(oferta do editor)
Se o tema convida a propostas soturnas (mais soturnas do que o habitual), a variedade é grande, desde narrativas distópicas de ficção científica ou de terror, a registos mais urbano-depressivos, contemplativos ou humorísticos. O fanzine é tão coerente na sua diversidade que parece quase injusto destacar alguém. Seja como for, João Fazenda propõe uma história que consegue sugerir uma corrente subterrânea de grande perturbação na sua aparente “normalidade”. Daniel Lopes (citando o topoi clássico de filme de terror envolvendo viagens), João Chambel (idem, mas para FC distópica do tipo The Road) e João Maia Pinto (numa espécie de The Thing de Carpenter interpretado por Charles Burns) mostram um talento narrativo que continua a não ser comum na BD nacional, e que gostaria de ver (muitas) mais vezes. O excelente (não) uso de palavras por Chambel é digno de nota. Tal como Matt Feazell, Bruno Borges consegue muito com uma depuração extrema. José Smith Vargas é muito feliz na sua adaptação de José Gomes Ferreira. E não sabia quem era Afonso Ferreira, mas agora que vi o modo como subverte um estilo de desenho caricatural “fofinho”, quero saber. Apesar de tudo nota-se uma maturidade gráfica superior à maturidade narrativa, uma questão de fundo na BD nacional, onde o problema são muitas vezes os argumentos.
(10 Euros, adquirido na Amadora).
Para além de, desde logo, conseguir por de pé um projeto como o Efeméride, o grande mérito da figura da BD nacional que é Geraldes Lino reside em conseguir reunir num mesmo projeto autores com qualidade de várias gerações, incluindo alguns que raramente se encontram em projetos correntes, a jovens autores que aparecem nos mais diversos locais. De Carlos “Zíngaro”e Rui Pimentel a Tiago Baptista, passando por João Chambel, Daniel Lopes, Arlindo Fagundes, Victor Mesquita, Susa Monteiro, Nuno Saraiva, Pedro Nogueira, David Soares, J Coelho, Filipe Abranches, Ricardo Ferrand, Álvaro, Andreia Rechena, Renato Abreu, Joana Afonso, Pepedelrey, Machado-Dias, João Mascarenhas, Pedro Massano, Ricardo Cabral, Maria João Careto… E muitos outros. As propostas oscilam entre a homenagem assumida, a transposição de algumas situações dos álbuns para realidades “portuguesas”, e um humor escatológico de puro “pastiche”, muitas vezes usando ilustrações/poses dos livros de Pratt. Umas páginas são mais conseguidas e interessantes, outras menos. Como sempre. Pesoalmente retenho algumas pérolas evocativas, como as contribuições de Alice Geirinhas, Regina Pessoa, Paulo Monteiro e Marco Mendes.
(oferta do editor)