Apaixonado pelo mar, Knut Frostad foi velejador olímpico (em 1988 e 1992) e participou em quatro provas da Volvo Ocean Race antes de se retirar da alta competição, em 2006, passando a CEO da maior competição de vela do mundo. Desde então, as poucas horas que dorme são passadas com um telefone especial ao lado. Todos sabem que devem avisá-lo de qualquer problema que surja com um dos sete barcos que desbravam os oceanos, ao longo de nove meses e mais de ?39 milhas náuticas (qualquer coisa como 72 mil quilómetros). O norueguês, que gere ao detalhe todas as etapas da prova que dá uma volta e meia ao mundo, festejará os seus 48 anos em Portugal, na próxima semana.
> Lisboa é a primeira paragem da prova no regresso à Europa. Porque escolheu a capital portuguesa?
Porque tivemos uma ótima experiência em 2012. O Governo mostrou-se muito empenhado, o primeiro-ministro esteve presente e o Presidente da República também. A cidade destacou-se por estar muito envolvida com a prova e o presidente da Câmara de Lisboa lutou arduamente para fazer parte da corrida este ano. E também porque o trajeto é muito bom – apesar de ser o mais árduo, fisicamente.
> Encontra diferenças no País, desde a última paragem da prova em Lisboa?
Apesar de não estar ainda totalmente livre da crise, a situação parece estar melhor. Portugal tem um potencial fantástico. Primeiro, por ser um lugar maravilhoso. Lisboa é uma cidade linda, onde sabe bem estar, e com ótimos locais de hospedagem. Mas Portugal precisa de uma equipa nacional de vela. Isso iria mudar tudo: promoveria o País além-fronteiras, melhor do que qualquer outra coisa, porque haveria uma equipa a hastear a bandeira portuguesa e a contar a sua história por todo o mundo. Portugal tem a vantagem de ser um local que fica no final do trajeto da corrida, o que é interessante. Permite que os media globais falem dele durante sete a oito meses. Portugal precisa de embaixadores, e esses embaixadores devem ser jovens e talentosos velejadores portugueses. Eles existem. Têm de encontrar uma forma de arranjar dinheiro e formar uma equipa. Tal não seria possível no passado, em tempos de recessão económica, por ser muito dispendioso. Mas acredito que agora e, pensando na próxima corrida, já é possível. Se conseguissem, ia ser uma loucura!
> Considera a hipótese da sede da Volvo Ocean Race passar a ser em Lisboa?
Temos um contrato em Espanha que é válido até ao final de 2018 [a prova inicia-se em Alicante]. O que posso garantir é que Lisboa nunca virá a ser sede enquanto não existir uma equipa portuguesa. Para ficarmos num país precisamos disso: de uma equipa e de uma embarcação. Em Espanha temos isso. Mas se Lisboa conseguir ter um projeto e criar uma equipa, sem dúvida que será considerada, e uma forte candidata.
> Gere o 4.º evento desportivo mais importante do mundo. O que é mais difícil?
O mais difícil de gerir é… provavelmente o entendimento do desporto. É difícil uma empresa patrocinadora entender o risco financeiro associado à prova, compreender quando um barco bate nas rochas e fica destruído. É das coisas mais difíceis do trabalho. E claro, para mim cada corrida é diferente. Os momentos mais difíceis da minha carreira foram vividos entre 2012 e 2014, antes desta prova ter início. As coisas melhoraram quando o mercado financeiro também estabilizou… mas antes disso foi um desastre.
> O futuro é agora promissor?
É superpromissor. Em 2012 daria entrevistas como esta como se tudo estivesse bem mas… a realidade é que estávamos em terreno instável.
> Esta é a regata mais dura do mundo. Já esteve de ambos os lados, como velejador e agora como CEO. Qual o segredo para a completar com sucesso?
Nunca desistir. O segredo para terminar uma corrida é saber que o sucesso está em solucionar problemas. Mesmo quando se está deste lado, continua a ser sobre solucionar problemas. Viaja-se pelo mundo, fala-se com muitas pessoas, seja a operar um veleiro ou a gerir tudo isto. Sempre que consulto o email, surge uma questão complicada. É preciso desenvolver uma relação construtiva com os problemas. Para poder lidar bem com tudo, não ter uma quebra emocional, ser capaz de aguentar o impacto e continuar. Tal e qual como ao comando de um barco.
> Conseguiu dormir nos últimos nove meses?
Sim, dormi, de vez em quando [risos]. A minha mulher diz que não. Quando o telefone toca é que não durmo mesmo. Tenho um especial para a prova, ligado 24 horas, e quando dá sinal já sei que alguma coisa está errada…
> E gostaria de voltar a participar nesta prova?
Eu? Não, não… Gostaria de dizer que sim mas deixei de competir ao mais alto nível em 2006. Não se consegue regressar ao fim de tanto tempo. Tenho o meu catamarã em Espanha e divirto-me assim.