Percebia-se há vários dias que, apesar de decorrerem negociações em Genebra sobre o futuro do programa nuclear iraniano, Donald Trump estava a preparar-se para voltar a ordenar um ataque ao Irão. A deslocação de uma imensa força naval para a região, com dois porta-aviões e vários contratorpedeiros, além de um reforço de dezenas de caças e outras aeronaves para as bases americanas na Jordânia, Israel e Arábia Saudita, indiciava que os EUA desenvolviam planos para algo mais do que um simples bombardeamento, como aconteceu em junho, com a operação Midnight Hammer (Martelo da Meia-Noite).
Desta vez, é diferente, como está à vista desde as primeiras horas da operação Epic Fury (Fúria Épica): o ataque voltou a ser concertado com Israel, visa uma grande quantidade de alvos militares iranianos, mas também algo que constitui uma mudança de estratégia na doutrina até aqui apregoada por Donald Trump: o derrube do regime iraniano.
Através de um vídeo difundido na sua rede social, Donald Trump afirmou que os ataques lançados nas primeiras horas da manhã de sábado, 28, fazem parte de uma “operação massiva e contínua” contra o regime de Teerão. Imediatamente a seguir, também o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, confirmou a operação conjunta “para eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irão”, num vídeo publicado nas suas redes sociais. “Não se pode permitir que este regime terrorista assassino se arme com armas nucleares que lhe permitam ameaçar toda a humanidade”, disse Netanyahu.
Trump, por seu lado, lançou uma série de ameaças, avisando que os ataques vão prosseguir durante, pelo menos, alguns dias para “arrasar a indústria de mísseis” do Irão, “aniquilar a sua marinha” e “garantir que os grupos terroristas da região não possam mais desestabilizar a região ou o mundo.”
“Eles nunca vão ter uma arma nuclear”, declarou Trump. “Este regime vai aprender que ninguém deve desafiar a força e o poderio das Forças Armadas dos Estados Unidos da América,” disse Trump avisando, em simultâneo, que os EUA poderão sofrer baixas nos próximos dias, indiciando que está a preparar-se para uma operação de certo modo prolongada e violenta.
Mudar o regime
Segundo relatos veiculados pela Al-Jazeera, o ataque tem como objetivo principal “decapitar o regime iraniano”. Por isso, segundo a estação do Qatar, além dos bombardeamentos a fábricas de misseis e de unidades da marinha, alguns ataques foram dirigidos a áreas onde o líder supremo, Aiatolá Ali Khamenei, poderia estar refugiado, nomeadamente na capital, Teerão. Segundo a Reuters, no entanto, Khamenei não estaria na cidade e teria sido transferido para um local seguro.
“Assumam o controlo do governo”, apelou Donald Trump ao povo iraniano, após anunciar a primeira leva de ataques contra os alvos do regime de Teerão. Um apelo do mesmo tipo foi feito por Benjamin Netanyahu, de uma forma ainda mais explicita: “A nossa operação conjunta criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome as rédeas do seu destino. Chegou a hora do povo do Irão se libertar do jugo da tirania e construir um Irão livre e pacífico.”
Esses apelos foram de imediato aproveitados por Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão, que vive exilado nos EUA. “Estamos muito perto da vitória final”, afirmou, também numa mensagem de vídeo, como Trump e Nethanyau. E deu a entender que, embora não goze do apoio unânime dos críticos do regime, tem condições para poder assumir o poder, caso o regime seja derrubado: “Peço que permaneçam em vossas casas por enquanto e preservem a vossa segurança. Mantenham-se vigilantes e preparados para que, no momento oportuno — que anunciarei com precisão — possam regressar às ruas para a ação final.”
Resistência e revolta
A grande questão é a de saber se o regime de Teerão tem ainda capacidade de resistência, após as violentas e numerosas revoltas populares do início do ano, e até que ponto possui capacidade militar para se defender e ripostar. Para já, através da televisão estatal – num país onde a Internet voltou a ser quase totalmente bloqueada – a posição oficial mais difundida é a de que o Irão prepara uma “resposta devastadora”.
“Todos os ativos e interesses americanos e israelitas no Médio Oriente tornaram-se, a partir de agora, um alvo legítimo”, disse um alto funcionário iraniano à Al Jazeera, sublinhando que deixaram de existir “linhas vermelhas após esta agressão”.
Para já, nas primeiras horas após o início dos ataques americanos e israelitas, todo o Médio Oriente entrou em estado de alerta, com sirenes a ouvirem-se em vários locais e diversos governos a porem as suas tropas em prontidão, para garantir a segurança.
Ouviram-se diversas explosões no norte de Israel, para onde o Irão terá disparado mísseis, logo nas primeiras horas. Também ocorreram explosões em diversos estados árabes do Golfo que abrigam instalações militares dos EUA, como o Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Bahrein.
Ao lançar ataques contra os estados vizinhos aliados dos EUA, a estratégia do Irão parece ser clara: tentar alastrar o conflito, apresentando os EUA como país invasor e, dessa forma, procurar ganhar apoio entre as populações atingidas.
Por outro lado, não se conhece qual a estratégia dos EUA para uma eventual queda do regime iraniano. Até porque, exatamente como sucedeu com a prisão de Nicolas Maduro, na Venezuela, ela contraria as promessas de Donald Trump de não se envolver em guerras por mudanças de regime. O que pode acontecer em Teerão no dia seguinte à queda do regime dos aiatolas? Os combates dos próximos dias podem dar uma resposta – ou talvez não.