Após vários anos de queda de taxas de juro que, recordemo-nos, atingiram valores negativos, estamos a assistir a um aumento rápido das taxas Euribor: Este aumento tem levado cada vez mais pessoas a questionar os nossos consultores sobre as vantagens e desvantagens de contratação de créditos a taxas fixas. Qual será a melhor opção? Haverá uma opção que seja sempre mais vantajosa? É sobre este dilema que nos iremos deter nas próximas linhas.
Para que servem as taxas de juro?
A taxa de juro, como é sabido, é o custo do dinheiro. Na realidade, o dinheiro tem um valor temporal que serve de indicador para a compensação exigida para emprestar dinheiro, compensação essa que depende do prazo do empréstimo (quanto maior o prazo, maior a taxa de juro) e do risco associado.
No caso concreto dos contratos de crédito habitação, estamos na presença de acordos entre um cliente e um banco para um empréstimo de dinheiro com um conjunto extenso de garantias, sendo a mais impactante a hipoteca sobre um imóvel. Esta hipoteca representa uma importante garantia em caso de incumprimento (reduz o risco da operação), o que faz com que o crédito habitação tenha taxas de juro muito mais reduzidas do que outros contratos de crédito.
As taxas de juro servem como elementos estabilizadores da economia. Em momentos de crescimento económico, as taxas tendem a aumentar de modo a tornar o investimento e o consumo mais caros
As taxas de juro servem como elementos estabilizadores da economia. Em momentos de crescimento económico, as taxas tendem a aumentar de modo a tornar o investimento e o consumo mais caros. Em momentos de crise, por seu turno, vemos a queda das taxas de juro como forma de incentivar a economia. Assim, poderemos dizer que a subida de taxas de juro costuma estar associada ao crescimento económico e a subidas do rendimento das famílias, pois há mais empregos e a concorrência por talento aumenta os seus salários.
As subidas que vivemos atualmente têm algo atípico?
As subidas de taxas que estamos a assistir acontecem depois de muitos anos de estímulos económicos que têm de ser retirados (e que provocaram excesso de liquidez e taxas de juro negativas, que penalizam fortemente o aforro). Em alguns blocos económicos já estão a ser retirados estímulos monetários, embora a Zona Euro estava mais relutante.
Acontece que a inflação provocada especialmente pela Guerra (mas não só) veio obrigar a um discurso diferente, visto que o mandato do Banco Central Europeu consiste na estabilização de preços. Isto não quer dizer que as subidas serão permanentes, podendo ter algum caracter de transitoriedade, o que poderá limitar a subida das taxas de juro. No entanto, tivemos uma mudança de discurso que indica a retirada de estímulos e o aumento dos juros.
Dúvidas que persistem
Num contexto de incerteza e de guerra torna-se muito complicado dizer qual a extensão e rapidez da subida das taxas de juro e se o efeito da inflação será transitório ou persistente, uma vez que depende de critérios objetivos e de critérios subjetivos, embora seja bastante provável que não voltemos a taxas de juro tão negativas como já tivemos. E é aqui que encontramos a principal dúvida dos nossos clientes. Será que deveremos fixar as taxas de juro ou será que devemos aceitar uma taxa de juro variável e que se adapte ao contexto?
Qual a postura que queremos ter?
Para responder à pergunta formulada no início, terá de responder a uma outra pergunta. O que valoriza mais, a certeza ou a incerteza? Valoriza mais saber ao certo quanto é que vai pagar todos os meses, mesmo que isso implique pagar mais? Ou valoriza um custo inferior mesmo que isso implique o risco de vir a pagar mais no futuro?
Como vemos, temos muito mais uma questão de postura face à gestão do orçamento familiar do que uma questão matemática. Esta postura é traduzida no desejo (ou não) de procura por um seguro contra a subida de taxas, seguro esse que tem um custo que pode ser bastante grande. Quem compra esse seguro (contrata taxa fixa) paga para não especular sobre a volatilidade das taxas de juro, uma postura que pode revelar-se como prudente e que pode (ou não) compensar financeiramente.
Mas será que esta decisão deve ser uma decisão puramente financeira?
Ao contratarmos um crédito habitação estamos a embarcar num contrato de longo prazo. No entanto, é sabido que rapidamente mudamos de ideias. Fazemos contratos a 30 ou 40 anos mas, na realidade, mudamos de casa muito antes disso. Se assumirmos que o contrato de crédito dura, em média, menos de 10 anos e se assumirmos que a penalização por amortização antecipada dos créditos a taxa fixa é de 2% do montante liquidado (ao invés de 0.5%), a nossa decisão poderá mudar. Uma decisão de fixar taxas para a totalidade do contrato de crédito rapidamente é colocada em causa.
Então o que fazer?
Demos alguns argumentos que justificam qualquer uma das opções e agora acrescentamos uma terceira via. Imaginando que a diferença entre uma prestação a taxa variável e a taxa fixa é de €100 por mês, por que não optar por fazer um crédito a taxa variável e aplicar o valor da diferença (os €100) numa aplicação financeira de poupança / investimento?
Imaginando que a diferença entre uma prestação a taxa variável e a taxa fixa é de €100 por mês, por que não optar por fazer um crédito a taxa variável e aplicar o valor da diferença (os €100) numa aplicação financeira de poupança / investimento?
Seguir esta estratégia permitirá beneficiar da redução de custo ao mesmo tempo que constitui uma poupança que será muito útil caso as taxas de juro subam demasiado, altura em que poderá decidir-se por amortizar parte do crédito ou usar o dinheiro poupado para suprir o aumento do custo mensal. Na prática, estará a ser a sua própria companhia de seguros.
Restará, no entanto, vencer as tentações do consumo e criar estratégias de poupança eficientes e eficazes, como sendo a constituição de um programa de entregas programadas para uma conta independente. Em qualquer dos casos, a diferença resume-se a comportamentos e emoções e não tanto à matemática financeira. E já agora, uma última pergunta: se o crédito a taxa fixa é tão vantajoso para o cliente, porque é que os bancos estão a incentivar/promover tanto a taxa fixa?