inventam para eles…
Estão a iludir-se a si próprios, naquela idade em que ainda se acredita que se pode ser tudo, que o futuro está totalmente em aberto. À medida que vamos crescendo percebemos que a vida não é exatamente assim. O mundo espartilha-nos, quer queiramos, quer não.
O livro só sai passando 20 anos dessa viagem. Porquê?
Aconteceu agora. Tentei diversas vezes escrever este romance, uma delas logo após o regresso da viagem. Tanto nessa altura, como noutras, nunca consegui encontrar o fio narrativo, pois não queria um relato factual. A experiência foi muito impactante e simbólica e durante muito tempo estive apegado à realidade, ao que me tinha acontecido, não era capaz de a transformar noutra coisa qualquer. Mas a memória foi ficando esbatida, talvez tenha perdido força dentro de mim, o que tornou mais fácil outro olhar. Hoje tenho a certeza que quer o romance, quer até algumas imagens que tenho na cabeça foram fabricadas ao longo do tempo. Neste livro, a minha relação com a realidade é estranha, mas foi precisamente por isso que consegui escrevê-lo.
O livro dialoga e convoca vários livros de viagens pelos EUA. Foram pontos de partida?
A viagem só se realizou porque eu e o meu amigo Marco (o nome dele também é real) vivíamos muito fascinados com a literatura de viagem americana e com a geografia em si. Tentámos seguir os caminhos ou a filosofia de Pela Estrada Fora. Mas Viagens Com o Charley, do Steinbeck, por exemplo, só o li durante a viagem, depois de o ter comprado num alfarrabista.
Entre esse livro mítico e a viagem descrita no romance parece haver uma espécie de contraponto.
É verdade e é também por isso que a personagem David, a certa altura, fica tão zangada com o Steinbeck. Percebe que estavam em alturas opostas, com intenções muito diferentes. Ele queria liberdade total, desamarrar-se do mundo e das rotinas da vida, enquanto o escritor americano queria aproximar-se o mais possível do mundo para se despedir dele, para fechar o ciclo da vida. O romance é uma espécie de coming of age, um testemunho de crescimento.
Uma educação sentimental, título de um romance de Flaubert com o qual este romance também parece dialogar?
Sim. Tive muitas dificuldades em arranjar um título. Não queria que tivesse a palavra viagem, porque a história vai além dela. Seria redutor. Eles estão mesmo a tentar educar-se e, ao mesmo tempo, a receber uma educação do mundo. Gosto muito dessa ideia de crescer aprendendo a ser melhor, mais completo.
Eles atravessam um grande dilema, ser gafanhoto ou formiga, ser livre ou rotineiro. É possível conciliar esses dois polos?
São bastantes antagónicas, mas não me parece que sejam impossíveis de conciliar. É o que o ser humano tenta fazer ao longo da vida, com rotinas e hábitos profundos e momentos de improviso. Mas nesse dilema há uma questão fundamental que são os outros. É impossível seguir o caminho da liberdade total, sem amarras, não considerando a falta que as outras pessoas nos fazem. Estamos todos presos a alguém ou à memória de alguém, sobretudo na família e nas amizades, mas não só, como esta quarentena de combate ao Covid-19 tão bem demonstra. Às vezes estamos presos a pessoas que nem conhecemos, que vemos na rua, nos transportes, à nossa volta. Neste preciso momento estamos a perceber de forma intensa a falta que essas pessoas nos fazem.
É mais Hemingway ou Faulkner?
Depende. Sinto que já fui mais Hemingway e que estou a tornar-me mais Faulkner.
Os dois amigos do romance estão sempre a brincar com esta divisão do mundo. Como a defines?
É olhar-se para o mundo através de vários pontos de vista e ou apenas a partir de um ângulo específico, descrevermos minuciosamente tudo o que lá está. Gosto muito das duas ideias, que na verdade se complementam.
Como escolhe uma delas em cada livro? É a história que pede?
Tem mais que ver com a minha evolução interior e com a forma como vou olhando o mundo. Já tive vontade de olhar a partir de um certo ângulo, mas cada vez mais quero colocar várias experiências simultâneas na página. Tem mais a ver comigo do que com a história.
Tem sido um autor muito diverso no estilo, não esquecendo o seu percurso no infanto-juvenil.
Não o faço intencionalmente. Apenas me aborrece um pouco escrever outra vez com determina linguagem ou estrutura, um tipo específico de personagens. O desejo é sempre fazer diferente.
E onde estava no 11 de Setembro?
Essa parte do romance está muito próxima da realidade: a norte de Miami. Depois de ter dormido no carro, liguei o rádio e segui viagem. Passado uma hora chegou a notícia do primeiro avião a embater nas torres gémeas.
No romance, como para a generalidade do mundo, é o fim de um ciclo. Como viveu esse momento?
Foi muito estranho, já estava no final da viagem, mas fiquei mais quatro dias nos EUA, sem conseguir regressar a Portugal. Não me lembro de ter visto televisão, nem aquelas imagens horríveis. Só muito mais tarde, já em casa. O 11 de Setembro começou por ser uma tragédia pessoal, saber como chegaria a casa no meio daquela confusão toda. Só tomei consciência da dimensão total do acontecimento mais tarde. Também foi por causa desta ligação tão pessoal que o romance levou tanto tempo a ser escrito. Até ao 11 de Setembro, estava numa típica viagem de amigos. Com o ataque às Torres Gémeas, transformou-se noutra coisa radicalmente diferente, que só ao escrever este livro percebi.
Transformou-se em quê?
O fim da juventude e a entrada na idade adulta, a consciência de que o mundo não está aqui para servir os nossos desejos e ambições. Somos nós que temos de nos adaptar ao mundo, quer no que ele tem de mau, como no que tem de belo, nas calamidades, como nos melhores momentos.
Atualmente, vivemos outra lição que o mundo nos dá. O que pode a literatura fazer? Será impotente perante a tragédia?
A literatura ajuda-nos a ultrapassar limites. Ao contrário do senso comum, a nossa imaginação tem barreiras muito forte, e cada um terá as suas. Eu não consigo imaginar nenhuma história em que os meus filhos morram. Um dos propósitos do escritor será precisamente ultrapassar esses limites. E há ocasiões em que eles são comuns a muita gente ou ao mundo inteiro, como acontece agora. Se os escritores conseguirem olhar para o que está a acontecer de uma forma que a maior parte das pessoas não quer, porque é difícil, custa demasiado, pois está muita coisa em jogo, muitas vidas em perigo, a literatura tem definitivamente um lugar importante no meio de tudo o que nos está a acontecer.
A Literatura é a tal viagem depois da viagem que os dois amigos do romance tanto procuram, a experiência depois da experiência?
Nunca tinha pensado nesses termos, mas faz todo o sentido. Partimos do que vivemos, usamos as memórias que temos, imaginamos por cima disso tudo. Recorremos à imaginação para viver outra vez as nossas memórias. Sim, definitivamente a literatura e a escrita são a viagem depois da viagem.