Percorrido já mais de meio País, Rui Rio chegou a Évora, esta segunda-feira, fazendo jus ao candidato que maiores arruadas tem tido consigo desde o início da campanha.
Na capital alentejana não foi diferente; e para quem esteve na passagem do PS pelo território eborense, há três dias, facilmente percebeu que, quer tenha sido pela máquina oleada, por o comércio estar em plena hora de funcionamento, e ainda por muitos universitários aproveitarem o sol da tarde para reunirem na Praça do Giraldo, os sociais-democratas levaram a melhor sobre os socialistas. Ou como o líder do PSD admitiu, depois de mais uma atuação do cantor popular Emanuel nesta caravana: “Podia dizer que demos em cima do PS; pimba, pimba e pimba”.
A verdade é que o líder laranja chegou a Évora a afirmar-se indignado com António Costa, por o socialista estar “a baixar o nível” na troca de argumentos nesta campanha; e ainda por cima ter tocado no nome de Zé Albino, o gato de Rio.
Num círculo onde se digladiam dois pesos pesados da política da lavoura, com o PSD a opor o antigo ministro da Agricultura, Arlindo Cunha, a um outro titular mais recente da pasta, o socialista Capoulas Santos, o presidente social-democrata admitiu que acredita que voltará a ter um eleito em Évora – onde o PSD ficou a 1043 votos da CDU, que conseguiu reeleger o líder parlamentar João Oliveira.
Mais: além de insistir que a primeira alteração que fará se for primeiro-ministro é voltar a colocar a floresta na alçada da Agricultura e tirá-la do Ambiente, porque crê que o peso económico do setor assim o justifica, Rio apontou que não pode descartar os votos do Chega, se o seu eventual Governo precisar do peso parlamentar do partido de André Ventura, e que não vai demorar tempo a constituir um elenco ministerial.
Do que as pessoas gostam em Rio? “A verdade, a conversa, a inocência”
Com um ligeiro atraso – e quando já corriam na planície alentejana os resultados da sondagem a ser conhecida dali a poucas horas, que metem o PSD à frente do PS pela primeira vez desde há muito – Rio arrancou para a arruada no local onde Costa terminou a sua na sexta-feira; e, enquanto o socialista optou por subir em direção ao casco velho da cidade, o social-democrata fez o percurso inverso, indo ao encontro do cantor que etiquetou de “Pimba” a música ligeira portuguesa, na década de 1990.

Ladeado pela cabeça de lista por Évora, Sónia Ramos, e, uns metros à frente depois, pela bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, Rio foi distribuindo umas viçosas gerberas laranjas apenas por mulheres – ainda pensou oferecer a dois cidadãos brasileiros, que lhe desejaram boa sorte, mas depois desistiu por achar que não ficaria bem na foto. E que palavras recebia em troca? “Continue verdadeiro. Gosto muito das suas conversas; não lhe responda [a Costa]”, gritou uma das transeuntes, que não integrava a caravana, onde se destacava, entre outros, Alexandre Poço, líder da JSD. “O senhor é verdadeiro. Vou votar em si pela primeira vez. É disso que nós queremos: uma pessoa inocente, sem mentiras”, atirou outra, de uma janela.
O território não é agreste ao crescimento laranja, e sinal disso foram umas quantas bandeiras que surgiam nas janelas – algumas demasiado gastas para se poder aventar que a máquina da caravana tivesse andado a distribuí-las por gente que ainda por cima quisesse aparecer na foto a com elas.
Na Praça do Giraldo, foi inevitável não estabelecer um grau de comparação com o que aconteceu a Costa: se o socialista fez um esforço para arrancar duas palavras de uma estudante universitária, esta segunda-feira Rio teve jovens a quererem fazer consigo stories para o Instagram. “Tomem lá, uma flor para cada uma. Assim. E, assim, que já ninguém se pega à bulha. O quê, quer fazer uma história comigo?”, reagiu surpreendido Rio em relação ao pedido das raparigas, a quem recomendou que “têm é de deixar de fumar”.
