A riqueza cultural, o clima e a simpatia são ex libris da imagem de Portugal no estrangeiro. Uma imagem ensombrada, pelo facto de, entre os países europeus, sermos o que se destaca pelo elevado número de suicídios (cerca de mil por ano) e de problemas de saúde mental (afetam um em cada cinco habitantes).
O anúncio, em final de maio, da formação de 900 profissionais dos centros de saúde – clínicos gerais, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais – lançou dúvidas e reservas. O que esperar, em concreto, dos “peritos em depressão” (que vão transmitir o que aprenderem a mais 3400 colegas) abrangidos pela ação de sensibilização, financiada pela Aliança Europeia Contra a Depressão (EUTIMIA)?
Tradicionalmente encarados como “parente pobre” do Serviço Nacional de Saúde (SNS), os cuidados de saúde primários debatem-se com escassez de recursos. Técnicos e utentes estão cientes disso. A plataforma digital de autoajuda, com recurso a psicoterapia por smartphone, (modelo cognitivo comportamental com duração de oito semanas) foi a parte do programa que mais suscitou reações discordantes: o tratamento personalizado (e especializado) é para ficar em segundo plano?
“Os problemas (de saúde mental) das pessoas, resolvem-se com pessoas”, reagiu, em comunicado, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), acrescentando: “É necessário fazer da contratação de psicólogos para o SNS uma prioridade”. Com efeito, as recomendações internacionais sugerem a distribuição de um ‘psi’ por cada 5.000 pessoas, um rácio que está longe de acontecer na realidade nacional (o maior défice destes profissionais, no SNS, verifica-se na região de Lisboa e Vale do tejo e no Norte, 404 e 664 respetivamente).
O projeto Primary Care Mental Health Sustained Capacity-Building for Depression and Suicidal Behaviour – Prime Dep – apresentado em 27 de maio, e para arrancar em setembro, pretende formar médicos de família para diagnosticar, prescrever e monitorizar corretamente o tratamento para a ansiedade e a depressão (em Portugal, o consumo de antidepressivos representa o dobro do da média europeia, 15% contra 7%). ~
Ricardo Gusmão, presidente da Eutimia em Portugal, assegurou, então, que o modelo respondia “às necessidades de 90% dos doentes com depressão” (ver entrevista). Algo que se faz, segundo o médico, com o reforço de conhecimentos clínicos, grupos de enfermeiros e psicólogos para esclarecer o utente (sobre a doença, como lidar com os sintomas, efeitos secundários dos medicamentos) e grupos de autoajuda de doentes.
Inquirido pela VISÃO sobre as suspeitas que circularam nos media sociais após a divulgação do programa, Álvaro de Carvalho, coordenador nacional para a Saúde Mental, comenta: “Referir-se a ‘peritos em depressão’ foi uma expressão infeliz, tal como o foram as reações exageradas das classes profissionais.” O psiquiatra enfatiza a pertinência da iniciativa, baseando-se nos dados do Euro barómetro 2010, (os portugueses são os cidadãos da EU que mais acorrem ao médico de família quando apresentam sintomas de depressão), pelo que “todas as intervenções para esclarecer os médicos (das boas práticas, na prescrição de ansiolíticos e antidepressivos) são bem-vindas”.