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Vem esta a propósito do filme Habemus Papam, de Nanni Moretti. O filme usa como argumento o momento de pânico do cardeal Melville (Michel Piccoli) ao saber que a contagem dos votos dos cardeais apontam para a sua eleição. Parece que o pânico assistiu vários cardeais ao longo da História ao conhecerem o seu destino eletivo.
Eu que sou católico, nunca tinha pensado no futuro chefe da Igreja enquanto homem apavorado. Mas agora que coloco o assunto percebo que não pode ser de outra maneira.
Para um católico (cardeais em Conclave incluídos) o Papa é o legítimo sucessor de Pedro e Pedro é uma invenção de Cristo. Pedro era Simão mas Jesus atribui-lhe o nome Pedro, de quem disse: tu és pedra, sobre ti construo a Igreja, o que abrires na Terra será aberto no Céu, o que fechares na terra será fechado no Céu e sobre ti nada poderão as portas do Inferno (Mateus, XVI, 16-19, João XXI, 15). Não foi João, Tiago, André que Jesus escolheu para liderar. Foi Simão, agora Pedro.
Terá sido o Espírito Santo a revelar a Pedro que Jesus era Filho de Deus (idem, Mateus) o que levou Jesus a confirmá-lo. Os Cardeais também aguardam o Paráclito e esperam que este inspire o seu voto para que a escolha do Papa seja uma mediação entre o Céu e a Terra. Por isso a eleição do Papa confirma a Igreja como espaço do Espírito Santo e o próprio Papa como uma escolha inspirada por Deus. Esta é a fé dos católicos.
O destino do Papa a partir da eleição e aceitação da missão é de uma profunda solidão. Entre ele e Deus não há mais ninguém – é o primeiro e é o último homem. O primeiro, por ser escolhido para pastor. O último, por ter de guardar no seu coração todos os outros homens e mulheres do mundo junto de Deus.
Os católicos não acreditam que no Papa se feche a interlocução com o Divino. Mas consideram-no como o primeiro (príncipe) dos ministros, aquele que como Pedro quer ser crucificado de cabeça para baixo (como reza a tradição), por não se sentir digno de ser crucificado como o Senhor.
O Papa pode recorrer a todos os amigos e confidentes antes de decidir, mas a decisão final em questões de fé é sua. Ao rezar, traz no coração o peso do mundo inteiro, como é seu dever. Ao chorar ou ao amar, só vê caminho pela frente, outros podem guardar-lhe a retaguarda, mas está nu diante do Altíssimo em pensamentos, palavras, actos e omissões.
Terrível destino! E ao mesmo tempo de uma grandeza e humildade imensa. A solidão do primeiro homem é, todavia, correspondente à solidão de qualquer outro verdadeiro líder religioso face ao Verbo, encarnado, em estado etéreo ou escondido.
Mas é também e finalmente a solidão de qualquer líder ou de qualquer um de nós no momento da decisão moral. No fim, ou se quisermos, no princípio, estamos sozinhos. É só o nosso pensamento, o nosso coração e a estrada. Os passos que vamos dar, podemos fazer de conta que não são nossos, podemos até inventar mapas onde não há caminhos ou destinos. Mas no fundo sabemos sempre que há um espaço enorme diante de nós e um caminho percorrido e que ninguém nos pode substituir no momento de escolher, de decidir, por mais apoiados e acompanhados que sejamos e que agir de uma forma ou de outra (ou nada fazer, o que também é uma forma de ação) não sendo indiferente para os outros também o não é na construção pessoal do decisor.
Este é o destino do primeiro ao último homem, pois como diz Rilke, a nossa vocação é a solidão, mesmo quando acompanhada.
O pânico na decisão última é sinal de sensatez. Só um tolo não se sente apavorado quando tem de dar um passo absoluto, um passo novo. E apesar de tudo, todos temos que o fazer todos os dias, o que bem revela o destino glorioso de toda a Humanidade, onde escolher é um atributo inerente. O cuidado que colocamos nos passos é correlativo ao pavor.
Mas o pavor só paralisa os fracos, o pavor não é o fim, é um momento de passagem necessário a quem não queira conservar o que lhe parece seguro até à morte.
Entre a tolice de quem não tem momentos de pavor e a fraqueza de quem perante ele se verga e cai, o pavor suspende-se em nós e entre nós como uma das poucas companhias com que podemos contar.
A amizade de todos os outros homens e mulheres, cada um a construir a sua solidão, é um bem dificilmente recusável para que queira conduzir com prudência a sua incursão pelas escolhas que lhe competem.
A amizade é mesmo dos poucos antídotos à necessária solidão dos dias.
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