Quem queira fazer a história dos elevadores de Lisboa tem obrigatoriamente de seguir as pegadas da vida de Raul Mesnier de Ponsard. Foi este engenheiro mecânico quem concebeu e pôs a funcionar, um após o outro, os nove elevadores que a capital chegou a ter na viragem do século XIX para o XX. Raul Mesnier, como ficou conhecido, alcunhou-os de “caranguejolas”, embora se tivessem tornado ícones mecânicos, e por excelência lisboetas, que deixaram apenas para memória futura as descrições exauridas, em romances de Eça de Queirós, por exemplo, das íngremes ladeiras que os habitantes da capital eram obrigados a galgar, e que recolheram elogios de dois afamados médicos da época, Tomás de Carvalho e Arantes Pedroso, que apelidaram os elevadores de “velhos amigos dos cardíacos”. Mas, como adiante se verá, nada foi fácil para Raul Mesnier, na concretização das “caranguejolas” que concebeu: teve de puxar ao máximo pela sua capacidade de resiliência, e por uma paciência que se diria de santo, para superar as sucessivas adversidades com que se confrontou.
Importa agora corrigir um possível erro suscitado pelo nome estrangeirado do engenheiro mecânico de quem se fala. Raul Mesnier nasceu no Porto, em abril de 1849 (era português, portanto), filho de Jacques Robert Mesnier e de Marie Élodie Ronson, casal rico francês, com parentescos vários na aristocracia parisiense, que emigrou para o nosso país por motivos políticos. O pai Mesnier era um engenheiro habilitado (chegou a dirigir o gasómetro de Braga), mas investiu grande parte da sua fortuna em atividades agrícolas no Norte do País, onde também criou algumas indústrias. Já Marie Élodie, de etiqueta distinta e culta, atraiu para a sua convivência escritores como Camilo Castelo Branco e Ramalho Ortigão.

Projetista: Raul Mesnier
Inauguração: 24 de outubro de 1885
Percurso: Liga a Baixa (Praça dos Restauradores) ao Bairro Alto (Jardim de São Pedro de Alcântara), num trajeto de 275m, com um desnível superior a 17%. Está classificado como Monumento Nacional desde 1997
Proprietário: Foi construído pela Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, cujos ativos seriam absorvidos pela Carris nos anos 1920
*Encontra-se encerrado desde o trágico acidente do passado dia 3. Foi anunciada a constituição de uma “equipa de missão para conceção de um novo sistema tecnológico do futuro Ascensor da Glória”