Já conhecia o orfanato onde fui hoje, chama-se “Os Continuadores”. Aquela casa é um pequeno refúgio, um edifício de construção portuguesa de dois andares, lotado de crianças abandonadas, perdidas, vítimas de maus tratos e com uma carga emocional muito pesada por tudo o que já sofreram. Para piorar, o Idai tirou-lhes o teto. Encontrei berços cheios de lama. Os poucos brinquedos feitos com pedaços de tecido e madeira que ocupavam grande parte dos seus dias estavam agora destruídos.
O Idai levou a única referência de porto de abrigo que estas crianças conheceram em toda a sua vida. Era ali, por menos recursos que tivessem, onde existia amor, protecção e cuidado.
Percebi rapidamente que, mais do que bens de primeira necessidade, era de esperança que estas crianças precisavam. Também os seus cuidadores estão fragilizados, também a eles importa devolver o brilho aos olhos.

O trabalho árduo na limpeza e reconstrução da casa não os derruba. Dizem, em tom empático, que o Idai, ainda que muito mau, lhes trouxe visibilidade para o mundo, passaram a existir.
O Idai levou a única referência de porto de abrigo que estas crianças conheceram em toda a sua vida. Era ali, por menos recursos que tivessem, onde existia amor, protecção e cuidado.
Sem teto, sem água, sem luz e sem recursos para conservação de alimentos, o importante para eles era o facto de estarem todos e juntos. Hoje senti-me um gão de areia. De uma pequenez quase irrisória.
A Cruz Vermelha Portuguesa doou um gerador a este orfanato, a este pequeno lugar que alberga os seres mais genuínos, desprovidos de maldade, com o sorriso do mais sincero que alguma vez tinha presenciado. Eles sim são grandes, do mais belo que existe enquanto Ser Humano.
Imagina como se sentiria ao receber o carro que queria no aniversário? A festa foi semelhante, a alegria genuína por um simples gerador. Agora, quando durante a noite as fraldas dos bebés tiverem de ser mudadas, já não têm de caminhar pela casa com velas, pequenas lamparinas ou pedaços de madeira em chama. A expressão “vestir a camisola” nunca me fez tanto sentido!
Dizem, em tom empático, que o Idai, ainda que muito mau, lhes trouxe visibilidade para o mundo, passaram a existir.
Ali estava eu, com um orgulho que quase não me cabia por ter aquela cruz desenhada nas costas. Por fazer parte de um todo que se move pelo outro, pelo mais vulnerável, pela Humanidade. Uma vez mais cumprimos com a Missão, pensei eu esboçando um sorriso.
Estava longe de imaginar que esta viagem ia mudar a minha vida para sempre. E mudará, com certeza, a vida de quem continuar a vir a este lugar e abraçar esta gente, a nossa gente.