Numa cidade arrasada, sem abastecimento de água, telecomunicações e electricidade, o ciclo de vida da população de Port-au-Prince faz-se ao ritmo da luz do sol. Às cinco da manhã já há um corrupio de gente nas ruas, em busca de comida e de água. Às seis da tarde todos se acantonam nos campos de refugiados, tentando fechar os olhos e esquecer o inferno em que se tornou a sua vida.
“Já não posso dizer algo tão simples como ‘vou para casa'”, constata, enquanto se despede de mim, um professor de inglês que agora dorme na rua. O sol está quase a pôr-se e Pierre Louis ainda terá de cruzar meia cidade até ao campo de refugiados onde se abrigou com a sua família. Ali pernoitam agora mais de 1 400 pessoas, amontoadas no antigo complexo industrial Kay Nou – nome que, no crioulo falado pela maioria da população significa, ironicamente, “a nossa casa”.
Tal como Pierre, os habitantes da capital caminham quilómetros infindos durante o dia, procurando locais onde possa haver comida ou água. Não há informação sobre os locais de distribuição da ajuda humanitária que continua a chegar de todo o mundo ao aeroporto internacional mas que, por razões que a todos escapam, ainda rareia nos bairros devastados da cidade.
Nos mercados locais, os poucos bens que se encontram à venda atingiram preços incomportáveis. É quase impossível encontrar uma garrafa de água e as que existem podem custar até 5 euros – uma fortuna para uma população que, antes do terramoto, já figurava entre as mais pobres do mundo, sobrevivendo com menos de 75 cêntimos por dia.
Por isso, multiplicam-se os roubos, as pilhagens, a violência. As Nações Unidas pediram ontem um reforço de 3 500 polícias para o Haiti, enquanto os EUA começaram a desembarcar os primeiros contingentes de 10 mil marines, que chegam com a missão de manter a ordem nas ruas de Port-au-Prince.
É preciso acalmar os ânimos, é certo. Mas, como diz Pierre, antes de regressar à manta estendida no chão que o espera em Kay Nou, levando nas mãos uma miséria de comida para dividir por muitos, tudo seria mais simples se os haitianos pudessem, pelo menos, acalmar os estômagos.