Fui a Madrid a semana passada, a pretexto da ARCO – já lá não ia há muito tempo porque a coisa está deprimida, porque as feiras de arte são algo que mostra o lado que na arte menos tem a ver com a arte (é o comércio, querida!), e é natural que os artistas mostrem ser superiores, ou inferiores a esses tenebrosos supermercados – incluo-me nessa massa pretenciosa de desprezadores, mas também me lembro quando há 25 anos fui a este feira de arte, que este evento me abriu muitas portas e que continua a ser um bom trampolim para a obra dos artistas saírem do ghetto do circuito da arte português.
Queria também ver as outras exposições, como de costume, e sobretudo a Locus Solus, no Reyna Sofia, que irá a Serralves, e que nasceu de uma ideia há muito acalentada pelo João Fernandes, de mostrar a importância do filão do escritor excêntrico Raymond Roussel nas artes – é uma belíssima exposição que irei rever no Porto, mas na qual o que me surpreendeu mais foi precisamente o que nela não é arte, e que só tem a ver com Raymond Roussel como contraponto documental às suas Impressões de Àfrica – refiro-me ao filme documental de Jean Rouch, “les maitres fous”, que é mostra aspectos da possessão, como sempre teatrais, relacionados com os deuses do mundo “moderno” – pode-se ver o essêncial aqui neste excerto: http://www.youtube.com/watch?v=YG63DlGSX98
Paradoxalmente os feirantes estavam eufóricos – em ano de expectativas nulas, e numa semana negra para os mercados financeiros, a coisa corria às mil maravilhas para os feirantes, quer no dominio do negócio, quer nas perspectivas de colocarem os seus artistas em exposições e projectos. Ignoro as explicações para este fôlego a contra-corrente algo inexplicável. Não é só em Portugal que o mercado está de rastos, em que os artistas estão literalmente na mendicidade e em que os galeristas murmuram a palavra falência como a perspectiva mais realista – em Espanha o adjectivo mais comum para o estado do mercado das artes é “fatal!”, isto é, péssimo.
Desde o sec. XIX que a existência de mercado possibilita que os artistas tenham uma alternativa à bajulação institucional dos príncipes, do clero ou do estado – a alternativa não é maravilhosa porque é perniciosa, e o dinheiro, dizem os radicais, conspurca a nobreza da arte e a ética dos criadores. Mas proporciona uma maior independência. E o mercado da arte, como já vem sendo hábito, é o paradoxo da circulação de uma mercadoria constituída sobretudo por objectos que enunciam a revolta contra o mercado, a arte e os seus mecanismos . O que, digamos, é triste.
Levei de leitura de viagem um livro da Gertrude Stein que comecei a ler diversas vezes – chego à página 50 e emperro, não sei porquê. Chama-se Everybody’s Autobiography, uma sequela do The Autobyography of Alice B. Toklas, o livro que deu sucesso e dinheiro à autora. É um livro sobre a crise nos anos 30 e a falta de dinheiro. É um livro que fala sobre o “ganhar dinheiro” e de como isto muda os artistas, e também fala da fotografia ( e Picabia), dos filhos de notários (Dali e Duchamp) e da poesia de Picasso. Da poesia de Picasso? Sim, por volta de 1935, no meio de uma crise, Picasso decide abandonar a pintura e dedicar-se à escrita, e escreve compulsivamente. Em Portugal foram publicados pela “& etc” dois livros dos escritos de Picasso – o seu teatro, numa maravilhosa tradução de Aníbal Fernandes em 1975 (e que os rapazes do KWY po cá, como “peché de veillesse”, quiseram encenar e representar, com música do René Bértholo), e mais recentemente (mas já lá vão 11 anos) “O enterro do Conde Orgaz”, traduzido pelo Victor Silva Tavares, acompanhado de um texto do Alberti e outro do Alejo Carpentier que reproduzem a edição espanhola. Gertrude Stein sentia-se desconfortável com os escritos do Picasso, achava que eram uma perca de tempo, e que eram tão maus quanto os desenhos de Cocteau.
Mas a escrita de Picasso é mesmo desconfortável, no sentido em que é uma emancipação da mimesis, da representação, e uma espécie de diarreia verbal que nalguns aspectos se assemelha aos escritos de Tzara e Picabia, mas que por outro, pela recorrência das palavras, como se fossem cores a combinar, se parece um pouco com o estilo da própria Gertrude Stein. O resultado é uma escrita que é profundamente visceral e abstracta num clima dada-surrealista. O que colide com o realismo experimental de Gertrude Stein que é mais um modo experimental de vêr as coisas e de dizê-las como elas são no experimentá-las. Na escrita de Picasso o desejo e as pulsões fervilham descontroladamente, e esse delírio já não deixa ver as coisas porque não há diferença entre o desejo e as coisas.
O desprezo por este tipo de escrita já é antigo, e o mal tem um, nome: gongorismo! Literatura infame, barroca, emplumada, comichosa, voluntáriamente confusa, aparentemente alegórica, disparatada, com refinamentos pretenciosos (culterana). Picasso namorava com o surrealismo, mas o namoro não durou muito, e a relação de Breton e os seus acólitos com Picasso foi curta, embora fértil.
Quando voltei a Lisboa, e sabendo que eu andava em “traduções” de Picasso (como também de Duchamp, Picabia, Broothaers, Finlay) e outras mistelas parecidas, recebi do Manuel Rosa (que belo presente, mil vezes obrigado!) a edição dos Écrits do mesmo Picasso publicada em 89 pela Gallimard. Edição esgotada, volumosa, com páginas delirantes de fac-similes – espontâneas, desordenadas, sujas, riscadas, hiperemendadas, com flechas, manchas, caligrafias rebuscadas, por vezes elegantes, outras vezes feias, apressadas, nervosas, turtuosas, com desenhos nas margens.
Os textos são poéticos, mas também terrívelmente obscenos e tétricos. É nestes anos de crise literária que surge o Guernica – o filão literário não é indiferente a esta obra mitológica – é melhor lê-los do que ler explicações projectivas e conjecturas pretenciosas. Michel Leiris no prefácio aos escritos de Picasso escreveu que ” não encontro ninguém para além de James Joyce que, no seu Finnegans Wake tenha dado provas de uma semelhante capacidade de promover a linguagem a coisa real (dir-se-ia) que se come ou se bebe com gula e de a usar com vertiginosa liberdade.”