Somos os brancos?
Não, está calado e deixa-me ver!
Não consigo perceber nada disso.
Está calado e vê.
Uma mulher sentada no lugar dos fanáticos. Um homem do outro lado, na cadeira dos menos loucos, dá murros na mesa, constrói frases com dez palavras, quatro a seis asneiras. A mulher berra como se estivesse a parir qualquer coisa pela boca. O homem quando não comenta bebe, quando não bebe come, quando nem uma coisa nem outra, foi mijar.
Corram! Corram!
Eles ouvem-na. Ouvem mesmo. Na verdade quando ela grita todos correm mais rápido e quando ela não grita não fazem nada. Ficam quietos e desordenados. Um miúdo com um grande carro na garagem, um bom cão a nadar na piscina e uma bela mulher nas molduras da casa de banho.
Um parece que chora, rebola pelo chão e segura o joelho com tanta força que se o soltar deve desfazer-se no verde, não acredito, aquilo é a arte do fazer de conta para um acreditar no que milhões não conseguem ver. O suor visto a esta distância pode transformar-se em lágrimas. O outro, agora não me lembro qual era, está de pé e espera o castigo, sabe que fez asneira e inventa duas desculpas para enganar o senhor que apita com o dedo no ar. Mostra quem manda. E são asneiras na boca, nas mesas e nos pés.
De manhã bem cedo, as aulas começavam depois do almoço, havia aquele nevoeiro antes do sol, tornava o ar húmido. Era bom deixar a cama e sair de casa, pelo caminho o grupo crescia, tínhamos uma equipa. Às vezes ficava na baliza, também era jogar, também tinha arte, festejava os golos não marcados… Nessa altura não percebia nada de futebol. Agora já sei o que é um “fora de jogo”.
Ganhámos. E agora o que fazer com aquelas anedotas fabricadas depois de muitas horas com o senhor e com a senhora? Aprende-se a gritar como eles e a dizer as mesmas palavras técnicas. Se eles voltarem para casa cedo ainda dá para usar algumas destas piadas.
Pode ser que o lixo não tenha sido recolhido e por lá encontre o papel onde guardei o discurso do senhor que estava de férias nos Açores.