Esqueçam o testamento. Mike Leigh não filmou Tender Loving Care como quem manda gravar antecipadamente a própria lápide, mesmo quando o fim da carreira parece, pela primeira vez, uma hipótese demasiado concreta. O mestre britânico do realismo social prefere filmar chá, vinho, uma canção cuja letra nem todos sabem de cor, duas amigas a rirem numa cozinha e um homem idoso que, quase sem dar por isso, começa a esquecer-se das coisas. Aos 83 anos, o autor de Nu, Segredos e Mentiras, Vera Drake, Um Dia de Cada Vez, Mr. Turner, Peterloo e, mais recentemente, Verdades Difíceis regressou à competição de San Sebastián com Tender Loving Care, 107 minutos de cinema aparentemente pequeno, íntimo, doméstico, mas com a dimensão de um magnífico retrato social sobre a Inglaterra contemporânea e, por extensão, sobre boa parte dos sistemas de proteção social das democracias ocidentais. Amy (Kate O’Flynn, Widow’s Bay e, muito antes, Um Dia de Cada Vez) trabalha na proteção de menores e, depois de uma relação desfeita, instala-se temporariamente em casa da amiga Rosie (Alice Bailey Johnson, Scoop), também assistente social, mas dedicada aos idosos. À volta delas estão Birdie e Geoff, os pais de Amy, interpretados por Marion Bailey (Peterloo, Mr. Turner) e Paul Jesson (Mr. Turner), um casal que Leigh observa sem aquela piedade pegajosa que costuma transformar a velhice em publicidade a seguros de saúde. O que daqui resulta é um dos filmes mais belos, maduros e discretamente devastadores desta competição: um Mike Leigh em estado puro, sem precisar de provar coisa nenhuma a ninguém.
O Estado social cabe numa cozinha
O que interessa a Leigh nunca é a “grande questão social” escrita em letras de néon ou servida em escaparates de manchete. São as pessoas esmagadas por ela enquanto simplesmente fazem o jantar. Amy e Rosie trabalham num sistema que lhes exige humanidade com minutos contados, recursos escassos e burocracia suficiente para transformar a palavra “cuidado” em números, formulários e estatísticas, neste caso literalmente, para inglês ver. E é precisamente aí que Tender Loving Care ganha uma extraordinária força política sem nunca precisar de fazer política em voz alta. Leigh não filma instituições: filma as consequências delas nas pessoas. Não filma slogans: filma silêncios.
Na conferência de imprensa, apareceu num ecrã, fisicamente fragilizado e longe de San Sebastián, mas intelectualmente tão afiado como sempre. Perguntaram-lhe porquê escolher a compaixão num tempo tão pouco compassivo. “Porque não?”, respondeu, naquele estilo em que uma pergunta excessivamente solene costuma levar primeiro uma pequena bofetada. A humanidade não fica suspensa apenas porque os tempos são maus; pelo contrário, é precisamente nesses períodos que existem mais razões para procurar alguma positividade. Fez questão, porém, de afastar imediatamente o açúcar: Tender Loving Care não é escapismo romântico. É um olhar duro para a realidade e um filme sobre a necessidade da compaixão.
Alice Bailey Johnson contou que a preparação passou por muitas conversas com profissionais dos serviços sociais. Rosie trabalha com idosos, Amy com crianças e jovens; áreas diferentes, o mesmo muro. Paul Jesson, evocando a experiência da própria mãe, sublinhou que o filme não santifica ninguém: estas profissionais sabem perfeitamente que, por razões de sistema, dinheiro e política, não conseguem fazer o trabalho que fariam num mundo ideal. É aí que Leigh acerta na mouche. Não transforma assistentes sociais em anjos de serviço, nem os utentes em vítimas de cartolina. Mostra gente cansada, por vezes irritada, por vezes insuficiente, mas ainda disponível para olhar para outra pessoa durante mais de três segundos. Parece pouco. Hoje em dia, talvez seja imenso.
E cinematograficamente Leigh faz aquilo que poucos ainda fazem tão bem: constrói drama sem o anunciar. Um olhar, uma pausa, um copo de vinho pousado com força ligeiramente excessiva, um esquecimento que inicialmente parece banal. Quando damos por nós, a pequena comédia familiar já adquiriu o peso de uma tragédia quotidiana. Sem música de violinos. Sem manipulação. Sem obrigar-nos a emocionar.
O argumento nasce antes de existir
Voltou também a inevitável pergunta sobre a improvisação, essa espécie de lenda industrial em torno do método Mike Leigh. Ele corrigiu-a. Não se chega ao plateau para inventar falas à sorte enquanto alguém procura o foco. A improvisação serve para construir personagens, relações, passado, conflito e, finalmente, o próprio argumento; quando a câmara começa a rodar, a cena está trabalhada com enorme precisão. O argumento, explicou, é que nasce da improvisação; não é a improvisação que aparece depois para salvar um argumento preguiçoso. Alice Bailey Johnson confirmou: os ensaios são longos, a preparação rigorosa e a espontaneidade surge apenas onde deve surgir. Leigh pode começar um filme sem argumento escrito; nunca começa sem querer saber exatamente quem são aquelas pessoas.
