Um aluno de 12 anos teve uma suspensão disciplinar de dia por partilhar o lanche com os colegas. A medida foi aplicada esta terça-feira, 13, e a criança em causa não foi autorizado a entrar no espaço escolar.
Segundo se lê no documento assinado pela responsável da escola em Rio de Mouro (Agrupamento de Escolas Escultor Francisco dos Santos), Cristina Frazão, a atitude é considerada muito grave, “numa altura em que todos estão informados de que isso coloca em perigo o bem-estar de todos”. E justifica a sanção com base no princípio de se “incutir atitudes de respeito para com os outros e responsabilidade pelas atitudes tomadas”.

“Julgo que é preciso encontrar um equilíbrio que às vezes não é fácil. Temos de ter cuidado com a não propagação da Covid-19, mas também devemos respeitar a liberdade individual de cada um”, assinala Filinto Lima, presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas— sem querer, no entanto, avaliar o caso em concreto. “Não sabemos o contexto e os antecedentes. Se o aluno em causa já tinha sido avisado, porque o fazia por sistema, desrespeitando as regras. Ou se só partilhou o que tinha com um colega porque percebeu que este estava com fome…”.
À VISÃO, por email, Cristina Frazão diz apenas que “de momento, não está autorizada a prestar quaisquer declarações”. Ao que foi possível apurar, junto do Ministério da Educação, a diretora do agrupamento contactou de imediato o encarregado de educação do aluno e deu conhecimento disso aos serviços ministeriais. Pediu ainda que se divulgasse a sua posição, “para efeitos da reação da escola”.
Aluno ignora regras, diz a diretora
A diretora da escola, numa carta enviada aos encarregados de educação, a que a VISÃO teve acesso, em resposta à partilha do caso nas redes sociais, diz que por ter ficado retido, numa turma onde não conhece ninguém, o aluno procura a companhia de alunos de outras turmas, seus colegas no ano passado. “Algo que tem de ser rigorosamente evitado, mas que ele já ignorou por diversas vezes”, sublinha aquela responsável, acrescentando que também “já foi alertado para que, quando comesse, deveria afastar-se do grupo, algo que repetidamente ignora”. Além disso, insiste Cristina Frazão na mesma declaração, “também foram repetidamente avisados os alunos que não podem partilhar comida, como não podem partilhar material”. E justifica: “O que eu vi, após ter este grupo de alunos já referenciado pelos professores e pelos funcionários, foi um quarteto de meninos, de turmas diferentes, juntos, sem máscara e a dar dentadas na comida uns dos outros”.
Não se trata por isso, defende-se a dirigente escolar, “de uma generosidade do seu filho em pagar uma sandes ao colega, que surpreendentemente ainda não teria comido nada as 16h30 da tarde, mas sim de estarem a dar dentadas no mesmo alimento. Se eu pagar comida alguém, dou-lha. Não implica que essa pessoa abocanhe a comida que está na minha mão. São coisas diferentes. E este grupo de 4 estava a incumprir não apenas uma regra, mas varias: o uso obrigatório de máscara, a distância física, a distância quando se come e a mistura de turmas no intervalo. Tudo repetidamente e depois de avisados. A diretora de turma explicou tudo. Se não concordava, dirigia-se a mim. Pedia esclarecimentos.”
Cristina Frazão, dirigente daquele agrupamento desde 2009, explica ainda que “o plano de ação e contingência deu muito trabalho a fazer e deu muito trabalho a organizar as três escolas do agrupamento” para receber os seus 1400 alunos em segurança. Escreve nesta missiva: “Não posso permitir que a estranha versão de generosidade do seu filho, que ainda me há-de indicar qual dos 4 estava em jejum, ponha tudo a perder. O cumprimento de simples regras de higiene e distanciamento são o que pedimos à geração do seu filho. O senhor fez hoje passar uma atitude irresponsável e de desrespeito pela escola toda, por um ato heróico. Os meus sinceros parabéns. As regras são claras. No documento divulgado no inicio do ano é referido quais as penalizações para o seu incumprimento”. E remata: “Não gostam do meu trabalho? De 4 em 4 anos há eleições para diretor”.
Tendo conhecimento que escola e família estão em contacto, o Ministério da Educação, contactado pela VISÃO, ressalva que está a acompanhar a situação. Há um mês, citada pelo DN, a mesma Cristina Frazão declarava: “A escola é o sítio mais seguro para as crianças, porque ali elas cumprem as regras”.