Numa entrevista num gabinete espartano do Camp des Loges, quando se soube que iria reentrar pela porta grande no Estádio da Luz, Artur Jorge confidenciou-me que não gostava de ser fotografado do lado direito – uma metáfora para as duas faces do seu legado, um belo FC Porto e um monstruoso Benfica.
Os franceses coroaram-no como Le Roi Artur quando conduziu o PSG ao segundo título nacional, mas por essa altura o portuense já reinava a nível continental, tricampeão nacional e campeão europeu, graças à magia da sua Excalibur, a espada de Madjer, cuja obra reluz na fantástica galeria de arte que colecionou, com tanto idealismo fora das quatro linhas como pragmatismo dentro delas.
“Fizemos coisas bonitas”, dizia para justificar uma filosofia de fusão entre a criatividade romântica da escola coimbrã e a paixão intransigente dos grandes clubes, como o Benfica dos anos 70 e o FC Porto pós-Pedroto.
Cinquenta anos antes dos treinadores com habilitações, já ele optara pelo mais completo processo formativo, sem queimar etapas entre a carreira de avançado-centro – mais de 200 golos e o inconfundível “pontapé de moinho” – e a de primeiro treinador português com projeção internacional.
Após ter sido trabalhador-estudante universitário em Coimbra e com as lesões a apressarem-lhe o fim da carreira, escolheu aprofundar os estudos numa das mais avançadas escolas de Desporto, na antiga RDA, de onde regressou com bagagem científica sem paralelo. As crónicas de Leipzig, no jornal A Bola, um primeiro exercício de opinião “fora do campo” na imprensa desportiva, encorajado pela Revolução e pelo advento do sindicalismo, de que foi percursor, revelaram uma dimensão diferenciada num meio dominado pelo empirismo.
Apadrinhado por José Maria Pedroto, realizou uma primeira década de sonho no FC Porto, desbravando o caminho internacional em Paris e chegando a duas cadeiras em que não concretizou os sonhos, no Benfica e na Seleção Nacional, antes de encetar um percurso errático de globetrotter, da Suíça à Arábia Saudita, da Holanda aos Camarões, sempre à boleia do seu magnífico legado bom.
João Querido Manha
Ex-jornalista
