Desde o início dos anos 90, quando a implosão da União Soviética tinha garantido uma vitória do Ocidente, que se percebia já a sua inquietação. Tinham tido um êxito, claro, mas, às vezes, em tom de desabafo, deixavam cair: “Nesses outros tempos, as coisas eram bem mais claras, éramos nós e eles.” E o facto de “eles” se terem só formalmente transmutado, de ter passado a ser necessário fingir que se acreditava na sua conversão, criava um ambiente estranho, um faz-de-conta em que passaram a ser obrigados a viver.
Por uma trintena de anos, esses saudosos das sombras de um mundo a preto-e-branco sentiram-se desconfortáveis, por terem sido forçados a sair da velha e cómoda trincheira maniqueísta.
