Querida Chéu,
Tentando responder à tua última carta, apercebo-me que a vergonha também me serve de ânimo e de combustível para escrever. Porque a vergonha que não está do meu lado também é minha, apesar de alheia, e tenho muita vergonha ultimamente de não dizer nada sobre estes dias que correm e sobre este nosso modo de vida que se desmorona, enquanto nas ruas as nossas filhas, primeiro no Porto, depois em Lisboa e agora por todo o País, se manifestam e exigem que lhes devolvam o futuro que já lhes roubámos. Os noticiários, os telejornais e as plataformas sociais concentram-se em minudências como: Pode-se acampar ou não se pode acampar depois da meia-noite? Faz sentido usar um lenço da Palestina num protesto pelo direito à habitação ou é confundir causas? Os líderes e oradores destas acampadas são todos estrangeiros e falam mal português? Há agitadores perigosíssimos que estão a apelar à violência ameaçando com tijolos a integridade física do senhor primeiro-ministro? Como se sente o senhor primeiro-mnistro? Os manifestantes estão a portar-se bem ou não? Dentro da legalidade ou não? O ministro pronunciou mal “egoisticamente”? E “acampada”? Que palavra tão feia é essa?
Tudo é matéria para gastar minutos de antena nos meios de comunicação e evitar que se fale de habitação.
Ninguém escreve: Maricarmen Abascal, de 87 anos, morreu de despejo no hospital Gregorio Marañón, em Madrid, duas semanas após ter sido obrigada a abandonar a casa onde habitou durante sete décadas, após ver a sua renda de 500€ aumentar para 1650€ quando a sua pensão era de 1500€. A decisão dos senhorios foi revertida após longos protestos nas ruas, mas o buraco que fez no coração da octogenária não fechou a tempo.
Ninguém escreve: casos de saúde mental aumentam entre jovens adultos que sentem que nunca vão ter casa, não têm trabalho, não têm dinheiro.
Ninguém escreve: Não ter futuro encurta o tempo médio de vida. Impedir de sonhar é impedir de imaginar um mundo melhor. Impedir de imaginar um mundo melhor é causar insónias. Ter insónias é…
Ninguém escreve: PIB aumenta enquanto cidade em tempos luminosa definha nos braços de nómadas digitais que gastam aqui as fortunas que ganham com algoritmos e de solteiros que fazem festas de despedida no Bairro Alto antes de se casarem em países mais ricos.
Ninguém escreve: jovem de 19 anos que paga 500€ por um quarto com percevejos nos arredores do Porto para poder estudar na universidade acaba noite da acampada a dormir em casa de um desconhecido que lhe estendeu a mão porque a polícia que carregou sobre os manifestantes deitou fora tendas, malas e mochilas que guardavam pertences e mesmo chaves desses malditos quartos, impedindo os jovens de dormir nas tendas ou mesmo nos seus buracos com camas a que chamamos casas de aluguer (e esta história foi-me contada em primeira mão).
Como diz Chico Buarque, “a nossa dor não vem no jornal”.
Tenho saudades, Chéu, da minha cidade de eleição, aquela à qual sonhei regressar e para a qual sempre quis contribuir durante anos. A Lisboa que me deu liberdade para criar e viver os meus sonhos não existe.
Lojas gigantes, as maiores da Europa (assim se anuncia a Zara que transformou a Praça da Figueira num deserto sem alma) e casas que fornecem pastéis de nata mais ou menos amanteigados e que fecharam as padarias e os quiosques de jornais mais catitas transformaram as ruas onde cresci num cenário frágil para turistas que não pernoitem mais de dois dias na cidade (para não darem conta do que se passa atrás das fachadas luminosas e em “bom português”).
Já nenhum de nós mora em Lisboa. Já ninguém mora perto do local de trabalho. Fomos todos despejados ou fizemos contas à vida e saímos antes de ficarmos sem rede. E passamos horas em transportes que não funcionam, conduzidos por motoristas exaustos e com salários vergonhosos, vivemos longe da família da qual não podemos cuidar nem ajudar-nos a cuidar dos nossos, vivemos longe da escola dos filhos que, três meia-volta, fecha por causa das greves dos professores, por causa das greves de auxiliares, por causa de problemas técnicos ou sanitários, por causa da não colocação de professores que se recusam a aceitar trabalhos em cidades onde não conseguem viver com os salários oferecidos. Estamos a adoecer. O nosso modo de vida está a ruir, e por vezes pergunto-me: Será que quem tem casas, e agora as arrenda por preços astronómicos, quando se deita na sua segunda, ou terceira casa, tem pesadelos à noite com a penúria e a desgraça dos seus pares?
Será que os políticos que estacionam os seus lucros em imóveis, em pousadas de luxo, e em negócios de vinhos para fugir aos impostos e continuar a valorizar as suas fortunas, se afligem ao ver os amigos dos seus filhos a viver à mingua?
Terão vergonha?
Perceberão que são responsáveis pelo desalento, pela revolta, até pela raiva que começa a trepar pelas paredes que escondem o seu luxo dos demais? Acreditarão mesmo que o melhor que têm a dizer é aconselhar quem grita a portar-se bem?
Em tempos, Thoreau foi preso por desobediência civil por se recusar a pagar impostos que, sabia, contribuíam para a guerra americana-mexicana. Contam as lendas que Emerson o visitou e lhe perguntou:
– Que disparate é este? Que fazes tu na prisão, Thoreau?
Ao que Thoreau respondeu:
– Que fazes tu aí fora, Emerson?
Que podemos nós fazer Chéu, senão juntarmo-nos ao cordão humano, juntarmo-nos à insurreição popular, darmos o braço às nossas filhas e “quebrar duas regras pequeninas por dia para nos habituarmos à ideia de um dia quebrarmos uma regra muito maior?”*
*in Mercado das Madrugadas, Bicho do Mato
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela