Quem não gosta de cromos da bola, quando são grandes cromos da bola. Uns ficam na memória porque marcaram muitos golos. Outros porque tinham bigode, cabelo impossível, suficiente excentricidade ou nome de uma marca de eletrodomésticos. Éric Cantona é uma figura de uma espécie diferente: a dos homens que entraram no futebol como quem invade uma peça de Shakespeare calçado com chuteiras, gola levantada, peito aberto e uma frase pronta para deixar os jornalistas, os árbitros e os psicanalistas a coçar a cabeça.
Cantona, documentário de David Tryhorn e Ben Nicholas apresentado nas Sessões Especiais do Festival de Cannes 2026, podia chamar-se simplesmente A Flor do Mal. Ou melhor ainda: “Eu Não Sou um Homem. Sou Cantona”, uma fala do filme Looking For Eric (2009), do realizador britânico Ken Loach e curiosamente escrito por Paul Laverty, um dos membros do júri da Competição de Cannes 2026. Porque é disso que se trata. Não exatamente de um futebolista, nem apenas de um ator, nem somente de uma antiga estrela do Manchester United. Trata-se de uma personagem. Uma dessas figuras que a realidade inventa quando percebe que a ficção está sem coragem.
O filme parte de uma ideia irresistível: o jogador mais talentoso da sua geração estava acabado aos 25 anos. Pelo menos era o que parecia. Em França, Cantona já tinha feito praticamente tudo o que um jogador podia fazer antes de ser expulso da família respeitável do futebol: discutiu, insultou, atirou bolas, chutou egos, pontapeou convenções e conseguiu transformar cada clube por onde passava num seminário intensivo sobre gestão de fúria. Chamaram-lhe ingovernável. O que, no futebol francês, costuma significar duas coisas: ou se é de facto insuportável ou se pensa pela própria cabeça. No caso dele, convém admitir, eram provavelmente as duas.
O indisciplinado que precisava de um pai
A grande inteligência do documentário, dividido em 5 temporadas, como se fossem capítulos ad vida do astro do futebol, está em perceber que a história de Cantona não é apenas a história de um rebelde. Rebeldes há muitos, sobretudo quando há câmaras por perto. A história de Cantona é a de um rebelde que encontrou em Sir Alex Ferguson não um polícia, mas um pai adotivo com sotaque escocês e secador de cabelo incorporado. Ferguson, o mais rigoroso dos disciplinadores, — que o diga por exemplo, também Cristiano Ronaldo ou David Beckham — percebeu aquilo que muitos treinadores franceses tinham recusado ver: que aquele vulcão não precisava de ser apagado, precisava de ser bem canalizado, para as quatro linhas. O francês marcou 82 golos e conquistou 4 vezes a Premier League ao lado de Ferguson.
E foi assim que o Manchester United, então ainda a preparar o seu grande império dos anos 90, e as suas grandes vitórias na Premier League, recebeu um francês que parecia ter saído de uma ópera proletária marselhesa e o transformou num rei de Old Trafford. Não foi apenas um jogador importante. Foi a faísca. Foi o gesto inaugural. Foi a gola levantada antes de a arrogância se tornar departamento de marketing e negócio de audiências televisivas globais. Foi o homem que entrou em Old Trafford e disse, mesmo sem dizer: agora isto volta a ser perigoso.
Cantona não jogava como quem cumpre uma posição dentro do campo. Jogava como quem faz uma declaração política contra a mediania. Tinha corpo de avançado, pés de artista e cabeça de manifesto. O passe curto parecia desprezo. O remate parecia sentença. O olhar, esse, parecia sempre acusar alguém de não estar à altura do momento. Havia nele qualquer coisa de aristocrata operário, um rei sem coroa, mas com cartão vermelho dos árbitros, sempre à mão.
A voadora, as gaivotas e o teatro do absurdo
Claro que não há Cantona sem a voadora. Seria como falar de Fellini sem circo, de Buñuel sem escândalo. O pontapé de karaté a um adepto do Crystal Palace, em 1995, tornou-se um daqueles momentos em que o futebol deixou de ser futebol e passou a ser instalação artística, processo disciplinar, escândalo nacional e sketch involuntário.
O mundo esperava arrependimento, lágrimas, uma narrativa de redenção com música de piano e olhar para o horizonte. Cantona deu-lhes gaivotas e sardinhas. A célebre conferência de imprensa, em que falou de gaivotas a seguirem o arrastão, continua a ser uma das maiores performances dadaístas alguma vez produzidas por um futebolista suspenso. Os jornalistas ficaram sem saber se tinham assistido a uma desculpa, a um poema, a uma provocação ou a uma fuga fiscal ao bom senso.
E é aí que Cantona se torna maior do que o incidente. Porque ele nunca se comportou como alguém interessado em ser compreendido à primeira. Preferia ser mal interpretado com grandeza a ser aceite com mediocridade. O que, convenhamos, é uma estratégia arriscada, mas muito mais interessante do que dizer “foi um jogo difícil, agora é levantar a cabeça e pensar no próximo adversário”.
