Milhões de vídeos, 3,5 milhões de páginas, 180 mil imagens, centenas de figuras públicas, um número indeterminado de pessoas desconhecidas e, mais relevante, um número incerto de vítimas.
Estes são os números da vergonha, os números conhecidos (para já) do esquema montado por Jeffrey Epstein, números que demonstram uma gigantesca teia criminosa, à escala global, que servia para que gente poderosa e/ou famosa pudesse satisfazer os seus desejos libidinosos e sexuais à conta de jovens mulheres inocentes, muitas ainda crianças.
Quanto mais sabemos, com mais náuseas ficamos. Cada documento, cada email, cada imagem, deixa-nos mais revoltados com o que se passou. Tratava-se de uma verdadeira associação criminosa, que era conhecida por gente com poder e/ou dinheiro em todo o mundo. Aliás, tendo em conta a extensão dos casos já conhecidos, arrisco escrever que, em determinados setores da sociedade, toda a gente sabia, uns mais, outros menos, o que se passava.
Na edição nº 1720, a VISÃO publicou o que podemos considerar a ponta do icebergue desta gigantesca teia. Epstein montou um verdadeiro negócio, angariando e forçando crianças e jovens mulheres para satisfazer sexualmente milhares de clientes, do mundo inteiro. O abuso era descarado, quase público (porém, óbvio para quem frequentava o círculo de Epstein), nojento pela perversidade dos atos, muito grave pelo tipo de crime e pelos danos causados e revoltante pela impunidade que durou longos anos e destruiu milhares de vítimas. Vítimas que, quase de certeza, nunca esquecerão a humilhação, a vergonha, nunca irão recuperar do trauma.
Olhando para o nosso Código Penal (o norte-americano tem ligeiras diferenças quanto à tipificação legal dos factos, porém, é igual no essencial), estamos perante um vasto leque de crimes. Violação, abuso sexual, coação sexual, tráfico de pessoas, lenocínio, importunação sexual, pornografia de menores, ofensa à integridade física, ameaça e uns quantos mais. Percorremos o Código Penal no capítulo relativo aos crimes contra a liberdade e a autodeterminação sexual e quase todos os tipos de crime ali previstos estão verificados. Isto choca qualquer pessoa decente.
Mas não foi apenas uma prestação de serviços, traduzida em abusos sexuais, na medida em que também foram praticados crimes financeiros, como, por exemplo, fraude. Como em qualquer rede criminosa, a vertente financeira tem sempre a sua relevância.
Mas o que também torna tudo isto macabro é a cumplicidade. De homens mas também de mulheres, como Ghislane Maxwell. Cumplicidade de quem contribuiu para que o negócio tivesse prosperado e silêncio de quem sabia e nada fazia. Nestes casos, cada palavra por dizer configura um crime e uma violação das regras morais que deviam imperar em qualquer sociedade. No nosso ordenamento jurídico, a cumplicidade pode ser punível criminalmente. A omissão de auxílio, em casos mais graves, também encontra previsão no Código Penal. Existem, portanto, mecanismos jurídicos para travar e punir estas situações, mas é necessário serem usados.
Ao longo da História, em várias regiões do globo, temos casos de escândalos sexuais. E quase sempre ligados a pessoas de poder ou influência, ou então com dinheiro que lhes permitisse pagar pelos “serviços” das redes de prostituição. O caso Epstein pode ser mais escabroso do que todos os outros conhecidos até hoje, mas a História está, infelizmente, recheada de teias, redes mafiosas, negócios de exploração sexual, na esmagadora maioria dos casos, de mulheres, preferencialmente jovens.
O “sucesso” destes crimes está, habitualmente, relacionado com os impulsos sexuais. Contudo, tem raiz numa cultura de desculpabilização ou mesmo de normalização destes atos. A discriminação das mulheres, baseada numa ideologia machista, misógina, tem aumentado, o que é comprovado pelo aumento, nos últimos anos, de crimes de género (ou, na larga maioria, praticado contra mulheres), como violência doméstica, violação ou abuso sexual de crianças ou jovens. A cibercriminalidade, onde a pornografia, a IA e as deep fakes reinam, é uma nova realidade para a qual muitos de nós não estamos preparados nem mentalizados. O discurso de ódio contra as mulheres, que resulta em mais violência, física ou verbal, assume contornos especialmente preocupantes. Nunca foi tão importante e necessário prevenir, com o sistema educativo a ter de assumir um papel central e crucial neste combate que urge reforçar. A violência no namoro tem aumentado, o que também ilustra a fragilidade e a vulnerabilidade dos nossos jovens nesta matéria, sendo urgente o sistema educar para os valores do respeito, da tolerância, da igualdade. E da decência, um valor cada vez mais raro nos dias que correm.
Sempre haverá abusadores, predadores sexuais, mas compete a todos nós, enquanto cidadãos que desejam uma sociedade justa e pacífica, lutar para que casos como estes não voltem a suceder. É preciso denunciar e falar. Cada silêncio será conivente, cada vítima traumatizada será também culpa nossa. E ajudar é igualmente um dever nosso. Não basta denunciar, é necessário dar a mão a quem tanto perdeu.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.