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Em 1988, Bobby McFerrin lançou “Don’t worry, be happy”, o sucesso de escala planetária que nos tentou convencer a todos de que a solução para os nossos problemas era não nos preocuparmos e sermos felizes.
Vais perder a casa e não tens onde dormir? Não te preocupes, sê feliz! Estás sem dinheiro e não sabes como vais ter de explicar aos teus filhos porque cortaram a luz? Não te preocupes, sê feliz!
Em 1935, António de Oliveira Salazar criava a FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho). Inspirado em modelos semelhantes da Itália fascista e da Alemanha nacional-socialista, o organismo tinha como objetivo ocupar os tempos livres dos trabalhadores para que não se dedicassem ao associativismo livre e se pusessem com ideias subversivas.
Em 2026, tem lugar no Porto o “Happiness Camp”, um evento que conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República e que se propõe a nada mais nada menos do que responder à questão: “Como podemos construir organizações de alto desempenho sem comprometer a sustentabilidade humana?”.
É organizado pela Associação Happiness Camp, que “visa a promoção de um território mais feliz para viver e trabalhar, com especial foco em Portugal, com vista a combater os elevados índices de depressão e ‘burnout’ identificados pela Organização Mundial de Saúde como a futura segunda principal causa de incapacidade no futuro.”
Propõe-se fazê-lo de variadas formas: de aulas de yoga a workshops sobre nutrição ou “criação de um circuito artístico, com curadoria de diferentes artistas, que procura estimular a produção de dopaminas através da cor, da luz e do cheiro”. Nenhuma delas passa por mais direitos laborais nem melhores salários.
Pelo palco vai passar muita gente. Vai estar uma representante da Meta, mas não se sabe se falará sobre o caso que corre em tribunal em que a empresa é acusada de usar mecanismos de Inteligência Artificial para despedir pessoas que gozaram de licença de maternidade ou sobre os trabalhadores quenianos que processaram a empresa por alegadamente terem sido despedidos ilegalmente por reivindicarem melhores condições de trabalho.
Também vai estar um alto quadro da Google, mas não está confirmado se vai abordar o assunto dos empregados negros que receberam 50 milhões de dólares depois de levarem a tribunal o seu tratamento discriminatório ou as 15.000 mulheres que receberam 118 milhões de dólares por levarem a tribunal tratamentos também discriminatórios.
Haverá também quem falará em nome da Deloitte, mas não foi possível apurar se abordará o recente caso nos EUA em que a empresa pagou 21,5 milhões de dólares ao Estado para pôr cobro a uma investigação sobre práticas de discriminação por etnia e género.
A Walt Disney estará representada. Mas será que vai falar das milhares de funcionárias que processaram a empresa por discriminação e acabaram por receber 43,35 milhões de dólares? Ou de como a empresa foi levada a tribunal por não permitir que os seus funcionários tivessem períodos de descanso?
Também vai haver um orador em representação da TikTok, mas é absolutamente desconhecido se abordará as denúncias por discriminação ou a alegação de que promovem uma cultura de trabalho “996”: trabalhar das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana.
Também a Teleperformance terá um orador no evento. Se falará do relatório da UNI Global Union que denuncia práticas antissindicais ou dos relatos de moderadores de conteúdos que, por 10 dólares ao dia, eram obrigados a assistir a vídeos de assassinatos, suicídios e abuso infantil sem apoio psicológico adequado, não se sabe ao certo.
Talvez esteja a ser injusto e alarmista. Afinal de contas, o conteúdo da página do evento está disponível em inglês e, parecendo que não, dá logo um ar de grande respeitabilidade.
E depois há também o facto de não se tratar apenas de um simples evento com oradores. Ele proporciona também a possibilidade de comprar variadíssimos artigos de merchandising. Ele é lápis anti-esgotamento nervoso com dizeres, lápis de “rebelião” com frases subversivas como “A produtividade pode esperar”, bonés a dizer “protege a tua energia” ou meias com smiles. De que mais precisa uma pessoa para ser feliz no trabalho?
Não acho que eventos como este estejam cheios de gente a maquinar planos maquiavélicos. Na verdade, acho que é pior do que isso. Acho que há um conjunto de pessoas que, para fazer dinheiro, se promovem, participam e patrocinam eventos como este aproveitando a boa vontade dos bem intencionados para, na prática, instrumentalizar a saúde mental para evitar falar de salários, direitos e poder no local de trabalho.
Não sei quem organiza este evento nem lhes conheço as motivações. Essa nem sequer é a questão. Não se trata de apontar dedos a este ou àquele, mas de identificar uma tendência sistémica que é bem maior e mais grave do que isso: quando despolitizamos o bem-estar no trabalho, substituindo direitos e salários por yoga, merchandising e palestras, repetimos a perversa lição da canção de Bobby McFerrin. Assumimos que os problemas sistémicos que fogem ao controlo dos trabalhadores são ultrapassáveis com uma atitude positiva. Vou tentar lembrar-me disso da próxima vez que entalar um dedo numa porta: don’t worry, be happy.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.