Numa entrevista do compositor, disponível no portal do Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa, João Madureira explica como, no seu entender, “a música é essencialmente espaço… espaço mental”. “Não é, por exemplo, na complexidade das alturas, na complexidade do ritmo, na complexidade do timbre, na complexidade da dinâmica, na complexidade da textura ou de tudo o que se queira inventar, que está a riqueza da música, mas sim na relação destas coisas umas com as outras”, afirma.
É esta relação das coisas da música entre si que deslumbra, e que, na obra do compositor, se abre a outros domínios, para a ela voltar. Passados quase 17 anos, as suas palavras regressam à memória, perante a edição de Estudos Literários – Retratos, em disco. São nove pequenas, mas intensas e belíssimas peças para piano, compostas para Ana Telles, que as tem vindo a interpretar em recital, nos últimos anos, por vezes lado a lado com os nove Estudos-quadro op.33, de Rachmaninoff, que, de algum modo, lhe serviram de pretexto, mas que aqui surgem com outras quatro peças de igual fascínio, que as expandem. A obra nasceu de um desafio, lançado pela pianista, no contexto de homenagem ao compositor russo, nos cem anos da conclusão do seu opus 33, com a possibilidade de, em recital, haver outra obra que se lhe contrapusesse, lidando, numa nova perspetiva, com os problemas de técnica de interpretação pianística.
João Madureira fez o que lhe era inevitável e levou o desafio mais longe, concebendo essas nove peças como retratos de pessoas, de amigos, de compositores, de nomes de referência na sua vida, no seu percurso, tornando-os em algo mais, num conjunto de “Estudos Literários”, numa espécie de descrição de uma realidade exterior à própria música, mas que nela se consubstancia, como se de um poema se tratasse. Como se a escrita musical se desenvolvesse em paralelo com uma escrita poética. E o contrário também. Para Madureira, a música tem uma qualidade literária, a substância de um poema. E o texto é um jogo de ritmos e timbres, uma manifestação da arte dos sons. A “música é essencialmente texto” e “o texto tem, essencialmente, a ver com música”, disse na entrevista de 2004, para sustentar “o labirinto de significações”, que cria deles se cria.
Os nove retratos dos “Estudos Literários” surgem necessariamente neste contexto. Cada um tem um destinatário, evocado na sua essência.
O guia é estabelecido pelo próprio compositor, na apresentação da obra. O percurso começa com “Ana”, para a pianista Ana Telles, pela riqueza da harmonia e pela procura da “cor do som” – e é sobre a harmonia e a cor do som que a peça se constrói. Sucede-lhe “Carlos”, para o artista plástico Carlos Martins Pereira, e o “traço certeiro” que o caracteriza – e é sobre o “traço certeiro” de Madureira que a peça se desenvolve.
“António”, para António Pinho Vargas, demonstra a capacidade de “juntar mundos diversos” na música, estabelecendo uma das mais fascinantes etapas da obra. Seguem-se “Eurico”, para Eurico Carrapatoso, e o dom da harmonia, e a contemporaneidade luminosa de “Ivan”, para o compositor italiano Ivan Fedele, com quem Madureira trabalhou. “A.H.” remete para Ana Hatherly e a inquietação que fez a sua obra (a escritora, artista, cineasta, pedagoga, investigadora para a qual Madureira também já tinha composto “Três Momentos”).
A profundidade do compositor Morton Feldman define “Morton”, abrindo caminho a “Marta”, num “instantâneo” da artista Marta Wengorovius. O ciclo encerra com “Cristiana”, para a investigadora Cristiana Vasconcelos Rodrigues, especialista na obra literária de Maria Gabriela Lansol.
A ponte fica então lançada para mais quatro peças que, não fazendo parte dos “Estudos Literários”, nem estabelecendo “retratos”, no sentido estrito dos anteriores, a eles naturalmente se associam. Surge assim “Ana, Parabéns”, “J.S.”, para o maestro Jean-Sébastien Béreau, “Coroa”, para piano e voz recitante, sobre excerto de Llansol, e, por fim, “Para Inês”, peça composta para o filme “Cinerama”, de Inês Oliveira.
Na sequência e na obra do compositor, Maria Gabriela Lansol é elemento-chave. Sobre a escritora compôs “Metanoite”, a ópera que estreou, em 2007, na Fundação Calouste Gulbenkian. “Coroa” vem da conceção para o Dia Lansol, celebrado em 2011, no Centro Cultural de Belém. Na altura, Diogo Dória foi o recitante do texto da escritora, agora dito por Ana Telles. As palavras de Lansol fornecem as imagens, num processo de transformação, em que os elementos da música parecem diluir-se. “Os últimos dias têm sido inqualificáveis de sentimentos, em declínio para a despedida”. E então tudo faz sentido. “Nem a obscuridade critica a luz, nem a luz, a obscuridade”.
Na “vertigem de texto e música”, no “contraponto de linguagens” que estabelecem, e na traição que, nesse processo, cada expressão impõe à outra (“nenhum de nós lê o mesmo Camões ou o mesmo Pessoa… não ouvimos o mesmo Beethoven nem o mesmo Mahler…”, disse Madureira em 2004), afirma-se a subjetividade como um trunfo. E revela-se (finalmente) em disco, uma das mais ricas e fascinantes obras da música portuguesa contemporânea.