É precisamente isso que torna Tender Loving Care tão rico sem parecer ocupado. Birdie e Geoff têm passado, rotinas, piadas, canções, pequenas irritações e aquela intimidade dos velhos casais que já discutiram sobre tudo e agora podem finalmente discutir sobre nada. As jovens Amy e Rosie já carregam relações falhadas, trabalho, desejo, culpa e a velha pergunta que continua a cair sobretudo sobre as mulheres: carreira ou família, como se a sociedade tivesse finalmente descoberto a liberdade feminina mas se tivesse esquecido de fornecer a logística. Alice Bailey Johnson foi clara: sim, as mulheres podem fazer tudo; o problema é continuarem a viver numa sociedade que não ajuda exatamente a fazê-lo. “Ainda não chegámos lá”, resumiu.

Há também qualquer coisa de extraordinariamente generoso na maneira como Leigh filma estes corpos, estas idades e estas fragilidades. Ninguém existe apenas para servir a narrativa. Cada personagem parece ter começado a viver muito antes de o filme arrancar e continuará, imaginamos, depois do último plano. É uma das marcas essenciais do seu cinema e talvez a razão por que, cinquenta anos depois, as suas personagens continuam a parecer pessoas e não construções de argumento.
Rir, chorar e não carregar no botão
Leigh também não separa comédia e tragédia porque a vida, felizmente, ainda não contratou um programador de géneros. Kate O’Flynn pode estar a rir numa cozinha e, pouco depois, o filme encostar-se à perda sem tocar a campainha do melodrama. A atriz explicou que, com Leigh, ninguém entra numa cena com a indicação luminosa “agora chora”. O choro acontece se a personagem chegar lá; o riso, pelo contrário, foi muitas vezes absolutamente verdadeiro. Parece uma diferença mínima, mas explica quase tudo: Leigh não manda as emoções entrarem. Prepara-lhes a casa e espera que apareçam.
Talvez seja essa ausência de sublinhado que torna Tender Loving Care tão comovente. Leigh confia nos atores, no espectador e no tempo. Não explica aquilo que já percebemos, não repete aquilo que já sentimos e nunca transforma a doença, a solidão ou o envelhecimento em instrumentos de chantagem emocional. Marion Bailey e Paul Jesson são magníficos precisamente porque nunca “representam idosos”; interpretam duas pessoas que envelheceram. Kate O’Flynn encontra em Amy uma mistura belíssima de desarrumação emocional, humor e resistência. Alice Bailey Johnson dá a Rosie aquela solidez que parece simples até percebermos quanto trabalho existe para fazer uma personagem parecer tão naturalmente presente.
Quando perguntaram ao realizador pelo futuro das gerações mais novas, surgiu a frase que talvez resuma não apenas o filme como este momento da carreira. Leigh pensa nos filhos, nas crianças que poderão atravessar este século e chegar ao próximo, e quer acreditar que encontrarão um mundo habitável, embora seja demasiado fácil ser pessimista perante aquilo que vê. “Temos uma obrigação moral de tentar ser otimistas”, afirmou. “A menos que sejamos otimistas, já falhámos.” Marion Bailey, sua companheira e atriz recorrente, acrescentou a nota geracional: quando tinha vinte anos, a geração de Birdie, a personagem idosa no filme, acreditava que iria mudar tudo, quebrar tabus, acabar com repressões e melhorar a vida da classe trabalhadora. Hoje olha em redor e admite não saber exatamente onde a coisa descarrilou. Uma confissão suficientemente Mike Leigh: sem manifesto, sem megafone e sem fingir que o desastre começou ontem.
A última vez? Esperemos que não
E chegou, inevitavelmente, a pergunta que toda a sala sabia que acabaria por chegar. Será mesmo este o último filme de Mike Leigh? A resposta foi seca: provavelmente. Uma condição médica afeta-lhe os movimentos musculares e tornou a deslocação e a exigência física de uma rodagem demasiado difíceis. Não é falta de ideias, nem cansaço do cinema, nem sequer uma elegante operação promocional de “filme-testamento”. É o corpo a impor regras ao homem que passou mais de meio século a recusar as regras dos outros, incluindo financiadores que gostariam primeiro de saber qual era o argumento, quem eram as estrelas e onde ficava a parte vendável da coisa. Leigh sempre preferiu descobrir o filme fazendo-o.
Georgina Lowe, produtora e cúmplice de muitos anos do realizador, contou que o projeto foi durante bastante tempo apenas Untitled 25 e descreveu a equipa recorrente de Leigh como uma espécie de família. Disse ainda aquilo que se percebia na sala, mesmo com o realizador reduzido ao tamanho de um monitor: se pudessem, continuariam a fazer filmes com ele indefinidamente. Nós também continuaríamos a vê-los.
Tender Loving Care pode não ter o murro frontal de Nu, a arquitetura emocional de Segredos e Mentiras, a ferida moral de Vera Drake ou a cólera quase clínica de Verdades Difíceis. Tem outra coisa, talvez mais rara nesta fase da vida de um cineasta: serenidade sem resignação, ternura sem sentimentalismo e uma lucidez que não precisa de grande afirmação. É um filme magnífico justamente porque parece nunca estar a tentar ser magnífico. Leigh continua a filmar política sem transformar personagens em panfletos, a falar de classes sem lhes pôr legendas sociológicas, a fazer humor sem avisar que chegou uma piada e a emocionar sem nos apontar uma arma à cabeça.
Se for mesmo o fim, não sai de cena a pedir uma ovação. Deixa-nos duas mulheres exaustas, um casal que envelhece, um homem a perder a memória e a velha pergunta que o seu cinema nunca largou: quem toma conta de quem quando o mundo começa a falhar? A resposta de Mike Leigh, desta vez, é muito simples. Nós. Uns dos outros.
Mas, por favor, que ainda não seja a última vez.