Quando, a dada altura, foi questionado sobre a inspiração para o êxito Smells Like Teen Spirit, Kurt Cobain, o líder dos Nirvana, limitou-se a responder que “estava a tentar imitar os Pixies”. Sem eles, tudo teria sido diferente. Possivelmente, o rock independente não teria então saltado para fora do seu circuito de pequenos clubes, tornando-se na “indústria” que é hoje, como se comprova, anualmente, nos alinhamentos dos principais festivais de música por todo o mundo Portugal incluído (ver caixa). O “alternativo ” quase se tornou “mainstream”. Mas isso são meras conjeturas, e o que fica para a história é o legado de uma obscura banda de Boston, EUA, formada em 1986 pelos colegas de faculdade Charles Thompson (vocalista e guitarrista, com o nome artístico Black Francis) e Joey Santiago (guitarrista), aos quais se juntariam mais tarde a baixista Kim Deal e o baterista David Lovering. Entre 1988 e 1991 editaram quatro discos, feitos de uma mistura entre punk, noise e surf rock, com letras bizarras sobre ficção científica, religião, sexo e não-se-percebia-bem-o-quê.
No final dos anos 80, eles simbolizavam a contracultura e cedo se tornaram uma banda de culto para toda uma geração (e para as que se seguiram), influenciando, como poucos, o rock alternativo das décadas seguintes, num legado talvez apenas comparável ao dos Velvet Underground. Uma meteórica carreira, terminada, abruptamente, em 1993, pelo vocalista Black Francis, que informou via fax os restantes elementos do fim da banda, numa altura em que haviam sido convidados para fazerem a primeira parte da digressão americana dos U2.
A primeira reunião, nos palcos, aconteceu em 2004, num regresso apoteótico, com concertos esgotados por todo o mundo, que teve o seu auge nos oito espetáculos seguidos que deram nesse mesmo ano no Hammerstein Ballroom, em Nova Iorque, para mais de 25 mil pessoas. A banda continuaria na estrada nos 7 anos seguintes fazendo valer o seu velho reportório, que, mais de duas décadas depois, continuava a arrastar multidões na verdade, muito mais do que nos velhos tempos. Aos poucos, a pergunta começou a impor-se: e um novo disco, para quando? A resposta só surgiu, incompleta, no final do ano passado, com o lançamento de quatro novos temas, reunidos num EP, apenas intitulado 1, ao qual se seguiriam o 2 e o 3, todos lançados na internet e vendidos apenas no site oficial do grupo. Quando já poucos o esperavam, os Pixies estavam verdadeiramente de regresso com um punhado de novas canções, as primeiras desde o álbum Trompe Le Monde, editado em 1991.
Agora a três
Quando, a 13 de junho de 1991, se apresentaram pela primeira vez em Portugal, num memorável concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, estavam no auge da carreira. No final do ano passado voltaram a esse mesmo local e, por vezes, parecia que nada tinha mudado. O concerto esgotou semanas antes e a excitação do público era comparável à de então. Apesar de não ser o primeiro regresso a território nacional, desta vez traziam músicas novas e só isso já era um acontecimento.
Horas antes de subirem ao palco do Coliseu, falámos com a banda no bar de um hotel lisboeta. Os miúdos rebeldes do final dos anos 80 são hoje respeitáveis homens de meia-idade, mas o entusiasmo, garantem, continua o mesmo. “Estamos muito felizes enquanto banda. As diferenças desses primeiros tempos para agora são gigantescas, temos um público muito mais vasto e também muito mais jovem, o que é ótimo.
Isso acontece porque houve muitas bandas que surgiram depois de nós e nos nomeiam como uma das principais influências… Por isso, os miúdos querem conhecer-nos.
E como nós, a certa altura, desaparecemos, o nosso regresso criou um enorme entusiasmo “, explica o baterista David Lovering.
Sentado ao seu lado está o guitarrista Joey Santiago e, mais tarde, junta-se à conversa o vocalista Black Francis ou Charles, como é conhecido pelos colegas. A baixista Kim Deal, peça fundamental na formação original e na identidade da banda, abandonou entretanto a banda, numa decisão que deixou marcas. “Foi uma opção dela, não somos a primeira banda a enfrentar esse desafio…
E a verdade é que às vezes as coisas até melhoram depois da saída de alguém”, responde, de forma seca, Black Francis, não voltando mais ao assunto. É sabido que as discordâncias de Kim Deal com os restantes elementos eram antigas e acentuaramse ainda mais quando, no final de 2012, eles decidiram voltar a estúdio. Insistimos no assunto, mas a resposta foi a mesma, lacónica: “Ela não estava interessada em continuar.
