COMO NÃO FALAR D’ELE?
Uma caminhada lenta e silenciosa pelas ruas da cidade de Ponta Delgada. Varandas vestidas de colchas, há um ano guardadas em baús, esvoaçando no vento como bandeiras desfraldadas a anunciar eventos grandiosos. Rostos humanos respirando alívios de sofrimentos resgatados pelo Senhor. Outros vergados sob o peso de pedidos e orações ainda não atendidas.
Gente que, vinda de toda a parte, anseia por entrar no seio do Mistério. Vão pelos caminhos seguindo na esperança de uma palavra, um gesto, uma mudança, uma bênção vindas do Filho de Deus.
– Dai ao meu filho um emprego! Ouve-se algures. – Alivia as dores da minha mãe. – Cura-me com o Teu poder. – Ajuda-me a libertar dos meus vícios que ameaçam a integridade da criança que eu fui.
E a procissão segue por ruas estreitas e antigas – sempre as mesmas – onde os rosários pendem de mãos finas ou grosseiras, de gente simples ou arrogante, de jovens a idosos. Ouve-se o Hino do Senhor Santo Cristo que as Filarmónicas de toda a Ilha de S. Miguel vão tocando ao longo deste percurso religioso. É um Hino conhecido de todos; traz recordações vindas de tempos ancestrais, de fúrias e lamentos do interior da terra destas Ilhas, de bocas de fogo e lava que levaram a que joelhos cansados do trabalho se vergassem a olhar o Alto como única fonte de vida e esperança.
No Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, todo o ano a imagem do Ecce Hommo é venerada. Está em clausura, mas através das grades que a separam do contacto físico porque o homem anseia, pode-se ver e “conversar” com esta representação milagrosa d’Aquele que arrasta multidões, apesar de tanto tempo já passado.
Podemos dizer, mesmo, indo ao início desta adoração, que ”
…numa ilha de vulcões em actividade constante e de sismos frequentes, a devoção era o único refúgio do povo, através do culto do Divino Espírito Santo e ao Senhor Santo Cristo dos Milagres.
A devoção que Madre Teresa da Anunciada, venerável religiosa do convento de Nossa Senhora da Esperança, tão intensamente sentiu por Cristo, marcou profundamente a alma do povo, de tal modo que o culto ao Senhor, através da procissão com a imagem, se expandiu e fortaleceu ao longo dos séculos.
É, hoje em dia, a maior procissão, a mais grandiosa e a de maior devoção que se realiza em terras Portuguesas”. de acores.net/santocristo.
É, também, importante saber como a história nos fala do início deste movimento religioso e humano perpetuado até hoje.
O seu começo situa-se no Convento da Caloura, em Água de Pau, em S. Miguel. “Reza a tradição que foi neste lugar que se erigiu o primeiro Convento de Religiosas nesta Ilha, convento cuja fundação se deveu, principalmente, à piedade das filhas de Jorge da Mota, de Vila Franca do Campo.
Mas para que tal comunidade fosse estabelecida como devia, foi necessário que alguém fosse a Roma impetrar a respectiva Bula Apostólica. Largaram, por isso, de S. Miguel a caminho da Cidade Eterna, duas religiosas. Aí solicitaram ao Papa o desejado documento. Tão bem se desempenharam dessa missão que o Sumo Pontífice não só lhes passou a ambicionada Bula como ainda lhes ofereceu uma Imagem do Ecce Homo. De regresso a Vale de Cabaços, a singular imagem foi posta num nicho onde se conservou por poucos anos.
Porque o lugar era ermo e muito exposto às incursões dos piratas, o pequeno Mosteiro ficou, certo dia, deserto, pois parte das religiosas seguiu para Santo André, de Vila Franca do Campo, e a outra parte se encaminhou para Ponta Delgada, para o Mosteiro da Esperança, acabado de fundar pela viúva do Capitão Donatário, Rui Gonçalves da Câmara.
Mas a Imagem do Senhor Santo Cristo não ficou esquecida em Vale de Cabaços, porque a religiosa galega Madre Inês de Santa Iria a quis trazer para Ponta Delgada.” de acores.net/santocristo
Assim continuamos nós, um povo ilhéu, a agradecer, e a pedir bênçãos e graças a este Senhor que nos visita todos os anos vindo ao nosso encontro pelos caminhos que percorremos dia a dia.
Dra. Maria da Conceição Brasil mcbrasil2005@hotmail.com
27/05/2011