O Primavera Sound Porto arrancou sob um calor quase provocador. Com temperaturas a rondar os 35 graus, o Parque da Cidade encheu-se cedo de gente gira, óculos de sol, copos e lecos na mão e uma vontade coletiva de celebrar a música sem reservas. A tarde vibrava ao som de concertos que deram o mote para um primeiro dia intenso e eclético.
Entre os momentos mais aguardados estiveram a atuação aclamada dos The XX, a intensidade emocional e quase confessional de Ethel Cain e a energia contagiante de Rusowsky, que conquistou o público mais jovem, “verdadeiramente eclético”, destacando ainda as passagens de Language, Sensible Soccers, Texas Is the Reason, Oklou e Agriculture.
Mas foram os Kneecap que transformaram um concerto num manifesto. As rimas eram cuspidas a uma velocidade vertiginosa, em gaélico quase incompreensível para a maioria dos presentes, enquanto os instrumentais mergulhavam na eletrónica mais próxima da rave. Porém, havia algo maior em palco: uma forte carga política que fez deste espetáculo muito mais do que música.
Antifascistas, pró-Palestina e orgulhosamente irlandeses, os Kneecap fazem da arte uma arma política. No Primavera Sound Porto, mostraram que o hip-hop pode ser simultaneamente festa e resistência. Antes mesmo de subirem ao palco, bandeiras da Palestina agitavam-se entre o público. Quando as luzes se apagaram, mensagens de solidariedade com os povos palestiniano e libanês surgiram nos ecrãs, seguidas de cânticos de “Palestina livre”.
Abriram com “Éire go Deo”, numa celebração da língua gaélica que se tornou também um ato de afirmação cultural e política. Entre samples de rave, fizeram o público alternar entre a dança, o riso e a reflexão.
No final, deixaram uma provocação que arrancou aplausos: a garantia de que o público da Invicta é muito melhor do que o de Barcelona. E talvez tenha sido essa a grande mensagem do primeiro dia do Primavera Sound Porto: sob um calor abrasador e ao ritmo de concertos memoráveis, a música continua a ser um espaço onde ainda é possível imaginar que outro mundo é possível.