Receberam perto de quatro mil filmes para selecionarem 35. “Um trabalho hercúleo”, segundo o escritor Possidónio Cachapa, 45 anos, programador do IndieJúnior que na edição deste ano, quer chegar (ainda mais) ao público adolescente. Tendo sempre como objetivo mostrar o que de melhor se faz no mundo do cinema para a faixa etária dos três aos 18 anos, o Júnior pretende, nas palavras do seu ideólogo: “Ajudar a criar melhores cidadãos, mais cultos, mais abertos ao mundo, à arte e aos outros”. A programação divide-se em duas subsecções ‘Escolas’ e ‘Famílias’ e os filmes em sessões de longas e de curtas metragens, para o público pré-escolar, do 1.º, 2.º e 3.º ciclos e do Ensino Secundário. Passam no cinema São Jorge, na Culturgest e no recém inaugurado Teatro do Bairro. Paralelamente à exibição dos filmes, o Júnior disponibiliza uma série de workshops de criação cinematográfica, artística e científica realizados em parceria com entidades como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu Berardo ou as Bibliotecas Municipais de Lisboa. A programação completa está disponível em www.indielisboa.com/indiejunior.
São já sete as edições do Júnior. Quais os seus sonhos para esta secção do Indie?
Possidónio Cachapa: Parte do meu sonho já se tornou realidade: o Júnior é uma montra do melhor que se faz no mundo do cinema na faixa etária dos 3 aos 18 anos. Por outro lado, gostava que o Júnior servisse para criar melhores cidadãos. Que, ano após ano, ajudasse os miúdos a tornarem-se pessoas mais cultas, mais abertas ao mundo, à arte e aos outros. Penso que as crianças que estão em formação precisam desesperadamente de coisas sólidas do ponto de vista cultural e científico.
Além da programação dedicada aos estúdios Folimage, a edição deste ano parece apostar em filmes franceses. Porquê?
Não se trata de uma aposta. A nossa perspetiva é sempre a diversidade mas, em termos práticos, França é um dos países que mais produz. Recebemos cerca de 700 filmes franceses. Naturalmente, no meio dessa quantidade, há muitos filmes bons.
Este ano, o ‘Foco IndieJúnior’ são os estúdios Folimage. Como surgiu esta ideia?
Temos uma ligação com o Folimage há algum tempo, acompanhamos tudo o que vão produzindo e os seus filmes fazem sempre parte da nossa programação. Além disso, adquirimos alguns para o ‘Escolas’. Como se trata de um dos mais ativos estúdios de animação da Europa, pensamos que era altura de lhes darmos carta-branca para proporem um programa completo. Este ano, a nossa grande tónica é o alargamento a um público mais velho, até aos 18 anos, com um destaque para os adolescentes (mais de 14). Como os filmes Folimage cruzam esses públicos achamos que eram uma boa aposta. Trata-se de uma espécie de best of dos últimos 20 anos de produção.
É por causa desse desejo de chegar aos adolescentes que há mais filmes em imagem real?
Não obrigatoriamente. É verdade que há vontade de alargar o público adolescente, que é muito forte na sub-secção ‘Escolas’, mas não fora dela, mas termos mais ficções em imagem real tem a ver sobretudo com a produção mundial do género. Recebemos muitas longas de animação, mas não as consideramos suficientemente fortes, pelo menos por comparação com as ficções. A nossa programação é sempre o resultado da seleção dos inúmeros filmes que nos chegam sobre os quais ponderamos os prós e os contras. Claro que temos pena que não haja uma longa-metragem para os miúdos mais pequenos. O Júnior tem uma desvantagem, que acaba por ser uma grande vantagem: temos um número de sessões limitado em função dos ecrãs e dos orçamentos. Isso significa que a nossa escolha é muito rigorosa e seletiva.
Novidades desta edição são as parcerias com a Gulbenkian, com o Pavilhão do Conhecimento e com as Bibliotecas de Lisboa. Como se vão consubstancializar?