“Isto está mesmo a correr bem”, disse um dirigente, que parece não ter sido ouvido pelo destinatário da mensagem, Pedro Roque, o deputado do PSD que já foi eleito por quatro círculos eleitorais até hoje – Setúbal, Faro, Lisboa e Leiria – e que foi dar ali uma mão à arruada.
Piada com Zé Albino entornou caldo
Rio que já vinha de Portalegre, círculo onde também quer eleger um deputado, parou a meio do desfile eborense para frisar que “através dos animais de estimação [cujas imagens vários líderes partidários estão a partilhar nas suas redes sociais] estamos a passar mensagens”. E onde quis chegar o líder do PSD? “António Costa tem vindo a deturpar o que eu digo. Se ele está na brincadeira e eu também, assim está bem. Mas não está de brincadeira quando referiu hoje que eu estava refém da extrema-direita. E eu nunca disse isso – disse exatamente o contrário. Ele perdeu uma oportunidade de estar calado”, salientou, admitindo não se lembrar que havia colocado um tuite a criticar o opositor: “’Amh’, há pouco pus um tweet? Ah sim”.
“As declarações dele não são muito elegantes sobre o gato [Zé Albino]. Eu não baixei o nível, quem baixou o nível foi o PS. Não se baixa o nível com a resposta que ele dá sobre o Zé Albino”, disse, em relação ao comentário de Costa, que ironizou que o bichano de Rui Rio está deprimido por o dono andar fora de casa, mas que está “confiante que com uma vitória do PS no próximo domingo o Zé Albino vai sentir-se menos só e o doutor Rui Rio vai ter mais tempo para estar em casa”.
Resposta de Rio: “o doutor António Costa o que se esquece é que o Zé Albino pode vir para Lisboa”. Ou seja, o gatinho pode rumar do Porto à capital para vir a tornar-se, em São Bento, uma versão de Larry, o gato da Downing Street 10, residência oficial do primeiro-ministro britânico.
Deputados do Chega “não são de 2ª categoria“
O líder do PSD sentiu ainda necessidade de assegurar que, se vier a vencer mas com uma maioria relativa e precisar de apoios de incidência parlamentar, não fecha a porta a quem o quiser ajudar a chegar a São Bento.
“Não sei se António Costa acha que há deputados de primeira e deputados de segunda. E que os deputados de segunda não podem votar e sair da sala. Como penso que não acha isso, tem faltado à verdade”, criticou, admitindo que se sente confortável com os votos de eventuais deputados do Chega. “Qual é a alternativa? Isto é uma verdade de La Palice ou de aritmética simples: se vamos eleger 230 deputados e se houver deputados que querem votar no meu Governo ou no meu orçamento, não vou mandar interromper os trabalhos para tirar os deputados da sala para não votarem”.
Já outra coisa é um Executivo com André Ventura sentado num ministério: “A partir do momento que o Chega diz que só há entendimento se o Chega participar no Governo – e para nós, isso não é possível -, está para lá da linha vermelha. Não há problema nenhum. Está resolvido”, insistiu
Dois dias para arrumar; e ao terceiro dia arregaça as mangas
Numa esplanada, onde iria beber um café e depois uma água, e em que acabou por não tomar nada, Rio confessou-se esperançado num bom resultado no domingo que vem: “lá para quarta-feira, vou começar a pensar na estrutura do Governo. Agora, segunda e terça já tenho tanta coisa para arrumar [lá em casa]. [Mas] Já preparei a estrutura [do Executivo] para aí a 90%. Mas ainda falta [os restantes]”, elucidou, já depois de ter dito que não irá ser uma versão de Marcelo Rebelo de Sousa em São Bento. Os afetos não são para si.
“Primeiro-ministro dos afetos, não. [Mas] das contas certas, do rigor, do desenvolvimento, da justiça social. Mas a emotividade também faz falta”, confessou, tendo rumado a um miniconcerto de Emanuel – que já animou a campanha em Aveiro -, onde de não deixou de ser elogiado pelo cantor do “Pimba, Pimba”, enquanto batia o pezinho.








