Àquela hora, aliás como a todas as outras, o Fundão parecia uma cidade deserta – apenas os rafeiros sossobravam nas sombras dos plátanos que bordejavam a Avenida, bamboleando a língua com uma estúpida indifereça canina à canícula.
As pessoas sumiram, como os garimpeiros do Velho Oeste faziam nas cidades esgotadas de ouro e, imaginava eu, refugiavam-se em casa, atacando de garfo em punho as indefesas morcelas, farinheiras e batatas, fatalmente enclausuradas num círculo de barro; convocadas à força para uma morte inglória, cujo arroto era, a dois tempos – exalação final e extrema unção.
Quando cheguei à porta da barbearia, a vidraça bassa antecipava-se à persiana de palhetas vermelhas anunciando, com subtileza semiótica, o corte ao tráfego de carcaças velhas que constituiam a fauna habitual do local.
Desanimado, pensei que ia ter que aguentar a persistente comichão que a barba me provocava, sensação agravada pela história tétrica de um serial-killer com a precisão de um relógio suiço, que desenvolvera um gosto de doninha sanguinária por homens de barba rija, consequência de algum trauma infantil, de um estuporamento de palheiro que um Profiler de série de TV facilmente descortinaria.
Haviam dois maneirismos da higiene pessoal que abominava: um era o contorcionismo vietnamita, num pas de deux com o bidé, que exigia o corte das unhas dos pés; e outro era esquartejar as reincidentes arestas de pêlo que apareciam na cara com o descaramento de uma visita indesejada que ocupa o sofá da sala para, lentamente, ir estendendo os seus domínios a toda a casa.
A preguiça tomava conta da minha higiene como uma mãe-galinha e autoritária que decide o rumo a dar às calças de ganga gasta de que mais gostamos.
Por isso, desde que me desterrara para o Fundão, adquirira o bom hábito de entregar a árdua tarefa do escanhoamento à iniciativa privada em vez de a privar de iniciativa, conforme gostariam os delegados de venda da filichave.
Além do mais a barbearia do Mudo era um óptimo sítio para um jornalista ficar a par das últimas da terra – ali se sabiam das politiquices e putanhices; se baravatava à surdina quem punha os cornos a quem; quem ruía à jogatana, tombando ao abafo avantajado de uma Raínha de Copas com problemas de integração social no baralho; quem ocupava o top ten no ranking local das bebedeiras, com Super Borgs e McEnroes do copo 3 a reivindicarem a capacidade de albergar no bucho os hectolitros de carrascão polvoroso da tasca do Ti Xico Ferrador.
A barbearia do Mudo era uma espécie de CNN local – quando não havia novidades no mundo, era lá que se fabricavam.
Por infortúnio estava privado, pelo menos até à parte da tarde, da companhia daquela assembleia popular e opinativa, o que me exasperou bastante, porque o caso era urgente.
O adorno de pêlo fazia de mim um alvo dilecto para o psicopata de imberbe obsessão, que já começava a conquistar no meu imaginário a corpulência física de uma sombra sanguinolenta. Atormentado por esta telúrica perseguição, dei por mim a vaguear pelas ruelas estreitas e vazias do Fundão como um Jesse James cavalgando aos éSSes pelo Grand Canyon, tentando despistar os detectives da Pinkerton que tropeçavam nas suas labirinticas bigodaças.
Parei, resfolgante, numa rua comprida, iluminada por uma luz oblíqua que era projectada pelo negrume alojado no granito dos altos edifícios, organizados à maneira de muralha corcunda e inexpugnável. A entrecortar a penumbra dominante apenas uma tira de céu azul, encaixada à força entre as musculadas copas dos edíficios altaneiros.
Estou perdido – pensei.
Era a primeira vez que calcorreava aquela rua, cuja existência desconhecia. Por momentos pensei estar numa versão beirã de um episódio do Twilight Zone. Quase conseguia ouvir o ti-ri.ri-ti-ri-ri da música do genérico.
A misteriosa força oculta que propulsionou a sucessão de enigmáticos acontecimentos daquela manhã, parecia empurrar-me para aquela rua sombria e desconhecida, como quando sentimos o arfar quente do destino na nuca, bafejando-nos a direcção a tomar. Reparei então num singelo letreiro a meio da rua, a única porta aberta num desfiladeiro de clausura.
