Se perguntadas sobre o 28 de Maio, as pessoas de hoje respondem sobretudo três coisas: Salazar, fim da República e substituição do caos pela ordem. Há uma espessa camada de tinta, a maior parte dela disposta pelo Estado Novo, que tornou opacos os acontecimentos dos anos 1920, e que só a leitura das fontes desta época permite na sua maioria decapar. Antecipando um pouco o exercício, deixemos aqui algumas pistas para ajudar a orientar o leitor.
Em primeiro lugar, não só Salazar ainda vem bastante longe, como não deixa de ser surpreendente, mesmo depois da leitura das fontes, o facto de ele aparecer tão pouco. Em segundo, talvez tenha sido mais evidente para as pessoas de antes de 28 de maio que a República estava em risco do que para as de depois de 28 de maio que a República já estava perdida. A ideia de que o seu fim foi o 28 de Maio, e que a partir dali já não havia volta, é um artefacto que a nossa memória construída ali introduziu. O que se terá passado na cabeça e na vontade das pessoas é uma coisa mais complicada, que tentaremos reconstruir. Em terceiro lugar, e mais diretamente: não houve substituição do caos pela ordem; quando muito, apenas houve substituição do caos civil pelo caos militar. Mas como caos é caos, ambos vão continuar misturados por algum tempo.

