O cinema já filmou monstros de todas as formas: vampiros, tubarões, extraterrestres, zombies, presidentes americanos, famílias disfuncionais, mafiosos com problemas de mãe, robôs com dúvidas existenciais e até super-heróis que parecem ter sido escritos por um comité do Pentágono. Faltava-lhe filmar o monstro mais contemporâneo de todos: o homem que promete salvar o mundo através de uma máquina que talvez o substitua a ele próprio, o simplifique, o copie, o alugue e, no fim, lhe envie uma newsletter a explicar que tudo isto era inevitável. Esse homem é Sam Altman, empresário e programador norte-americano, mundialmente conhecido por ser o CEO e cofundador da OpenAI, a empresa que criou o ChatGPT, e hoje considerado uma das figuras mais influentes da revolução da IA. O filme chama-se Artificial, é realizado por Luca Guadagnino, escrito por Simon Rich, tem Andrew Garfield como Sam Altman, Ike Barinholtz como Elon Musk e Yura Borisov como Ilya Sutskever. Ou seja: tem elenco, realizador, tema, escândalo, atualidade, prémios à vista e uma daquelas histórias que Hollywood costuma adorar quando o dinheiro não está sentado na primeira fila a tossir discretamente. O problema é precisamente esse. O dinheiro agora senta-se na primeira fila, financia a sala, compra o estúdio, controla a plataforma, fornece a nuvem, instala o algoritmo, escreve o comunicado e ainda diz que respeita muito o realizador. A Amazon deixou cair Artificial depois de anunciar uma parceria estratégica com a OpenAI. Oficialmente, o filme ficará melhor servido por outro distribuidor. Claro. É sempre assim. Quando uma obra fica politicamente incómoda, financeiramente tóxica ou socialmente perigosa, nunca se diz que é medo. Diz-se que é estratégia. Diz-se que é reposicionamento. Diz-se que é melhor para o filme. O cinema, coitado, deve andar há anos a pedir para ser salvo dos seus próprios distribuidores.
O biopic que ninguém quer adoptar
Convém começar pelo óbvio: Artificial não é um filme da OpenAI. É um filme sobre a OpenAI. A diferença parece pequena, mas é aí que mora o diabo, o investidor e o departamento jurídico. O filme recua ao episódio de 2023 em que Sam Altman foi afastado da liderança da empresa e regressou poucos dias depois, numa espécie de golpe palaciano do Vale do Silício com menos espadas, mais Slack — uma das plataformas de comunicação para empresas mais populares do mundo —, mais fundos de investimento e a mesma velha pergunta: quem manda na máquina que diz vir salvar a humanidade? Pelo que se sabe, a versão de Guadagnino não será propriamente uma hagiografia com música inspiradora, contraluz dourada e uma criança a olhar para o céu a dizer: um dia vou mudar o mundo. Altman — não confundir com Robert Altman (1925–2006), o influente cineasta norte-americano e um dos realizadores mais rebeldes e inovadores da Nova Hollywood, conhecido por subverter os géneros tradicionais do cinema e retratar a sociedade americana de forma satírica e irónica — não surgirá como santo padroeiro da inovação responsável. Musk não aparecerá como génio incompreendido de t-shirt preta e o verdadeiro centro moral poderá até ser Sutskever — Ilya Sutskever, um dos cientistas e investigadores mais influentes no campo da Inteligência Artificial. De origem israelita-canadiana, foi cofundador e cientista-chefe da OpenAI, onde desempenhou um papel central na criação de modelos revolucionários como o GPT-4. Em 2024, fundou a SSI, Safe Superintelligence, focada no desenvolvimento seguro da superinteligência —, uma figura menos pop, menos meme, menos vendável, mas talvez mais cinematográfica.
A Amazon tinha o filme. A Amazon largou-o. Depois, segundo a imprensa americana, Netflix, Warner, Focus e A24 também terão olhado para ele e decidido que talvez não, obrigado, já temos problemas suficientes. MUBI e NEON apareceram como possíveis casas para o órfão. E, de repente, uma obra quase terminada, feita por um dos realizadores mais desejados do cinema contemporâneo, passou a circular como objeto radioativo. Não porque falte interesse. Não porque falte tema. Não porque falte star power. Mas porque toca no nervo exposto do momento: a promiscuidade cada vez menos disfarçada entre Hollywood, Silicon Valley, política, capital de risco e plataformas globais.