Lia-se – Santos, barbearia de homens.
A Divina Providência encarregava-se de me oferecer a salvação às mãos de um barbeiro-arcanjo, assistido pela sua pretoriana guarda celestial – a Santíssima Trindade da espuma Nívea, pincel, e salvífica navalha.
Entrei no tabernáculo do pente três, onde pontificavam dois púlpitos com reclinação regulável, em frente a um enorme espelho salpicado de cagadelas de mosca.
Ao fundo, por entre um entulho de revistas cor-de-rosa, emergiu um sacerdote de túnica branca, cópia fiel de um Hitchcock- lavador de-janelas que, silencioso, apontou com solenidade mística para uma das cadeiras, acenando o canhoto amputado de maneta habilidoso. Livrei-me do blaser e dos óculos de aros-de-tartaruga e recostei-me beatíficamente na cadeira de couro esponjoso. O balofo sósia-maneta do mestre do suspense, iniciou então a sua homília.
Barba e cabelo? – inquiriu, num tom de voz cavernoso, exalando um hálito forte a alho e punhetas de bacalhau.
Só barba – ripostei em tom confessional.
Um diáfano manto branco, retalhado a lençol, valseou num arco bem desenhado por cima do meu crâneo para aterrar com graça sobre os ombros arqueados ao peso das horas passadas num ringue, à pera com as teclas do computador.
O atacador de goela foi rapidamente deslindado num nó seco e seguro que pouparia a camisa Victor Emanuel ao contacto enojado com os pêlos lacrimejantes.
Pelo canto do espelho, observei a estranha criatura que se encaminhou para um velho gravador Sanio onde alojou uma K-7, quadrado azul.
Pela aparência nostálgica da lontra vitaminada, julguei que me estaria reservada uma boa meia-hora em melodiosa companhia dos grandes êxitos do Vítor Espadinha.
Qual não foi o meu espanto quando, da pequena coluna incorporada no cantante, sopra a voz quente e cálida de Leonard Cohen chilreando em solfejo de Jack Daniels -Jesus was a sailor.
Escutar o escritor de canções canadiano na cadeira de um barbeiro com pinta de Hitchcock – decididamente aquele não era um dia igual a todos os outros.
Embalado pela voz gutural do dandy canadiano, semicerrei os olhos, não sem antes reparar na decoração da barbearia: Ao primeiro olhar era igual a todas as outras pequenas lojas de barbeiro – uma parada de aerosois, pomadas, frascos, pentes, tesouras e navalhas ocupava o primeiro balcão, junto às duas torneiras enferrujadas, aflitas num queixume de gota a gota.
Nas traseiras das cadeiras, uma mesa redonda de vidro opaco, dividia de desacatos conjugais dois canapés almofadados com naturezas mortas, numa orgia de melancias e pêssegos, que por sua vez eram ladeados por dois bengaleiros de pé-alto, corroídos pelo mastigar lento dos bichos carpinteiros que, a custo, prosseguiam a sua vagarosa refeição, digerida à custa das pastilhas Rennie que lhes aliviavam a persistente azia carunchosa.
No entanto, havia um pormenor que destoava do organigrama clássico de uma barbearia de província. Em vez dos posters antigos do Benfica, década de 60, ou do calendário pornógrafo da loja de ferragens local; na parede estavam pendurados pequenos quadros com as fotografias de três actores de cinema: Christopher Lee, Jack Palance e horror dos horrores – Bela Lugosi, o magiar que gostava de passar pelas brasas num caixão de boa acústica para o eco ressonante.
Triunvirato maléfico, mestres da perfídia, o mal personificado num tríptico criminoso; onanismo a ornamentar a alvura daquele templo pagão. Intrigado com os invulgares gostos meio gore do meu barbeiro improvisado, fechei os olhos por completo, num esforço de branqueamento de qualquer pensamento negro. Afinal estava ali para ser salvo.
Busquei calmante na poesia de O `Neill -“um barbeiro anarquista, que me fazia a barba com a estropiada mão bombista” enquanto sentia a máquina de barbear a desbravar-me os capilares que se rendiam em tufos encaracolados, rebolando pela bata branca até aos azulejos lapidares no soalho da barbearia.
