Senhor Juiz, o que fazer com estas mulheres que já não querem hussardos? Do sopé, veem desmontar de cavalos com lanças os homens de ontem e fecham-lhes as pernas. O que fazer com estas mulheres que, no vértice do desespero, fazem dos maridos arguidos e dos amantes condenados. Os gregos percebiam do assunto. Antes de arrancarem um dente, embebedavam o paciente e golpeavam-no numa perna para ampliarem as origens da dor. Toda a dor é entendida remotamente pelo cérebro. Toda a dor é entendida remotamente. O exercício de dupla agressão tornava a dor mais difusa. A dor cura-se com dor em termos clínicos e matrimoniais, também em termos matrimoniais. O que fazer com estas mulheres que eram helénicas e que agora são queixinhas?
O meu pai era serralheiro civil e chegava a casa com a farda do trabalho imunda. Um macacão azul manchado de sujidade e a cheirar a oficina, fuligem, fagulhas do ferro em brasa. A minha mãe lavava as fardas do meu pai em casa, rodavam dentro da máquina de lavar com estrondo sincopado e, findo o programa de lavagem, ela extraía do interior do tambor, à força de braços, o pesado tecido encharcado (a centrifugação estava sempre com problemas, a roupa nunca enxaguava convenientemente). O corpo resistia, a minha mãe puxava, as borrachas sobressaíam esmagadas do interior, afloravam como as margens de uma vulva esmagada pelo nascimento; a minha mãe puxava e as fardas do meu pai encharcadas nasciam de dentro do tambor, vencidas por aqueles braços de parteira. Não eram fáceis estes partos. A minha mãe era parteira depois de oito horas no escritório, duas horas em transportes públicos, três horas a tratar das filhas e da casa, e antes de ir completar o décimo segundo ano no liceu à noite. Já cá fora, as fardas do meu pai seguiam para o estendal e as cordas, ao sol, e exibiam a curvatura do peso de uma gravidez prolongada. Era assim o casamento dos meus pais: um parto difícil, seguido de uma gravidez prolongada.
Senhor Juiz, o que fazer com estas mulheres que deixaram de cerzir meias? Pior: que já não sabem cerzir meias. O que fazer com as mulheres que não tiram as espinhas do peixe que servem ao marido? Fazem dois vincos nas mangas das camisas sem qualquer pudor e ainda se riem. O que fazer com estas mulheres que não seguem vincos paralelos, apenas se intercetando com a dor, que fecham os punhos com os quais antes cobriam a cabeça e o rosto, que eram apedrejadas na Bíblia e que agora são pedras no sapato?
A minha avó ficou viúva muito nova, não tinha certamente 30, passaria pouco dos 20. O marido deixou-a grávida de filhos e de dívidas. Ela também era parteira, extraía pedras às pedras nas minas de volfrâmio de São Pedro do Sul. Não é por acaso que chamam jazigos à concentração natural daquele minério. A minha avó morreu e foi sepultada vezes sem conta dentro da terra; entre paredes húmidas, na escuridão labiríntica da mina, uma viúva muito nova era uma grande travessa da qual todos se poderiam servir. A minha avó nunca foi violada porque não conhecia a palavra violação. Conhecia a roupa que estava a uso e a roupa que era guardada em gavetas com cânfora, para um dia de sol que raramente chegava, e ela era roupa de uso corrente. Passou a vestir preto, exclusivamente preto. É o conselho que se dá aos habitantes de cidades ocupadas: vistam-se de escuro para evitar a mira dos snipers. O luto que os outros esperavam que ela fizesse pelo marido morto era a sua camuflagem de todos os dias. Anoiteceu-se para ser confundida com as reentrâncias de sombra da pedra, passar ao largo do apetite dos homens, como tantas que, mais cedo ou mais tarde, desejaram ser paredes. Até Marilyn Monroe, que disse ao mundo que os diamantes são os melhores amigos das mulheres, desejou um dia não ser mais do que estuque.
Aprendi a evitar tomar duche depois das aulas de Educação Física, porque o professor Rúben entrava ocasional-mente no balneário para ir ao cacifo das bolas de ténis
Senhor Juiz, o que fazer com estas mulheres que usam batom vermelho, que não se mostram embevecidas com a cantiga do catedrático, que jogam à corda com a reputação dos académicos, que não sobem a saia para subir a nota, que não aceitam o convite, que não tomam o café e, se o tomam, não adoçam a conversa, que não são frágeis porque mais novas e apontam o anelar e dizem: você tem aliança, é casado. E o tipo olha para a mão como se testemunhasse o fim do mundo. E comentam: eu percebo-o, vive um sonho missionário e burguês que odeia e adora ao mesmo tempo, um dia será apanhado por uma onda gigante muito maior do que você. Mas, lamento, não serei eu a sua onda. O que fazer com elas, senhor Juiz?
A pré-puberdade são anos de grandes aprendizagens para as meninas. Alguns conceitos são duradoiros e servem-nos até à idade adulta. Aprendi a baixar o olhar quando ouvia piropos e a andar mais rápido, com a mochila a sacolejar nas costas. Aprendi a evitar tomar duche depois das aulas de Educação Física, porque o professor Rúben entrava ocasionalmente no balneário para ir ao cacifo das bolas de ténis. Aprendi a evitar os aglomerados de rapazes na fila do bar, porque as mãos deles resvalavam sempre para o meu rabo. Aprendi que não vale a pena castigar um, como exemplo, com um pontapé nos tomates. Somos chamadas ao Conselho Diretivo e apanhamos um dia de suspensão. O melhor será partilhar uma folha de teste com cálculos errados e aguardar, pacientemente, que chumbem o ano. Quase sempre acontece.
O que fazer com estas mulheres, senhor Juiz, que ouviram em tribunal que o agressor tinha atenuantes, que era culpado, mas sairia sob caução, que não constituía uma ameaça permanente, apenas ocasional? O que fazer com os nomes e as ações: Ana Cristina, morta pelo marido com um tijolo; Teresa Paula Oliveira, morta a tiro; Carla Sofia, estrangulada; Maria do Carmo, assassinada em frente ao filho de 12 anos; Catarina Gonçalves, esfaqueada; Maria Fernanda Vilela, morta a tiro; Beatriz Cadinha, asfixiada por chamar insistentemente o marido para jantar, com a sua voz irritante. O que fazer com elas? Talvez a pergunta seja outra, talvez a pergunta a fazer seja: o que fazer por estas mulheres, senhor Juiz?
Filipa Martins
38 anos
Jornalista, argumentista e escritora, venceu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores, com o seu primeiro romance, Elogio do Passeio Público, que saiu em 2008. Ganhou ainda o Prémio Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias com o conto Esteira. Depois, publicou os romances Quanta Terra, Mustang Branco e Na Memória dos Rouxinóis. Na Rádio Renascença, manteve, com o editor Rui Couceiro, um programa sobre livros. Foi ainda coautora de Três Mulheres, a série da RTP sobre Natália Correia, Snu Abecassis e Vera Lagoa. Tem em mãos uma biografia sobre a primeira, a ser lançada por alturas do centenário do nascimento da poetisa, deputada e polemista.
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A Nova Carta Portuguesa de Alice Neto de Sousa – “Contração”
A Nova Carta Portuguesa de Capicua – “Liberdade”
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