Faz hoje nove dias que o avô de Susana Fernandes foi internado, com uma pneumonia bilateral, no hospital de Vila Franca de Xira. Até anteontem, não mais soube da evolução do seu estado de saúde. Até anteontem, porque, coincidentemente – estamos a ser irónicos, claro – decidiu publicar um post na rede social Twitter, queixando-se disso mesmo. “O meu avô foi internado no HVFX em estado crítico, há 6 dias. Há 4 que não nos informam sobre o estado clínico. Já preenchemos livro de reclamações, falámos com a polícia no local. Hoje mandaram-me aguardar 2h e agora dizem-me para voltar amanhã. Quando ele morrer, avisam?”
O tweet caiu que nem uma bomba no seio dos 10 mil seguidores desta copy writer. E fez eco em outros casos. “Acordei com dezenas de mensagens e vou demorar a responder”, avisou na mesma plataforma. Entretanto, uma médica que lera o desabafo, mesmo sem trabalhar nesta instituição que até 2021 foi uma Parceria Público Privada, conseguiu chegar à ficha do doente de 89 anos e informar Simplício Fernandes, o filho, do que se passava.
Desde há uma semana, Simplício vai todos os dias ver o pai. Entra às seis e meia e sai às sete da tarde – é esta a janela de tempo em que o deixam lá ir – sem ver um único médico, sem que lhe digam o que se passa. “No serviço de observação em que está o meu pai, existem duas a três enfermeiras para 30 doentes, mas não podem informar-nos de nada que tenha a ver com a evolução do estado de saúde dos internados”, conta. “Está o caos. Dizem-me que ali não há médicos, que se precisam de algum têm de ir chamá-los às urgências”, acrescenta.
Quando saem da visita, os familiares juntam-se ao pé do gabinete do utente, onde podem preencher o livro amarelo com queixas e é o que tem sido feito, apesar de o hospital garantir que o número de reclamações por escrito diminuiu de 2020 para 2021. Além disso, os visitantes pedem à funcionária que está a servir de para-raios à insatisfação generalizada que preencha um pedido para que o médico contacte a família. Não costuma acontecer. Até anteontem, quando o Simplício recebeu a tal chamada (de 20 minutos) de uma médica, dando conta de todo o historial clínico do pai e ficou a saber que o prognóstico continua reservado, mas que está a registar melhorias. “Se o fizessem todos os dias, não era preciso perderem tanto tempo com isto.”
Mas se de facto não existirem médicos suficientes, esta tarefa de informar os familiares passa, compreensivelmente, para segundo plano.
Amália Oliveira até entende essa insuficiência de pessoal, mas nem por isso deixa de sofrer com a falta de informações clínicas em relação ao internamento do seu pai, que entrou no hospital na 6ª feira passada, dia 6, com diagnóstico de insuficiência cardíaca. A filha, a mãe e a irmã já conhecem bem o funcionamento da instituição, pois é a terceira vez, em dois meses, que o senhor lá fica. Só no primeiro internamento, por culpa de um AVC, é que a coisa correu lindamente.
“A minha mãe esteve do meio-dia às seis da tarde para saber dele, no dia em que o levaram na ambulância. Disseram-lhe que a médica estava sozinha nas urgências e que não pode ir dar-lhe notícias”, conta, indignada. Todos dias, Amália pede o boletim clínico, ligando para o número geral do hospital, mas já passou uma semana e continua sem saber o que, na realidade, se passa com a saúde do pai. Também tem havido imensa confusão com as visitas, que já mudaram três vezes de regime desde então – o agravamento dos casos covid podem estar na origem disso.
“Hoje telefonaram-me de manhã, mas como sou professora, estava a dar aulas e não consegui atender. Quando liguei de volta, já não me puderam dar informações”, desabafa.
“Constrangimentos” de pessoal
A VISÃO confrontou a administração do hospital de Vila Franca de Xira com os relatos referentes aos últimos dias e, em comunicado escrito, assumiu os “constrangimentos” de pessoal, motivado, em parte, pelo facto de, antes da mudança para a tutela do Estado, a direção do serviço de urgência se ter demitido em bloco.
Desde essa data, em junho do ano passado, que o atual conselho de administração tem estado a trabalhar com o ministério da Saúde “para reforçar o quadro de recursos humanos, com a atribuição de vagas para especialistas que têm sido preenchidas à medida que existem profissionais, e a desenvolver um processo de reestruturação do próprio serviço de urgência”.
No entanto, garantem no comunicado, “as escalas têm sido asseguradas, quer com recurso a profissionais dos quadros da instituição, quer, e como em todo o SNS, com recurso a prestadores de serviço. Importa referir que a afluência de utentes ao serviço de urgência está muito acima do que aconteceu nos anos de 2020 e 2021, o que se reflete em alguns períodos em mais demora no atendimento.”
Quanto às informações prestadas a familiares de doentes em serviço de observação, a questão levantada pela família Gonçalves e por Amália Oliveira, a administração afirma que “está também a ser implementado um novo sistema, no âmbito do processo de remodelação/restruturação do serviço de urgência. Este sistema de informação tem sofrido oscilações muito devido à circunstância de, consoante a evolução pandémica, as visitas serem ou não permitidas aos doentes internados ou em observação.”
Palavras que em pouco sossegam os familiares dos doentes que ficam internados no hospital de Vila Franca de Xira.
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