Durante décadas, Hollywood adorou fazer filmes sobre o poder, desde que o poder estivesse a uma distância segura. Podia filmar Wall Street, desde que o dinheiro viesse de Wall Street. Podia filmar a CIA, desde que a CIA ajudasse nos helicópteros. Podia filmar o Facebook em A Rede Social, de David Fincher, porque, nesse momento, o cinema ainda tinha a ilusão de poder olhar para a tecnologia como quem olha para um rapaz arrogante numa sala de Harvard. Hoje, o rapaz arrogante comprou a sala, a universidade, a rede eléctrica e a aplicação onde vamos comentar o filme. A diferença é substancial.
Guadagnino é uma escolha quase perfeita para esta história. Não é um cronista frio da engenharia do poder, à maneira de Fincher. É um cineasta do desejo, da pele, da febre, da intoxicação afetiva. Em Chama-me Pelo Teu Nome, filmou a juventude como ferida luminosa. Em Challengers, transformou o ténis num triângulo sexual com raquetes. Em Queer, levou a solidão para zonas alucinadas. Em Depois da Caçada, voltou a terrenos morais pantanosos. Se lhe deram Sam Altman, talvez não fosse para fazer uma comédia romântica. Talvez fosse antes para filmar a vaidade, a sedução, a culpa, a mentira, o delírio messiânico, essa coisa muito americana de alguém vender uma revolução mundial com cara de quem acabou de descobrir uma app de produtividade.
A nova censura vem em formato de parceria
O caso Artificial não significa necessariamente que alguém tenha telefonado a alguém a mandar esconder o filme num bunker. A censura contemporânea raramente entra pela porta principal com botas cardadas ou lápis azul. Entra com e-mails educados, cláusulas de reputação, conflitos de interesse, relações estratégicas, acordos de computação, receio de processos, dependência tecnológica e aquela frase maravilhosa: “não é o momento certo”. O momento certo, como sabemos, é quase sempre quando já não interessa a ninguém, porque tudo é efémero e passa muito depressa.
O cinema não está a ser apenas pressionado pela IA enquanto ferramenta. Está a ser reconfigurado pela IA enquanto capital. A diferença é brutal. Discutir se um realizador pode usar Inteligência Artificial para corrigir uma voz, fazer um storyboard, limpar um plano ou gerar figurantes é obviamente importante. Mas a pergunta maior é outra: quem financia o imaginário? Quem pode ser criticado? Quem se torna intocável? Quem passa de tema dramático a parceiro estratégico? Quando uma empresa tecnológica investe dezenas de milhares de milhões numa companhia que também tem uma divisão de entretenimento, a liberdade artística não desaparece de um dia para o outro. Fica apenas com menos oxigénio. E depois chamam-lhe prudência.
Hollywood sempre foi cobarde e corajosa ao mesmo tempo. Produziu obras ferozes e pactos vergonhosos. Fez Os Homens do Presidente e fez propaganda militar embrulhada em entretenimento familiar. Inventou rebeldes e vendeu-os em copos de refrigerante. A novidade é que o velho conflito entre arte e indústria ganhou um terceiro elemento: a infraestrutura. As plataformas que distribuem os filmes são também empresas de dados, nuvem, publicidade, Inteligência Artificial, comércio, vigilância suave e dependência quotidiana. O velho estúdio queria vender bilhetes. O novo estúdio quer saber quem somos, o que desejamos, quando desistimos de ver, onde clicamos, o que compramos a seguir e que ferramenta usaremos para escrever a crítica.
É por isso que Artificial se tornou mais interessante antes mesmo de estrear. Talvez seja uma obra-prima. Talvez seja apenas um filme irregular, esperto, demasiado embalado pelo calor do momento. Talvez envelheça mal dentro de seis meses, porque a tecnologia envelhece a uma velocidade obscena. Mas o seu percurso já conta uma história. Um filme sobre a OpenAI começa a ser afastado por empresas que, direta ou indiretamente, dependem do ecossistema da IA. Não é preciso acreditar em conspirações para perceber estes sinais deveras preocupantes. Basta olhar para o mapa do dinheiro. E o mapa do dinheiro, hoje, parece um daqueles quadros de investigação policial com fotografias, setas vermelhas e demasiados bilionários de sorriso higienizado.
