As fotografias partilhadas nos grupos de fãs de Putin mostram o Presidente a cumprimentar tropas e a montar vários animais selvagens, desde ursos a leões. A imagem de Putin enquanto figura do poder é uma das mais vendidas pelo Kremlin, mas os seus fãs têm utilizado a plataforma Facebook para partilharem uma outra versão do Presidente russo que surge nas fotografias a brincar com animais e a posar rodeado de jovens sorridentes.
A BBC fez, em colaboração com o Instituto de Diálogo Estratégico (IDE), “uma organização independente, sem fins lucrativos, dedicada a salvaguardar os direitos humanos e a reverter a crescente onda de polarização, extremismo e desinformação em todo o mundo”, segundo o seu site oficial, uma investigação a dez grupos públicos pró-Putin no Facebook. As descobertas apontaram para a existência de mais de 650 mil membros nos grupos analisados, cujas publicações se mantêm regulares. Apenas no último mês foram identificadas mais de 16 mil publicações e 3 milhões de interações.
Desde o começo da guerra na Ucrânia, a 24 de fevereiro, e segundo a investigação, mais de 100 mil novos membros aderiram. A finalidade das várias contas parece convergir para um mesmo objetivo: apoiar Putin e as suas decisões e criar, nesse sentido, uma narrativa idealista do Presidente russo. Mas quem são, afinal, as caras por trás das mensagens de apoio, das fotos do líder russo e das publicações a defender as suas ações e o amor à pátria?
Na sua investigação, a BBC concluiu que a maioria dos administradores dos grupos tinha segundas contas com o mesmo nome. As várias contas mantêm contacto regular umas com as outras seja por se seguirem mutuamente ou por interagirem nas publicações com demonstrações de apoio que vão desde textos a imagens de corações. Entre as ondas de likes e comentários foram ainda identificadas contas falsas da Federação Russa e dos serviços de segurança russos.
O contacto entre as diferentes contas – que muitas vezes pertencem a um mesmo utilizador – dá a impressão de um apoio amplo às páginas, uma prática conhecida por “astrotrufing”, como explica à BBC o investigador chefe Moustafa Ayad. A campanha “cria a aparência de amplo apoio a Putin e ao Kremlin à sombra da invasão e depende de (…) contas inautênticas para atingir o seu objetivo”, esclarece o relatório do ISD, citado pelo mesmo orgão de comunicação.
Um exemplo dado para ilustrar a técnica de “astrotrufing” é o de Marine, uma administradora que se encontra alegadamente na Síria e que gere três contas distintas de apoio ao presidente responsáveis por publicar todos os dias no mesmo horário. Victoria também gere um destes grupos e desde 4 de fevereiro que vê as suas publicações serem alvo de mais de 34 mil interações e 4 mil partilhas. Marine e Victoria administram em conjunto uma página no Facebook.
Este tipo de interação entre diferentes contas leva a que o Facebook, assim como outras redes sociais, nem sempre sejam uma forma segura de perceber o quão popular é ou não é, por exemplo, uma dada figura pública, nomeadamente por não serem uma representação exata da realidade e por estarem sujeitas a falsificações e algoritmos.
Numa tentativa de contactar um dos membros destes grupos, a BBC conversou com um homem do Quénia, Raj, que, numa breve conversa, terá apelidado Putin de “grande líder”, negando-se, no entanto, a discutir a guerra. O órgão de comunicação conseguiu ainda falar com Hasmik, um jornalista localizado na Arménia responsável por administrar seis grupos pró-Putin. Hasmik disse ter sido convidado para fazer parte da comunidade por pessoas que já pertenciam aos grupos e que não era pago pela sua contribuição.
A BBC admitiu ainda não ser possível ligar nenhum dos grupos diretamente ao governo russo. As contas, no entanto, não escondem as suas posições políticas marcadamente pró-Putin. O órgão de comunicação salienta, no entanto, que podem, mesmo assim existir, ainda que não de forma evidente, algum tipo de ligação entre estas páginas e as autoridades russas, embora o refira apenas como uma possibilidade.
O papel das redes sociais
O Facebook, que diz ter políticas contra contas falsas, já admitiu ter suspendido várias contas com base em informações do relatório apresentado e outras investigações. “Continuamos a tomar medidas fortes para impedir a disseminação de informações erradas relacionadas à crise na Ucrânia”, disse um porta-voz da Meta.
Num grupo pró-Putin do Facebook, não investigado pela BBC, é possível ler, a propósito da guerra na Ucrânia: “Apelo aos verdadeiros russos que realmente amam a sua pátria! Putin remove a Rússia da influência da América e da Europa. E mesmo da influência dos oligarcas. O processo está em andamento. Isso não combina com o Ocidente. Isso não combina com algumas pessoas no nosso país. Putin tem muitos inimigos. Um golpe de estado está a ser preparado. A derrubada de Putin está a ser preparada. A América não poupa despesas para isso, e há pessoas no país que estão prontas a fazê-lo. Agora está a ser conduzida uma guerra de informação contra a Rússia e contra Putin. Parte desta guerra é uma tentativa deliberada de criar uma atitude negativa entre os russos sobre o que está a acontecer no país”
O mesmo membro do grupo publicou, dias mais tarde, o seguinte anunciado: “Recebemos periodicamente comentários da redação do Facebook sobre publicações que violam as regras e exigências desta rede social. Em relação a esta administração, o nosso grupo decidiu publicar apenas fotos do presidente da Rússia. Outros materiais serão rejeitados por nós, porque podem conter informações que contradizem os padrões do Facebook. Esta é a situação atual… E para não fechar o grupo, temos que recorrer a restrições temporárias”.
A BBC analisou ainda um conjunto vasto de contas que se fazem passar pelo Presidente russo, publicando informações falsas sobre as vacinas contra a Covid-19 e outros tópicos e contando, algumas delas, com mais de 3 milhões de seguidores. Putin é atualmente dos poucos presidentes que não tem qualquer tipo de conta oficial nas redes sociais, uma decisão que o seu porta-voz já terá, inclusive, abordado publicamente.
Ainda assim, e segundo o órgão de comunicação, muitos dos comentários levam a crer que os seguidores da página acreditam que aquelas se tratam, de facto, das palavras do Presidente. Algumas das publicações abordavam a atual guerra descrevendo-a como uma “operação” para “manter a paz”. Os administradores das páginas não são conhecidos.
Apesar de não serem uma representação exata das tendências pró-Putin, as páginas de fãs “podem ajudar a construir apoio público em países estrangeiros para a chamada ‘operação militar na Ucrânia’ da Rússia”, alerta à BBC Nika Aleksejeva, investigadora do Digital Forensic Research Lab (DFRLab), parte da organização Atlantic Council, focada no estudo das relações internacionais, reforçando ainda a necessidade de estas contas serem “sejam derrubadas pelas principais plataformas de media social”.
Outras redes sociais como o Instagram também têm sido utilizadas enquanto veículos de apoio ao Kremlin com algumas das contas a ultrapassarem os 11 mil seguidores.