Sentia-me mais leve, e apesar dos ligeiros repelões que a lâmina da máquina me imputava, a sensação era de limpeza e frescura. O pincel espumoso como um bábá com tampa de chantili, avançou decidido, dispersando a espuma de barbear em movimentos circulares numa geometria de afectos estudada.
Sempre me fizera espécie entregar a goela aos cuidados de um desconhecido. Detestava lâminas e seringas, e não conseguia deixar de pensar que, por capricho, um barbeiro ou um dentista podiam por um ponto final, parágrafo (acredito na teoria da reencarnação) na minha existência.
A ideia, se pensarem bem, não é muito agradável. Imaginem que caiem nas mãos de um psicopata com um curso de formação profissional em barba e cabelo, tirado numa Prisão de Alta Segurança. Nunca se sabe quando é que, num “vipe” homicida, ele nos faz uma traquetomia à borla.
Por isso, quando ia ao barbeiro ficava aliviado por sair de lá vivinho da silva. Podia parecer despropositado pedir um atestado de sanidade psicológica a um tipo de navalha na mão.
Senti então os dedos nodosos da mão fria do barbeiro, esticando-me pele, abrindo caminho para a entrada em cena da navalha bem afiada. O primeiro contacto da pele com lâmina provocou-me um arrepio metálico que se dissipou com a firmeza e precisão cirúrgica das golpadas infligidas pelo barbeiro-talhante.
A sensação de frescura era progressiva e invadia-me os poros, numa espécie de teologia da libertação, suprimindo a camada opressora. Subitamente, a liturgia é interrompida, reabro os olhos e comungo com o sacerdote de túnica branca a admiração da obra – Um escanhoamento perfeito.
Passo a mão pela pele, deslizando-a suavemente sem obstáculos ou pêlos renitentes.
– Agora só falta acertar as patilhas. Mas para isso tenho uma navalha especial de corrida – Afirmou o maneta-artista com ar triunfante e pré-apoteótico, enquanto se dirigia a um vestíbulo escuro na outra ponta da barbearia.
– Um verdadeiro profissional – Pensei enquanto continuava a afagar a cara em festas de Narciso imberbe.
Quando voltou, em passo vagaroso, e relinchando uma respiração ofegante o meu Hitchcock de importação trazia na mão um magnífico estojo de veludo azul com um fecho gótico banhado a ouro.
Depositou-o, com vagar, na bancada, e abriu-o com a cerimónia de um egiptólogo amador abrindo o sarcófago de Ramsés. Sonegada à vertigem do tempo uma silhueta estranhamente familiar repousava no fundo da urna. Era um punhal longo, com a lâmina de aço cintilante e o cabo de madre-pérola, ornamentado com relevos de serpentes de cabeça bifurcada e com os copos em forma de U.
Fazia-me lembrar algo.
Algo enterrado nas profundezas do espírito, nos pesadelos infantis assaltados por matilhas de lobos esfaimados e de homem da saca violentando-nos a sesta obrigatória.
Não consegui evitar um sobressalto. O sangue gelou-se-me nas veias, instintivamente fechei os olhos e recostei a cabeça no rolo forrado a toalha de papel.
Num derradeiro esforço freudiano tentei lembrar-me do encontro com aquele punhal, tentei encontrar a razão pouco razoável daquele déjá vu.
Invadido pela ansiedade, mal senti mais uma passagem da espuma Nívea junto das patilhas marialvas que se preparavam para sofrer um alinhamento militar.
As imagens, sons sucediam-se em turbilhão, como quando rebobinamos uma k-7 vídeo a uma velocidade não inventada.
Num ápice, a imagem pára em Borges, na Argentina do tango e do lunfardo; dos duelos gaúchos nas tabernas da zona portuária de Buenos Aires.
A imagem pára no Relatório Brodie, no corpo esfacelado de Duncan, na mão trémula de Maneco Uriarte empunhando … um punhal com os copos em forma de U – O punhal que fora de Juan Almada de Tapalquén, brigão que tombara dezenas de homens no pó amargo e argiloso das pampas. O punhal que agora estava no estojo de barbeiro no Fundão, numa rua que não existia, num dia que se repetia de dez em dez anos.
Senti um fio quente acariciar-me o pescoço. Abri os olhos e vi um colar vermelho-rubi jorrando golfadas de sangue na minha goela, dilacerada pelo punhal de Juan Almada agora empunhado por um barbeiro-homicida.