A24: o selo de qualidade descobre o manual de instruções
No meio disto tudo surge a produtora A24, esse pequeno grande estúdio que durante anos nos habituámos a tratar como uma espécie de boutique do bom gosto cinematográfico. Fundada em Nova Iorque, longe do velho cheiro industrial de Hollywood, a A24 tornou-se uma marca, um selo, quase uma religião de bolso para cinéfilos que gostam de sentir que ainda há risco no cinema americano. De Moonlight a Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo, de Hereditário a Midsommar — O Ritual, de A Bruxa a Vidas Passadas, de Aftersun a A Zona de Interesse, a empresa fez uma coisa rara: transformou cinema de autor, terror atmosférico, angústia millennial, marketing digital e merchandising cool numa identidade reconhecível. Quando o logótipo aparece, muita gente já se inclina na cadeira como se tivesse visto a assinatura de um pintor. De facto, a A24 percebeu cedo que, no século XXI, um estúdio não vende apenas filmes. Vende pertença. Vende humor. Vende estética. Vende a sensação de que se está do lado certo da cinefilia, mesmo quando se compra uma t-shirt caríssima com ar de achado numa feira alternativa. O seu génio não foi apenas escolher bons filmes. Foi transformar o gosto numa comunidade e a comunidade num negócio. Fez pela cinefilia jovem aquilo que, em tempos, a Miramax dos irmãos Harvey e Bob Weinstein, fez nos anos 90, mas sem o cheiro a charuto, passadeira vermelha predatória e Oscar comprado à força de telefonemas. Pelo menos, até ver.
O acordo com a Google DeepMind muda, de facto, o enquadramento. A colaboração é apresentada como investigação, desenvolvimento de ferramentas, apoio aos artistas, novos fluxos de trabalho, controlo criativo preservado. Tudo muito bonito, muito limpo, muito asséptico, muito “não tenham medo, isto é para vos ajudar”. A Google, segundo a imprensa americana, investe cerca de 75 milhões de dólares na A24. A promessa é que a IA não venha substituir a criação, mas ajudar os criadores. A frase é simpática. Também os bancos dizem que estão connosco nos momentos importantes da vida.
Depois lemos as letras pequenas
O paradoxo não deixa de ser delicioso, no sentido trágico da palavra. A A24, marca da diferença, do risco e do cineasta-autor, aproxima-se da empresa que melhor representa a capacidade de organizar, processar e monetizar o mundo inteiro. Ao mesmo tempo, terá passado ao lado de Artificial, o filme que dramatiza precisamente a mitologia, as guerras internas e as figuras da nova aristocracia tecnológica. Nada disto é necessariamente hipocrisia pura. Pode ser cálculo. Pode ser estratégia. Pode ser sobrevivência. A A24 já não é apenas uma casinha indie com posters bonitos. É uma empresa global, valorizada em milhares de milhões, obrigada a crescer, competir, alimentar catálogo, televisão, cinema, campanhas, prémios, plataformas e investidores. O problema das marcas rebeldes é que, quando crescem muito, começam a ter reuniões sobre o risco reputacional da rebeldia.
E, no entanto, seria injusto reduzir a A24 a cinismo. O seu percurso continua a ser extraordinário. Deu espaço a um conjunto notável de cineastas: Ari Aster, Robert Eggers, Celine Song, Kelly Reichardt, Jonathan Glazer, Charlotte Wells, Sean Baker, Rose Glass e tantos outros. Apostou em filmes que as majors dificilmente teriam sabido vender sem os transformar em papa explicativa. Criou campanhas de marketing mais inteligentes do que muitos filmes inteiros e até blockbusters. Percebeu que o público não morreu; apenas se cansou de ser tratado como idiota. Mas esta nova fase obriga a uma pergunta inconveniente: a A24 vai usar a IA para proteger o risco artístico ou para industrializar o risco artístico? Uma coisa é dar aos cineastas ferramentas para imaginar melhor. Outra é transformar a diferença numa predefinição de software.
