Enquanto jovens, todos os dias nos dizem que somos o futuro.
Ouvimos essa frase em campanhas institucionais, discursos políticos, cerimónias de finalistas e conferências. Dizem-nos que será a nossa geração a enfrentar as alterações climáticas, a proteger a democracia, a combater a desinformação, a reduzir desigualdades e a encontrar respostas para problemas que hoje ainda parecem não ter solução.
Mas o curioso é que continuamos a ser educados como se o futuro fosse apenas uma versão ligeiramente diferente do passado.
A minha geração cresceu a ver o mundo entrar pela palma da mão.
Assistimos a guerras em direto no telemóvel antes de aprendermos geografia suficiente para as compreender. Vivemos uma pandemia quando ainda estávamos a descobrir quem éramos. Crescemos a ouvir que o planeta está em risco, que as democracias enfrentam desafios crescentes e que, muito provavelmente, teremos uma vida mais incerta do que a dos nossos pais.
Nunca tivemos tanto acesso ao mundo. E talvez nenhuma geração tenha sentido tão cedo o peso de o compreender.
Apesar disso, continuamos a acreditar que a principal missão da escola é preparar os alunos para um exame.
Medimos o sucesso pela capacidade de memorizar conteúdos, quando aquilo que o mundo nos exige é precisamente o contrário: interpretar contextos, lidar com a incerteza, resolver problemas inéditos, trabalhar com quem pensa de forma diferente e tomar decisões responsáveis perante uma realidade cada vez mais complexa.
Pedimos aos jovens pensamento crítico, criatividade e participação cívica. No entanto, continuamos a avaliá-los, sobretudo, pela capacidade de repetir respostas certas.
Há uma contradição difícil de ignorar numa escola que prepara alunos para dar respostas quando o mundo lhes pede, cada vez mais, que saibam formular as perguntas certas.
Durante décadas perguntámos à educação o que devia ensinar. Talvez tenha chegado o momento de lhe perguntar que cidadãos pretende formar.
Porque o maior desafio da minha geração não é encontrar respostas. É aprender a navegar num mundo onde existem respostas a mais e certezas a menos. O que hoje faz a diferença não é a quantidade de conhecimento acumulado, mas a capacidade de interpretar a realidade, questioná-la e decidir com responsabilidade.
Quando se fala em reformar a educação, o debate centra-se quase sempre em disciplinas, programas, exames ou tecnologia. São discussões importantes. Mas deixam frequentemente por responder à pergunta essencial: Estaremos, de facto, a preparar os jovens para o mundo que vão encontrar?
Os grandes desafios deste século não chegam enunciados numa folha de exame. Aparecem sob a forma de notícias contraditórias, decisões éticas, conflitos sociais, tecnologias que evoluem mais depressa do que a legislação, crises ambientais, fenómenos de desinformação ou problemas para os quais ninguém conhece ainda a resposta.
Nenhum deles se resolve apenas com fórmulas, datas ou definições.
Exigem pensamento crítico. Inteligência emocional. Capacidade de diálogo. Responsabilidade cívica. Autonomia intelectual.
Exigem cidadãos capazes de compreender a complexidade antes de escolher um lado.
É precisamente por isso que acredito que a maior inovação de que precisamos não é tecnológica.
É educativa.
Durante demasiado tempo olhámos para a educação como um sistema de transmissão de conhecimento. Talvez esteja na altura de a reconhecermos como aquilo que verdadeiramente é: o lugar onde se formam cidadãos capazes de interpretar o mundo, participar na vida democrática, resolver conflitos e construir respostas para desafios que ainda nem conhecemos.
Ao mesmo tempo, importa questionar se não reduzimos a sustentabilidade a uma visão demasiado estreita.
Quando falamos em sustentabilidade, pensamos quase sempre em emissões de carbono, energias renováveis ou proteção ambiental. Tudo isso é indispensável. Mas esquecemo-nos, demasiadas vezes, de que nenhuma sociedade será verdadeiramente sustentável sem cidadãos capazes de pensar criticamente, dialogar com quem discorda e assumir responsabilidade pelas decisões coletivas.
A sustentabilidade não depende apenas dos recursos que preservamos.
Depende, acima de tudo, da qualidade das decisões que somos capazes de tomar enquanto comunidade.
E essas decisões começam muito antes dos parlamentos, das empresas ou das urnas.
Começam na forma como educamos quem um dia terá de decidir.
Talvez, por isso, seja tempo de deixarmos de olhar para a educação apenas como mais uma área da administração pública.
Porque antes de existirem cidades inteligentes, economias mais verdes ou democracias resilientes, existem pessoas capazes, ou incapazes, de as construir.
No fundo, a primeira infraestrutura da sustentabilidade nunca foi o betão, a eletricidade ou a tecnologia.
Foi sempre a educação.
E talvez a pergunta mais importante já não seja apenas que mundo vamos deixar às próximas gerações.
Talvez seja esta: Que geração estaremos a deixar ao mundo?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.