“Quando deres uma festa, convida os pobres, os inválidos, os coxos e os cegos”, aconselha Jesus, no Evangelho segundo São Lucas, aos que, como ele, foram convidados para almoçar em casa de um dos chefes dos fariseus. E em ocasião da maior “festa” que a Igreja Católica dá em 2023, a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o Papa Francisco decidiu pôr em prática, de uma forma muito objetiva, tal passagem da palavra de Deus.
Na manhã de sexta-feira, 4 de agosto, o Santo Padre visitará os bairros da Liberdade e da Serafina, na freguesia de Campolide, em Lisboa, localizados junto do Aqueduto das Águas Livres e do Parque Florestal de Monsanto.
Marcada pelo estigma e pela pobreza, tendo mesmo sido apelidada em 2015, por Carmona Rodrigues, então candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, como a “última favela de Lisboa”, a zona é morada daqueles que, tantas vezes, podem ser considerados os últimos dos últimos.
Em 2015, Carmona Rodrigues, então candidato à presidência da Câmara de Lisboa, apelidou o bairro da Liberdade como a “última favela de Lisboa”
Francisco encontrar-se-á assim com os responsáveis do Centro Social Paroquial São Vicente de Paulo, entre eles o cónego Francisco Crespo, 82 anos, que fundou a estrutura, em 1977, para responder às necessidades dos habitantes.
Longe vai o tempo em que, em vez de esperar que os paroquianos aparecessem na igreja, Francisco Crespo arregaçava as mangas e “ia onde eles estavam: nas ruas, nas tabernas e nas casas abarracadas”, como contou durante a conferência de imprensa diária da JMJ.
Se, há 46 anos, apoiava apenas idosos, com um centro de dia, atualmente, o Centro Social Paroquial São Vicente de Paulo (além de empregar cerca de 150 pessoas, entre técnicos, psicólogos, terapeutas, fisiatras, enfermeiras, assistentes sociais, médicos, ajudantes de ação direta, cozinheiros e ajudantes de cozinha) tem um jardim de infância, um ATL, um movimento juvenil, uma resposta de acolhimento de deficientes adultos e um lar para idosos dependentes, apoiando mais de 500 pessoas diariamente, além de oferecer fisioterapia e ajuda às famílias mais carenciadas, através do Banco Alimentar contra a Fome.
O padre – que acredita que “de nada nos serve fazermos boas pregações, bons sacramentos, se não nos colocarmos na prática da caridade para com os mais carenciados” – fez questão que a igreja fosse o último edifício a ser construído, após os apoios sociais à população estarem assegurados.
De nada nos serve fazermos boas pregações, bom sacramentos, se não nos colocarmos na prática da caridade para com os mais carenciados
francisco crespo – cónego e fundador do centro social paroquial São vicente de paulo
É precisamente neste espaço, com capacidade para acolher até 500 pessoas, que o Papa Francisco deverá fazer o seu discurso, quando visitar o Bairro da Serafina e da Liberdade. Em declarações à agência Lusa, Francisco Crespo disse que “foi uma surpresa” saber da visita do Papa. Apesar de se ter confessado “estupefacto” com a notícia, mostrou-se convicto de que a escolha do centro estará relacionada “com a preocupação do Papa em relação às periferias e à população carenciada”.
Na conferência de Imprensa, Francisco Crespo sublinhou ainda que foi precisamente a prática da caridade “a razão fundamental” que o levou a oferecer-se “para trabalhar nos bairros da Serafina e da Liberdade nos anos agitados pós-25 de Abril, concretamente 1977”.
Mais de 100 anos de história e de estigma
Esta Lisboa dentro de Lisboa nasceu no início do século XX como morada para os operários e as respetivas famílias, vindos das zonas rurais para trabalhar na recém industrializada zona de Alcântara.
À sombra do Aqueduto das Águas Livres, o bairro da Liberdade acabou por crescer sem eira nem beira, transformando-se num aglomerado de barracas de madeira, entretanto transformadas em casas atijoladas, mas sempre ilegais e, na maioria das vezes, sem condições sanitárias básicas.
Entretanto, nos anos 30, surgiu o Bairro do Alto da Serafina, como tentativa de resolver o crescimento anárquico do Bairro da Liberdade, mas acabando por transformar-se numa realidade semelhante e dificilmente dissociável da já existente.
A droga chegou mais tarde, sobretudo com a demolição do vizinho Casal Ventoso, após o ano 2000, em tempos conhecido como o ”hipermercado da droga” da capital. Já o estigma parece remontar às primeiras décadas do século passado.
A 28 de dezembro de 1931, o jornalista e olissipógrafo Gustavo de Matos Sequeira escreve no Diário de Notícias: “No Bairro da Liberdade, para lá de Campolide, à beira do aqueduto das Águas Livres, mora uma gente que dá gosto vê-la, de simples e honrada que é. A fantasia de quem nunca andou por aquele sítio, emprestou-lhe famas indevidas, tenebrosas, de miséria negra e de vileza turva, que não tem, é um bairro simpático, este bairro da Liberdade. É pitoresco. É amável. É bom”.
Ironicamente, da janela de muitas casas da “gente simples e honrada” do bairro da Liberdade e da Serafina, avista-se uma das zonas mais nobres da capital, as Amoreiras. Pobres e ricos vivem a poucos metros de distância, separados por um vale físico e social, intransponível. É nas margens que o Papa Francisco sempre afirmou querer estar, desde o primeiro dia do seu papado.
Tal como Francisco Crespo quando, em 1977, e após o último padre do bairro ter sido obrigado a fugir devido aos “maus tratos e incompreensões daqueles habitantes”, decidiu lançar as redes e tentar pescar homens, em águas aparentemente inóspitas. “Na altura, bem sabia que não ia ter uma vida fácil, mas isso não me fez desanimar”, conta. “Pensei nas frases dos saudosos Papa São João XXIII e do Padre Américo que dizem que a paróquia é uma fonte onde todos os habitantes vêm beber e que cada paroquia deve cuidar dos seus pobres.”