Chegou finalmente ao fim a novela em torno do futuro treinador do Benfica. Apesar de se saber, desde o último jogo da temporada, a 16 de maio, que José Mourinho tinha nas suas mãos uma proposta irrecusável para regressar ao comando técnico do Real Madrid, foi preciso esperar até ao último domingo, 7, para se ter a certeza de que o Special One ia mesmo rumar à capital espanhola, depois de confirmada a vitória de Florentino Pérez nas eleições presidenciais dos merengues. Garantida que estava a permanência no cargo, o líder madridista pôde avançar enfim para o pagamento dos 15 milhões da cláusula que permitiram ao treinador português desvincular-se do ano de contrato que ainda o ligava ao Benfica e regressar ao clube onde deixou boas memórias entre 2010 e 2013. Já as águias puderam, então, avançar para a substituição do treinador. E o escolhido, como também já se sabia há semanas, foi Marco Silva, que chega à Luz após nove anos em Inglaterra e 11 anos depois de quase ter sido o escolhido por Luís Filipe Vieira para suplantar a fuga de Jorge Jesus para o Sporting. A pouco mais de um mês de completar 49 anos, o técnico lisboeta chega agora, finalmente, àquele que é o seu clube do coração, tendo assinado um contrato válido por dois anos e mais um de opção.
Nascido a 12 de julho de 1977, Marco Alexandre Saraiva da Silva entrou no futebol pelos relvados. Ainda que discreta, a sua carreira de lateral-direito começou nas camadas jovens do Cova da Piedade e levou-o a representar, depois, o Belenenses, o Atlético, o Trofense, o Campomaiorense, o Rio Ave, o Braga B, o Salgueiros, o Odivelas e o Estoril. Foi no clube da Linha que, após seis temporadas e 121 jogos, pendurou as chuteiras e abraçou o cargo de diretor desportivo. Por pouco tempo, porque rapidamente assumiu o posto de treinador principal, com enorme sucesso. Logo na primeira temporada, levou o Estoril a sagrar-se campeão da Segunda Liga e a garantir o regresso ao escalão principal do futebol português. Nas duas épocas que se seguiram, o Estoril foi a sensação da Primeira Liga, conseguindo um quinto e um quarto lugares e duas qualificações consecutivas para a Liga Europa. Um sucesso retumbante, que levou Marco Silva a assinar, em 2014, pelo Sporting. A sua única passagem por um dos chamados grandes do País durou apenas uma temporada e terminou com a conquista da Taça de Portugal. Ainda assim, pouco para o então presidente dos leões, o polémico Bruno de Carvalho, que não hesitou em despedir o treinador (alegou, na altura, justa causa por Marco não ter usado fato e gravata na final do Jamor) para ir “roubar” Jorge Jesus ao eterno rival, o Benfica.
Marco ainda esteve para fazer o caminho inverso, mas o Benfica acabou por escolher Rui Vitória. Não restava outra alternativa ao jovem lisboeta que fosse procurar a sorte no estrangeiro. E foi no Olympiacos que, em 2015/2016, se sagrou campeão da Grécia, estabelecendo um recorde europeu de vitórias consecutivas. O sucesso, porém, não o convenceu a continuar no Pireu. Alegando razões pessoais, deixou o clube grego e passou seis meses sem trabalhar. O período sabático terminou em janeiro de 2017, quando assinou contrato com os ingleses do Hull City com a missão de tentar a manutenção na Premier League. Não o conseguiu, mas o estilo de futebol praticado pela sua equipa abriu-lhe as portas do Watford, primeiro, e do Everton, depois. Uma derrota face aos eternos rivais do Liverpool acabaria por ditar a sua saída do clube no final de 2019 e uma nova paragem sabática, de quase ano e meio.
Em julho de 2021, assinou contrato com o Fulham, com a missão de fazer o clube londrino regressar à Premier League, objetivo que conseguiu de forma brilhante, levando a equipa a sagrar-se campeã do Championship com um recorde de 106 golos marcados, a melhor marca depois dos 108 conseguidos, em 2001/2002 pelo Manchester City que iniciava o caminho de regresso à glória, depois de anos nas divisões inferiores. Nos anos que se seguiram, Marco Silva conduziu o Fulham a um lugar estável na Premier League, praticando um futebol que agradava aos adeptos e lhe granjeava elogios dos técnicos rivais, nomeadamente Pep Guardiola e Jürgen Klopp. Ainda assim, nunca surgiu um convite para orientar uma das equipas grandes de Inglaterra, o que obrigou Marco Silva a repensar a sua carreira, mesmo tendo em cima da mesa uma proposta milionária para renovar com o Fulham. Nesse contexto, o convite para substituir José Mourinho no Benfica chegou na hora certa.
Garantida, da parte de Rui Costa e do diretor desportivo, Mário Branco, a autonomia para gerir o plantel e tomar decisões fundamentais, Marco Silva assume agora a difícil tarefa de tentar reerguer um clube que pouco tem ganhado nos últimos cinco anos. Nestes anos que Rui Costa já leva na presidência, o Benfica foi apenas uma vez campeão e venceu uma Taça da Liga e duas Supertaças. Com a agravante de, em virtude da vitória do Torreense na final da Taça de Portugal, o clube da Luz ter perdido o acesso garantido à Liga Europa, o que obriga a equipa a iniciar os trabalhos de pré-época já no próximo dia 25 de junho, pouco menos de um mês antes da realização da primeira de três eliminatórias que o clube terá de ultrapassar para disputar a Liga Europa.
Muito pouco tempo para dar início a um trabalho que os milhões de benfiquistas (nomeadamente o presidente) esperam que venha a confirmar que Marco Silva é “o tal” e não apenas mais um treinador a sair, como os antecessores, pela porta pequena.