O cinema percebeu o que o futebol já desconfiava
Quando deixou o futebol, aos 30 anos, Cantona não se reformou. Mudou apenas de relvado. O cinema acolheu-o porque o cinema, quando está atento, reconhece uma personagem antes de reconhecer um ator. E Cantona já vinha pronto. Tinha rosto, silêncio, corpo, mito e aquela capacidade rara de parecer simultaneamente perigoso e melancólico, como se a qualquer momento pudesse citar Baudelaire ou partir uma cadeira.
Em Elizabeth, de Shekhar Kapur, apareceu ao lado de Cate Blanchett. Depois vieram papéis em comédias, dramas, séries, filmes de autor e esse pequeno milagre chamado À Procura de Eric, de Ken Loach, onde interpretava uma versão fantasmática de si próprio, uma espécie de santo padroeiro dos carteiros deprimidos, dos adeptos sem esperança e dos homens que chegam ao fim do dia sem saber exatamente onde deixaram a vida. Poucos ex-futebolistas poderiam fazer aquilo sem parecerem figurantes de si mesmos. Cantona podia. Porque já era espectro antes de ser ator.
Agora, em Cannes, regressa como objeto de documentário e como criatura de cinema. David Tryhorn e Ben Nicholas, que já tinham trabalhado sobre Pelé e Luís Figo, sabem que aqui o material é diferente. Pelé é o rei solar. Figo é o profissional da transferência impossível. Cantona é outra coisa: é o profeta de gola levantada, o homem que transformou a má educação em estilo, a insubmissão em marca e a contradição em património.
Lisboa, o mar e o rei em modo azulejo
A ironia deliciosa, para nós, portugueses, é que este homem que incendiou Inglaterra e desorientou França acabou por encontrar em Lisboa uma espécie de pouso. Diga-se, isto não aparece no filme. Vive por cá com Rachida Brakni e a família, entre a cidade, a escola francesa dos filhos e uma vida virada para o mar. Cantona, que chamou a Lisboa o Rio de Janeiro da Europa, parece ter descoberto aqui aquilo que muitos estrangeiros descobrem tarde demais: que Portugal tem uma capacidade extraordinária para acolher pessoas intensas, desde que elas não tentem estacionar em Campo de Ourique à hora de almoço.
Há qualquer coisa de perfeito nesta imagem: Cantona em Lisboa, entre azulejos, sol, Atlântico, crianças, música, pintura, talvez um copo de vinho, talvez uma frase impossível. O homem que parecia destinado a discutir eternamente com árbitros encontrou uma cidade onde se pode discutir com a humidade, com as obras, com os tuk-tuks, com os preços das casas e com a saudade, essa entidade que ele, sendo francês, provavelmente pronuncia melhor do que muitos comentadores de futebol pronunciam “gegenpressing”. Não é difícil imaginá-lo a olhar para o Tejo como quem olha para Old Trafford depois de um golo. O mesmo dramatismo, menos relva. A mesma pose, mais luz. A mesma impressão de que, se uma gaivota passar demasiado perto, talvez seja convocada para uma reflexão sobre o destino.
O futebol como arte de personalidade
O que este documentário recorda, e bem, é que Cantona pertence a uma época em que os futebolistas ainda podiam ser inconvenientes sem primeiro consultar a equipa de comunicação. Hoje, um jogador publica uma frase ligeiramente ambígua no Instagram e há logo comunicado, esclarecimento, vídeo com lágrimas, hashtag de superação e patrocínio de bebida isotónica. Cantona, não. Cantona dizia uma barbaridade poética e seguia caminho, deixando atrás de si uma sala cheia de adultos pagos para explicar o inexplicável.
E talvez seja por isso que continua a fascinar. Não porque fosse exemplo de comportamento, longe disso era uma verdadeiro arruaceiro em campo. Cantona não é propriamente material para manuais de cidadania desportiva do ensino básico. Mas era real. Era inteiro. Era irritante, brilhante, perigoso, leal, teatral, insuportável e magnético. Um verdadeiro cromo da bola, no melhor sentido: daqueles que não se repetem, não se colam facilmente na caderneta e, quando aparecem, obrigam toda a gente a reorganizar a coleção.
No fundo, Cantona não é apenas um documentário sobre futebol. É um filme sobre a possibilidade de alguém escapar à domesticação. Sobre um homem que precisou de ser amado por um treinador para não ser destruído pelo seu próprio fogo. Sobre um atleta que percebeu que a fama era pequena demais para a sua mitologia. Sobre um actor que já representava antes de entrar no plateau. Sobre um francês que foi rei em Manchester e encontrou descanso em Lisboa.
Cantona nunca foi apenas um homem. Também nunca foi apenas um jogador. Foi uma interrupção. Um distúrbio. Uma frase sem pontuação, um poema. Uma flor do mal plantada no relvado inglês. No Festival de Cannes onde tanta gente sobe escadas para provar que existe, ele continua a fazer o contrário: apareceu de chapéu preto na cabeça, levantou a gola invisível, olhou para o mundo, de mão dada com a mulher, a atriz Rachida Brakni, como quem acabou de inventar uma nova forma de desprezo elegante. E lembrou-nos que algumas figuras como ele, não precisam de uma Palma de Ouro, de uma Bola de Ouro ou de uma estátua em bronze. Basta-lhes ser: Cantona.