” Para o seu lugar entrou Kim Shattuck, entretanto despedida e substituída por Paz Lenchantin, uma baixista de origem argentina (que apenas os acompanha nas atuações ao vivo, não fazendo, por isso, realmente, parte do grupo).
E foi já reduzidos a trio que os Pixies gravaram as novas músicas, numa decisão mantida em segredo até ao último momento. Para tal, contaram com a colaboração do produtor britânico Gil Norton, que já havia trabalhado com a banda nos álbuns Doolittle, Bossa Nova e Trompe Le Monde. “Fazer um disco novo era algo que queríamos muito, mas estava a ser um processo difícil. A dada altura pensámos que o melhor seria convidar o nosso antigo produtor, Gil Norton, para desbloquear o processo, e foi aí que realmente tudo recomeçou.
Ele trouxe-nos uma nova energia e ajudou-nos a descobrir qual o tipo de canções que melhor se adequavam a nós nesta fase. Do género: ‘Imaginem que estiveram algures no espaço durante 20 anos e regressaram agora, que música querem fazer?’. Soa um pouco tonto, mas na altura, para nós, fez sentido e trouxe-nos toda uma nova energia, que nos puxou para fora da nossa zona de conforto”, conta o vocalista.
Vê-se que falar das novas músicas o entusiasma.
De repente, o silêncio constrangedor, provocado pelo “assunto Kim Deal”, dá lugar a uma animada conversa. “Queríamos voltar ao campeonato principal, ser julgados pelo que fazemos agora e não viver só dos louros do passado”, diz Charles. “Há muitos anos que falávamos disto, já estávamos a tocar juntos, outra vez, desde 2004 e nunca mais tínhamos feito nada de novo… Sabíamos o risco que corríamos, porque nem sempre estes regressos correm bem, devido às altas expetativas criadas com a passagem do tempo, mas não nos queríamos tornar numa banda de casino”, afirma David Lovering.
“Era algo que queria muito que acontecesse, porque adoro esta banda. Agora, vai ser muito interessante ver a reação dos fãs ao novo material”, afirma Joey Santiago, que não tem dúvidas: “Soa mesmo a Pixies.”
Finalmente, o disco
À data dessa conversa, em novembro do ano passado, ainda não era certo que as novas canções iam dar lugar a um disco. “Essa é a questão que hoje em dia se coloca para qualquer músico. Nós ainda estamos muito ligados, emocionalmente, ao formato LP, mas as novas gerações já não sentem o mesmo. Será que, nos dias que correm, ainda faz sentido lançar um álbum? Essa é a pergunta para um milhão de dólares”, argumentou então Black Francis. Sim, porque em apenas 20 anos tudo mudou na indústria musical.
“A música ouve-se de borla na internet e as bandas passam hoje muito mais tempo a tocar ao vivo, porque foi para aí que se mudou a energia… e o dinheiro. Das editoras às lojas de discos, pode-se desconstruir toda a indústria, mas não se pode fazer o mesmo em relação aos concertos. Isso é algo que a era digital não conseguiu substituir, porque as pessoas continuam a querer ver ao vivo os seus artistas favoritos, talvez ainda mais agora”, explica o músico, que nessa noite, no Coliseu dos Recreios, veria novamente provadas as suas palavras.
O anúncio de um novo álbum, Indie Cindy, cujo lançamento está previsto para o próximo dia 28, só seria finalmente confirmado em março. Voltámos então a falar com Black Francis, desta vez ao telefone.
“Olá, como estás?”, ouve-se do outro lado da linha, num português quase perfeito. Recordamos-lhe as suas palavras de há poucos meses atrás, sobre a tal “pergunta para um milhão de dólares” para a qual, aparentemente, já teria encontrado resposta. “Não era mesmo suposto lançarmos um disco. Muita gente pensa que tudo isto foi estratégia, mas não é verdade. O lançamento dos EPs foi pensado daquela forma para avaliar como a indústria e a imprensa reagiam e também porque chegámos à conclusão de que essa seria a melhor forma de promover as novas músicas enquanto estávamos em digressão”, confessa. “Essa é a faceta mais aborrecida deste trabalho, porque, afinal de contas, somos apenas artistas. Podemos falar disso de vez em quando, ao jantar ou depois dos concertos, enquanto bebemos umas cervejas, mas não passamos o tempo sentados a pensar em estratégias para vendermos mais! Aliás, temos gente que faz isso por nós. De resto, somos muito honestos naquilo que fazemos”, sublinha. Pela mesma razão, a reação dos fãs ao novo disco é algo que também não o preocupa demasiado.
“Estamos mais pop? Sem dúvida, estamos mais pop do que no tempo do Surfer Rosa [risos]. Há um certo preconceito com a pop, mas o segredo é não nos importarmos demasiado com o que fazemos, afinal de contas isto é só rock and roll!”