Acreditamos que o cinema se liga a diversas áreas e queremos mostrá-las. É como se o cinema explodisse em várias direções. Para isso, ninguém melhor do que os parceiros especializados para nos proporem ideias. Nesse sentido, a Gulbenkian propôs-nos o programa Descobrir. O workshop chama-se Memória aos Quadradinhos, nele fazem uma ligação curiosa com imagens das exposições, transformando-as em histórias num filme que os miúdos constroem. O serviço educativo do Pavilhão do Conhecimento criou um workshop que mostra os processos científicos que estão por trás da realização de um filme. As bibliotecas criaram um workshop no Palácio Galveias, no qual trabalham as atmosferas, através do som dos jardins e do interior das bibliotecas. Os miúdos (e os pais) vão tentar captar todas estas atmosferas e ligando-as ao universo dos livros e da leitura.
Voltam a acolher o ‘Programa Escolhas’…
Para nós é muito importante. É uma parceria que o IndieJúnior tem há vários anos. É o nosso lado de intervenção social, pois trazemos para o festival aqueles que tem menos oportunidades, mostramos-lhes coisas que não veriam na esperança de assim promovermos a cidadania e a integração. É por isso que fazemos sempre um debate. Trazemos responsáveis pelos programas, mas também jovens adultos que dão o exemplo de como através da criação artística mudaram as suas vidas. Criámos um programa específico para eles e oferecemos os bilhetes a famílias e a miúdos destes programas. Além disso, vamos apresentar um documentário do Miguel Cabral com dez depoimentos de jovens deste programa. Queremos mostrar alguns casos de sucesso para que miúdos que andam um pouco à toa tenham algumas referências. Precisamos de lhas dar para que saibam que é possível mudar. E usamos o cinema para isso.
DESTAQUES
As mãos no ar, de Romain Goupil
Esta é a história de Milana, que em 2067, passa em revista a sua vida, lembrando-se de quando era uma jovem imigrante chechena a viver em Paris. Segundo Cachapa: “É um filme extraordinário que tem muito a ver com o tempo que vivemos. Questiona-nos sobre o modo como as sociedades reagem ao fenómeno da emigração, como as pessoas se integram, e o que é possível ao cidadão – representado por um grupo de miúdos – fazer pelos outros”.
São Jorge, a 7, às 18 e 45; e a 13, às 14; na Culturgest, a 6, às 14;
O mito americano de dormir fora, de David Robert Mitchell
Maggie, Rob, Claudia e Scott são quatro jovens que procuram o amor e a aventura numa última noite de Verão nos subúrbios de Detroit. “É um filme muito interessante do ponto de vista cinematográfico que permite aos miúdos mais velhos tomarem contacto com formas de filmar mais elaboradas dentro de temáticas que lhes interessam. O que acontece quando eu abandono o ninho da minha casa?, é uma das perguntas que lança”.
Culturgest, a 7, às 19 e 15; e a 15, às 16 e 45;
O último Troll da Noruega, de Pjotr Sapegin
O último troll da Noruega passeia-se pelas estradas do campo do país. Descobrimo-lo muito simpático, tranquilo, mas um bocadinho solitário. “É uma animação muito bonita e simbólica sobre a passagem do tempo. Sobre a maneira como os seres disformes vivem as suas relações com o mundo e com a beleza”, diz-nos Possidónio Cachapa.
São Jorge a 7, às 15; a 10, às 14; e a 13, às 10 e 30;
Programação IndieJúnior Pré-escolar
“É muito diversificada, didática e divertida. Tem animações fantásticas. Uma sobre como se gerem os sentimentos quando dois irmãos se zangam – Quem está zangado? – outra que tem a ver com a roupa e com o vestir De quem são as calças? São filmes muito cómicos e com grande rigor de animação. Nunca escolhemos um filme só porque ele é didático. Em primeiro que tudo tem que ser cinema.”
Culturgest, a 6, a 10 e a 12, às 10 e 30; a 7, às 16; no Teatro do Bairro, a 8 e a 15, às 11 e 30; e no São Jorge, a 13, às 10 e 30;