Uma mulher residente em Newcastle, Inglaterra, teve 17 filhos nos últimos 30 anos. Todos tiveram o mesmo fim: foram retirados pela autoridade local para serem institucionalizados – muitos deles poucas horas depois de terem nascido. O caso desta mulher cuja identidade não foi revelada foi dado como exemplo durante o lançamento de um projeto na cidade, o “Pause”, que pretende reduzir o número de crianças que são institucionalizadas, seguindo depois para famílias de acolhimento ou adoção, e também ajudar as mulheres que entram nesse círculo vicioso.
As razões porque perdeu todos os filhos não ficaram claras. Disse-se apenas que as “vidas absolutamente caóticas” de algumas mulheres tornam difícil que sejam ajudadas. E que muitas são vítimas de violência doméstica em casa, profissionais do sexo, consomem drogas ou álcool ou têm doenças mentais.
Durante o lançamento do projeto, Sian Bufton, diretor do serviço de crianças da Barnardo’s, uma das maiores instituições de caridade britânicas, disse em declarações citadas pelo The Guardian: “São mulheres que têm experienciado muitas perdas, muitos traumas e muitas dificuldades nas suas vidas e precisam de ajuda para viver uma vida diferente”.
Uma das mulheres que pediu ajuda à Newcastle Women’s Aid, que fornece ajuda a mulheres vítimas de violência doméstica, contou que se sentiu julgada pelos serviços sociais: “Disseram-me que estava demasiado chateada para cuidar do meu filho mas, é claro, eu estava chateada porque me iam retirá-lo.”
O caso da mãe que perdeu 17 filhos para os cuidados do Estado é uma exceção. Mas há outros números que, embora menores, também são surpreendentes: uma mãe em Gateshead perdeu repetidamente dez filhos; em Cumbria, Sunderland e Durham houve mães que perderam nove. E segundo o The Guardian, uma pesquisa pelos registos dos tribunais de família mostram que, só em 2013, 2018 crianças foram institucionalizadas à nascença ou pouco depois, contra apenas 802 casos em 2008.
Elaine Langshaw, diretora do Newcastle Women’s Aid, que tem ajudado mulheres vítimas de abusos nos últimos 40 anos, afirmou ser “muito triste e trágico que uma mulher tenha visto 17 filhos serem-lhe retirados”: “Não conhecemos as circunstâncias; existirão provavelmente muitas razões adicionais.”
Outro estudo sobre mães vulneráveis e institucionalizações recorrentes, levado a cabo pela Nuffield Foundation, concluiu que entre 2007 e 2014 um total de 13,248 bebés foram retirados às famílias pelas autoridades locais.
O projeto “Pause” quer ajudar mulheres que tenham perdido entre quatro a dez filhos. Será estendido a seis outras áreas – Doncaster, Greenwich, Islington, Newham e Southwark – depois de ser lançado em Newcastle em setembro.
Em maio, a VISÃO publicou uma reportagem com casos semelhantes ocorridos com pais portugueses residentes em Inglaterra. Ao todo, adiantou a VISÃO nessa data, houve 170 casos de crianças retiradas a pais portugueses pelos serviços sociais britânicos, só no perímetro de Londres, e desde 2010.
O Reino Unido tem uma das leis mais duras da Europa na área da proteção de menores. As crianças podem ser retiradas à família sem que tenham sido vítimas de qualquer abuso ou negligência – apenas por receio de que venham a sofrer algum dano futuro; e em poucas semanas estas mesmas crianças institucionalizadas podem ser enviadas para adoção, sem o consentimento dos pais.