“Precisamos de Governos que sejam proativos”. A frase, em jeito de apelo, é de Gregoire Verdeaux, que falava sobre a importância da inovação para o desenvolvimento das economias e das sociedades alertando, contudo, para o problema criado pela rapidez com que o mundo está a mudar e que contribui, cada vez mais, para as desigualdades sociais. O vice-presidente para as relações externas da Philip Morris International (PMI) foi um dos participantes no Delphi Economic Fórum, que teve recentemente lugar na Grécia, onde recordou que a empresa que representa é, no grupo das Fortune 500, e a par da energética BP, aquela que mais se transformou ao longo dos últimos anos. “A inovação no nosso sector é passar de produtos de combustão com os efeitos bem conhecidos, para produtos sem combustão e que são claramente identificados como menos nocivos”, refere.
No entanto, tal como noutros setores de atividade, a inovação tende a ser fonte de desigualdades e de desequilíbrios. Para evitá-los, acredita o responsável da PMI, é preciso entender o facto de que a inovação não vai, de forma natural, produzir igualdade. Pelo contrário, e devido à natureza dos vários perfis na sociedade, ela será absorvida e aproveitada melhor por um determinado grupo da população, que atualmente é sempre o mesmo. “Entender isso é crítico, porque depois podemos ter políticas dirigidas”, defende.
Esta é uma lição da última década, acentuada por dois anos de pandemia, que tem sido subestimada. Gregoire Verdeaux exemplifica: “basta olhar para alguns setores como o da saúde, o das tecnologias, as indústrias digitais, o energético ou o automóvel para perceber que a inovação avança tão rapidamente que provoca um efeito agregado em que há inovação para quem beneficia dela e exclusão para quem não beneficia”. Na opinião daquele responsável, o impacto desta consciência são fenómenos sociais com grande crescimento nos últimos anos, como é o caso do voto populista, mas que parecem não estar a ser levados a sério. “Pessoas que manifestam rebeldia, insatisfação ou um sentimento de distância estão, na verdade, excluídas de qualquer camada de inovação”.
Há uns anos, a revolta dos coletes amarelos em França espelhava também estas desigualdades sociais. A contestação estava relacionada com os elevados preços dos combustíveis, um problema para profissionais do setor dos transportes e logística. Para este grupo, inovações como micromobilidade, energias limpas, 5G ou fibra, não faziam parte da sua vida. O problema, diz Gregoire Verdeaux, é que os governos não têm em conta este tipo de questões. “Sabemos como a inovação funciona, dos early adopters aos definidores de tendências, e depois atinge uma certa escala. Isto é o que paga à indústria o custo de aquisição de clientes e depois para aí. O resultado é que algumas pessoas são deixadas para trás”.

Empresas têm o dever de contribuir com soluções
Identificado o problema das desigualdades acentuadas pela inovação, é preciso encontrar soluções. No entanto, como defende o vice-presidente para as relações externas da PMI, este é um caminho que não pode ser percorrido sozinho. “Tem que haver um trabalho conjunto entre a indústria, que é quem inova, e os governos, com capacidade para regular e definir políticas que garantam a igualdade”. Mas, mesmo assim, haverá sempre desafios como o conhecimento e literacia dos consumidores, a acessibilidade, ou a aceitação cultural, que nem sempre é fácil.
Logo no início da pandemia, por exemplo, muitos governos identificaram de imediato um conjunto de problemas de desigualdade, que foram resolvidos ou colmatados, mas a verdade é que, em alguns casos, foram criadas outras dificuldades que foram ignoradas. “Estas situações aumentaram a disparidade entre os países desenvolvidos e em emergência, com diferentes consequências e caraterísticas em cada um deles”, salienta Gregoire Verdeaux. Outro exemplo, aponta, foi a rápida explosão do teletrabalho. Empresas e governos perceberam muito rapidamente que seria possível trabalhar de forma remota, assim como percecionaram os benefícios da digitalização da economia e abraçaram-na. “Mas alguém pensou que confinar pessoas aumentaria o consumo de álcool e de fast food, reduziria o tempo de exercício físico e contribuiria para o desenvolvimento de problemas de saúde mental?”. Uma pergunta retórica a que o responsável da PMI responde sem hesitar: “Contribuir para uma solução é também o papel de uma empresa como a nossa, em que as pessoas que conhecemos melhor são os consumidores”. Mas, acrescenta, “precisamos, em simultâneo, de governos que sejam proativos. É uma questão política”.