O cinema depois da alma
A Inteligência Artificial já está no cinema. Está na escrita, na montagem, nos efeitos visuais, no rejuvenescimento digital, na dobragem, na legendagem, na promoção, na análise de público, nos trailers, nos cartazes, nos testes de mercado, nas salas de reuniões onde alguém pergunta se o terceiro ato podia emocionar mais mulheres entre os 25 e os 34 anos. A discussão nunca foi entre cinema puro e cinema contaminado. O cinema sempre foi uma arte contaminada: por dinheiro, técnica, truques, máquinas, luz artificial, montagem, maquilhagem, ilusão. A diferença é que a IA não é apenas uma ferramenta. É uma tecnologia capaz de imitar o gesto criativo e, pior ainda, de convencer executivos de que o gesto criativo talvez seja apenas uma variável cara.
A grande estrela de Hong Kong, o ator Tony Leung (Disponível Para Amar), disse recentemente numa entrevista, a propósito do seu último filme, Silent Friend (2025), realizado pela cineasta Ildikó Enyedi — uma obra muito interessante sobre a possibilidade de as árvores possuírem inteligência —, que a IA não tem alma. Pode soar romântico, até ingénuo. Mas talvez seja exatamente disso que precisamos: uma ingenuidade resistente. A alma, no cinema, nunca foi uma coisa mística em frasco de perfume. É erro, hesitação, tempo morto, respiração, contradição, mau gosto ocasional, teimosia, fragilidade, uma atriz que encontra qualquer coisa que não estava no argumento, um realizador que insiste num plano impossível, um montador que salva uma cena, uma falha que se torna estilo. A IA pode ajudar a fabricar imagens. Pode acelerar processos. Pode poupar dinheiro. Pode abrir possibilidades reais a criadores sem meios. Não vale a pena fingir o contrário. Mas também pode normalizar tudo, alisar tudo, optimizar tudo, tornar o cinema uma sequência de decisões estatisticamente razoáveis. E poucas coisas são tão mortíferas para a arte como a razoabilidade estatística.
A IA não será apenas uma questão estética
A Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood já começou a desenhar fronteiras, sobretudo nas categorias de argumento e interpretação, exigindo autoria e desempenho humanos. Os Golden Globes seguem o mesmo caminho de cautela permissiva: a IA pode entrar, desde que o humano continue a ser o centro. É uma tentativa de fechar a porta depois de a casa já ter sido mapeada por satélite. Mas é melhor do que nada. O essencial, porém, não se resolve apenas com regulamentos de prémios. Resolve-se com contratos, sindicatos, transparência, direitos de imagem, direitos de voz, propriedade intelectual, remuneração justa e, sobretudo, coragem crítica. Porque a IA no cinema não será apenas uma guerra estética. Será uma guerra laboral, política e moral.
O caso Artificial deixa-nos uma imagem quase perfeita do presente: um filme sobre a Inteligência Artificial é rejeitado por empresas que vivem, dependem ou se aproximam cada vez mais da Inteligência Artificial; uma produtora símbolo do cinema independente faz um acordo com uma gigante tecnológica para desenvolver ferramentas de IA; os prémios tentam proteger a autoria humana; os atores temem ser copiados; os argumentistas temem ser reciclados; os estúdios juram que tudo é apenas inovação; e o público, esse velho suspeito, continua a querer ver histórias que pareçam feitas por alguém que sangra, ama, falha e, de preferência, não foi treinado com sete milhões de PDFs roubados à humanidade.
Talvez Artificial encontre rapidamente casa de distribuição. A Amazon MGM Studios era responsável pelo lançamento do filme, mas desistiu de distribuir o projeto. Talvez a MUBI ou a NEON façam aquilo que os grandes já não podem fazer sem consultar primeiro os seus investidores, os seus algoritmos e os seus fantasmas. Talvez o filme estreie, cause ruído, divida opiniões e desapareça depois no grande arquivo das plataformas. Mas já ganhou uma estranha importância histórica. Tornou-se o filme que Hollywood teve medo de lançar sobre os homens que prometem lançar o futuro. E essa ironia, por enquanto, nenhuma máquina conseguiu escrever melhor do que a realidade.
No fundo, a pergunta não é se a Inteligência Artificial vai entrar no cinema. Já entrou, sentou-se, pediu café e está a avaliar a iluminação. A pergunta é se o cinema ainda terá coragem de olhar para ela sem incomodar os patrocinadores ou financiadores. Porque uma indústria que sempre viveu de imaginar monstros pode agora descobrir que o monstro não está num ecrã. Está num contrato.