Julgo que é a primeira vez que começo a falar de um filme pela capa. Ou seja pelo seu cartaz de apresentação. Mas é que este é deveras intrigante – e até mais passível de comentários ou de algum tipo de elaboração desenvolvida do que o próprio filme. Primeiro, porque que o cartaz do filme é de um cor-de-rosa assumido, mas não tem nada a ver com o universo Barbie, Hello Kitty ou Paris Hilton. E no entanto, é um filme sobre mulheres. Mas a tagline deixa-nos perplexos porque diz “Tudo o que sempre quis saber sobre as mulheres… mas nunca ousou perguntar”. Ou seja, parece uma piscadela de olho ao espectador masculino. Mas não vejo em que é que um espectador masculino se possa interessar mais pelo tema do filme do que o espectador feminino. Esta (re)citação, além de ousada, é do mais publicitário enganoso que se tem visto por aí. Porque a única coisa de que se fala durante o filme inteiro é de planeamento familiar, de contracepção, abortos e preservativos… E francamente, as mulheres não se reduzem a um par de ovários, um útero e o respectivo colo. Sim, fala-se de sexo, o que sempre atraiu irresistivelmente o cinema. Mas de sexo técnico, na sua vertente completamente destituída de algum do seu potencial interesse. É sexo biológico, anatómico e funcional, que se passa lá nas interioridades dos nossos órgãos reprodutores. Portanto, deixá-los estar na sua obscuridade, ou quando muito remetidos para as aulas de anatomia da faculdade ou para as educação sexual que tanto demandam para os liceus.
Em Consultórios de Deus (o nome é o que mais destoa no meio de toda esta desarmonia do cor-de-rosa, da tagline e dos meios anti-concepcionais), a realizadora francesa Claire Simon, mais conhecida pelos seus documentários, mostra-nos o dia-a-dia quase real num Centro de Planeamento em Paris. Assistimos às consultas das assistentes sociais com as adolescentes em dúvidas sobre o meio anticoncepcional adequado, depois as assistentes fazem uma pausa para beber café, depois fazem reuniões e têm conversas banais, depois um médico explica como colocar o preservativo e encaminha casos de aborto para clínicas, algumas em Espanha. É de uma extraordinária banalidade – e às vezes este paradoxo até pode funcionar num filme, se for explorado com algum olhar específico ou tendo em vista atingir determinado efeito. Aqui, Claire Simon, agarrou nas reais palavras gravadas de várias entrevistas verdadeiras, pegou numa série de mulheres não actrizes com características semelhantes às reais, e reconstitui-as para o filme, em takes únicos, sendo que as assistentes sociais ou psicólogas são todas actrizes profissionais, algumas até bem conhecidas, – o que cria uma artificialidade de origem.
Se a ideia era representar o real não se percebe porque não recorreu a realizadora ao registo documental. Se a ideia era dramatizar, não se percebe porque seguiu as exactas consultas registadas, palavra por palavra. É mesmo um daqueles casos em que é merecida a expressão: não vale a pena dramatizar. Para real, já nos basta… a realidade. Imagine-se um filme em que as consultas não são de planeamento familiar, mas de clínica geral – só que sem o Dr. House. Ou um filme sobre consultas de advocacia – só que sem Perry Mason . Ou um filme sobre reuniões de jornalistas (horror dos horrores) só que sem a Murphy Brown. Ou um filme sobre encontros de espermatozóides sem Woody Allen. Ou um filme sobre reuniões de condóminos, só que sem o Ricardo Araújo Pereira.
