Mesmo que não se leia, mesmo que seja indesculpável, aqui vai a espontânea apologia de Eduardo Batarda, sem medos, vergonhas, anseolíticos, ironias escondidas e outras batotas, ou trocadilhos brejeiros. È claro que é um texto opinativo, e visceral, no sentido em que a admiração de outrém se faz carne, e se torna, digerida ou a digerir-se, parte das nossas míudezas autobiográficas, nem que seja em versão goeza, ou em cabidela rica.
Esta semana inagura com pompa (esperamos) a segunda retrospectiva de um artista no mínimo genial (“sic” – assumo o adjectivo o mais pessoalmente possível, dentro da minha modesta esfera opinativa), não por ser supostamente muito culto (que os há atoleirados em informações gordurosas ou pedantes eurudições) ou intiligente, mas por lhes dar uso creativo, original, pessoal e significativo para além das faculdades que muitas vezes se limitam a uma admirada esterelidade e outros atributos da mesma laia. Fale-se pois da obra – pinturas, coisa para uns mais do que ultrapassada (há tantos anos anos), para outros (“conservadores”?) nem por isso. Pinturas, ainda por cima sem grande escala em centímetros.
Uma das coisas que se pede a qualquer arte é que nos faça estremecer. Há “coisas ditas de arte” que nos estremecem, mesmo quando estupidas, violentas, inconsciêntes, patetas, etc. O trabalho de EB é algo que nos abana de alguma maneira (e de que maneira!), com uma sede de mais consciência, mais curiosidade e “criticismo”, seja em que época do seu trabalho se situe. Também parece que ruge, sem clemência, o lobo mau da desconversação, a famigerada criatura que nos dá uns nacos de chispe, mas não oferece a sandes, embora prometa o bife.
A desconversação, cuja tradição é antiga, mas nem por isso respeitável, vem sistematizada naquela técnica sofística, quando Górgias, um bon-vivant que se aguentou 105 anos vivo, declara que, quando lhe aparecem com coisas sérias, achincalha, e quando lhe vêm como modos trocistas, combate-os com a seriedade. Algo de parecido se passa com as técnicas Zen e suas parentas nos orientes que nos requentam. As pinturas de EB não são nem Zen nem apendices da arte de louvar, adular ou refutar, mas dão-nos algo dessa sublime comicheira de um modo que é eventualmente “romanesco”, estilo “icebergs de um romance” (faltaria citar Hemingway?), narrativas que talvez existam, ou não existam, “great moments”, Flaubert de escabeche em popismo de pastelaria de bairro e outros clichês maravilhosos. A teoria, algo simples deste processo, com ou sem palavras no cocktail, fê-la EB a propósito do seu colega Àlvaro Lapa, no ano, agora já distante (arrefecido!), do veraneante 75, quando fala de coisas como a citação, a pseudocitação, ou algo parecido. Batarda não incorre na pseudonomia nem na heteronomia, embora tenha voltado à carga com mitologias pessoais a propósito dos personagens da sua experimentalíssima banda desenhada.
“Private Jokes” dirão os denegridores esfregando as manápulas e indo lavá-las de seguida ao W.C do museu que se segue. Creio que as “private jokes” (tal como todo o Finnegans Wake, ou boa parte dos Cantos do Pound) têm a vantagem de se poder desfrutar, mesmo que as não entendamos. É o estilo das private jokes que é a sua força. A parte estapafúrdia da graçola fica em casa a escovar os dentes. A da qual não percebemos patavina acompanha-nos como um estribilho poético, como uma cançoneta numa lingua obscura que apenas podemos assobiar a melodia.
EB é no entanto demasiado sério quanto a seriedades das boas, e encontramo-nos perante um pintor (pese a suposta obscuridade iconológica) cujos trabalhos se ocupam predominantemente de questões formais, experimentais, e técnicas – de problemas de percepção, onde nem o verniz e as respectivas camadas são inocentes. Podiam-se citar casos “parecidos”, cá da terra, como o do Ângelo, e também, do Pedro Casqueiro. O formalismo, malvada doença americana ( e em parte britânica) não é popular nestas bandas, porque nos falta tradição a sério de olhar com os olhos mesmo, ou de ter curiosidades para isso. A comunidade do “criticismo”, mais preocupada com a história, a legitimação e os ditos cujos conteúdos passa mesmo ao lado, e o sortido das post-modernidades mais entretido em mézinhas reinterpretativas ajuda ao esquecimento e enfraquecimento quer da literalidade quer das indispensáveis subtilezas.
Podemos temer que as obras de EB não se aguentem em qualquer espaço de exposição, estilo museu, sobretudo a escala megalómana de Serralves, feita para impressionar, para coisas grandalhonas, minimalistas, monocromáticas, instalações, projecções,etc. Os trabalhos de Batarda não são feitos para este género de espaço frio. São obras para conviver diáriamente nas casas das pessoas (sejam burgueses, proletários ou professores primários) – com coisas, objectos, etc. Exigem tempo do “espectador”, e aguentam bem ambientes encafuados. Devem ser vistas com música, com boa música, sempre diferente.
Em tempos Batarda evocou adjectivos do género “monotonia” que trocou por outras coisas que designou como exuberantes. Achei eu, com a minha ingenuidade e extravagantes conjecturas que algo nas obras e nos escritos do nosso louvável EB se aparenta com os de alguém que lhe é o revés, refiro-me ao Ad Reinhardt – mas também podiamos piscar o olho ao Frank Stella. Mas trata-se de uma aproximação forçada, e mais uma vez, uma miragem pessoal.
Fico na expectativa de ver e rever a obra do Eduardo Batarda – vou precisar de tempo. Não dá para olhar num corropio como se veria uma retrospectiva, por exemplo, do Picasso (que também admiro incondicionalmentye!). Espero com anseadade o catálogo e a publicação do texto detectivesco de uma conferência sobre dois desenhos antigos. EB escreve maravilhosamente, lançando permanentes suspeitas sobre a linguagem, e estando atento aos menores equívocos. É o mesmo estilo, é o mesmo requinte, é o mesmo savoir-faire das pinturas. E também é uma profunda desconfiança pelas “misinterpretations”, e os tiros ao lado que os comentadores de ocasião, no seu pleno direito, desferem. Daí esta sensação de “privacy” que contrasta com o despudor que vigora no arte world. Teremos também a ocasião de ver pinturas que não são tentativas de se verem livres (não sei muito bem porquê) da “arte”. Felizmente inserem-se num filão que tem em boa conta o canónico.
Termino citando-lhe um texto com quase duas décadas, que não sei se ainda subscreve:
“A arte não pode ser um “bluff” e, infelizmente para alguns, não admite essa estética de bairro da lata. Mas, como é sabido, temos de construí-la de novo (à arte). E, como está dito, sempre, de cada vez, e sem “modelos”.”